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Não vale tudo

Pluralismo, excelência e liberdade de expressão na universidade

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Rubinho Nunes: de tanto provocar – Imagem: Redes Sociais
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Nas últimas semanas, a universidade brasileira foi sacudida por uma polêmica. Dois manifestos contrastantes foram lançados, com visões divergentes sobre o problema da liberdade de expressão. O primeiro, intitulado Em Defesa do Pluralismo e da Liberdade Acadêmica, denuncia o crescimento da intolerância e o cerceamento de debates. A resposta, Em Defesa do Pluralismo Encarnado, desloca a discussão, pontuando que nunca houve tanta diversidade. O pluralismo seria medido por alunos de origem social diferente presentes, hoje mais que antes, graças às políticas de democratização do acesso ao ensino superior.

São alvos distintos. Um indica que estudantes e professores revelam receio de apresentar opiniões divergentes da maioria (real ou percebida) nos campi. Para o outro, o que importa é a presença de vivências sociais plurais. Enquanto um grupo fala em “respeito às instituições democráticas e às garantias constitucionais”, o opositor afirma que o debate “exige compromisso ético (e) empatia pela diferença”.

Cada manifesto reúne centenas de assinaturas, com predominância de docentes de humanas. Ainda que os dois grupos sejam heterogêneos, é possível dizer que os signatários do primeiro manifesto em geral têm reputação acadêmica mais estabelecida, enquanto o segundo congrega mais professores jovens, que buscam um lugar ao sol. Esse conflito geracional não é surpreendente (e explica a centralidade, no contramanifesto, da ideia de que a insatisfação é efeito do “ressentimento” de quem vê sua posição ameaçada). Mas, para além dele, o debate revela um mal-estar nas universidades que precisa ser discutido.

O tema é complexo porque envolve diversas questões que se entrelaçam de maneira por vezes contraintuitiva. Tanto quanto a censura, a liberdade de expressão e a diversidade, estão em jogo os critérios de admissão no debate acadêmico e o compromisso social das instituições de ensino.

Para começar, é bom reconhecer com honestidade o problema. Existem, sim, ameaças à liberdade de expressão, não só no Brasil, mas mundo afora. Uma parte delas vem da direita – as investidas do Escola sem Partido e ações dos governos Temer e Bolsonaro, no Brasil, ou o cerco contra os defensores da ­Palestina, nos EUA, um traço comum aos governos ­Biden e Trump. O alvo do primeiro manifesto é, porém, muito mais a movimentação de grupos militantes, que se orgulham de vetar a presença de “direitistas” ou mesmo de quem, identificando-se com a esquerda, discorda de certas pautas ou enquadramentos.

Um exemplo está nas questões relacionadas a gênero. Posições feministas materialistas, que afirmam a relevância do sexo biológico, têm sido estigmatizadas como “transfóbicas” e alvos de campanha de silenciamento. Há múltiplos casos espalhados pelas universidades e um nítido receio, por parte de vozes divergentes da vulgata queer, de se pronunciarem sobre a temática.

Ao mesmo tempo, posições que se proclamam vinculadas a perspectivas minoritárias reagem agressivamente a críticas, criando categorias como “epistemicídio” ou “assédio epistemológico” para afirmar que a recusa a seus métodos e às suas teorias é uma forma de violência. A divergência é pintada como falha moral e preconceito, nesta sobreposição entre agenda política e debate científico.

Aí ocorre a curiosa inversão, em que grupos que rejeitam as regras consagradas de produção de argumentos válidos no debate acadêmico se julgam capazes de vetar a presença de adversários.

O rigor científico continua essencial

A democratização da universidade deixou de ser vista como democratização do acesso a um conjunto de saberes e competências, sendo ressignificada como legitimação de uma profusão de práticas e “epistemologias alternativas”, associadas a vivências subalternizadas. A singularidade do conhecimento produzido pela ciência, do qual a universidade é promotora e guardiã, é descartada. Muitas vezes, o depoimento e a autoidiografia tomam o lugar da pesquisa e exigem ser validados como produção científica. O debate ganhou corpo com a performance de uma travesti em um evento acadêmico na Universidade Federal do Maranhão, em 2024. Em vez de apresentar um trabalho, ela fez uma dança erótica, enquanto entoa­va uma canção de sua autoria, cujo mote era “educando com o cu”. Diante da indignação generalizada, seus defensores disseram que toda a crítica era manifestação do conservadorismo de quem não admitia uma “epistemologia” diferente.

Creio que este é o cerne da questão. A liberdade de expressão nas universidades não é absoluta, ela é limitada pelas regras do debate científico. Não vamos reclamar da ausência de criacionistas nos cursos de biologia ou de quem diga que “o nazismo era de esquerda” nos cursos de história. Usar a Bíblia como argumento de autoridade é tão inaceitável, no ambiente acadêmico, quanto apelar para os orixás. Mas uma é reivindicada pela direita e os outros, pela esquerda hipster.

A ciência não alcança verdades absolutas, superamos o positivismo e sabemos disso. Mas ela acumula debates e vence determinadas questões. Não podemos voltar cada vez à estaca zero em temas sobre os quais o consenso científico se estabeleceu. Por isso, também, a questão não é reivindicar mais conservadores nas ciências sociais. Para começar, eles não estão ausentes, nem das bibliografias nem dos corpos docentes. Mas, sobretudo, o conteúdo de uma disciplina não deve ser um mostruário de opções políticas, e sim baseado no que é relevante como ciência. Posições críticas são mais capazes de explicar o mundo social, por isso predominam. O materialismo histórico fornece melhores ferramentas para entender a história do que uma visão idealista ou centrada na ação de “grandes homens”. O conceito de luta de classes abre mais portas para a compreensão da sociedade em que vivemos do que a ideia de “meritocracia”. É natural, portanto, que cursos acadêmicos deem mais espaço a Marx do que a Olavo – ou a Nego Bispo.

A liberdade de expressão no ambiente acadêmico precisa, portanto, ser desdobrada em duas. Ninguém deve ser expulso por causa de suas posições políticas. Mas, nos debates científicos, não vale tudo e os argumentos devem ser levados em conta por seu peso intrínseco.

Isso não significa assumir uma posição de neutralidade da universidade ou da ciência. Elas não são isentas de valores. E uma universidade, sobretudo num país como o Brasil, que não assume o compromisso de contribuir para a transformação social seguramente não está cumprindo bem o seu papel.

Liberdade de expressão com rigor científico, democratização do acesso sem paternalismo, compromisso social com excelência, resistência às pressões do mercado. Os desafios para a universidade não são poucos – e devem ser entendidos em toda a sua complexidade, sem unilateralidades. •


*Cientista político, professor da UnB.

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Não vale tudo’

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