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Incêndio na Patagônia e hantavírus
Eis outra demonstração dos vínculos entre a destruição do meio ambiente e os surtos recentes de enfermidades
Doenças e destruição da natureza caminham lado a lado. Você provavelmente se lembra das cenas devastadoras das florestas dos parques nacionais da Patagônia em chamas no início de 2026. Nos últimos anos, temos assistido a um aumento expressivo dos incêndios florestais em diferentes partes do mundo, com episódios impressionantes no Oeste da América do Norte, na Amazônia e no Mediterrâneo, além da intensificação de fenômenos climáticos extremos no Hemisfério Sul. Sabe-se que esse agravamento está ligado ao aquecimento global acumulado ao longo da história recente do planeta.
Condições mais secas e temperaturas mais elevadas favorecem a propagação rápida das chamas e tornam o combate ao fogo muito mais difícil. No caso das queimadas na Argentina, especula-se que tenham sido originadas por ação humana. De acordo com a Agência Federal de Emergências, as principais causas são fogueiras e bitucas de cigarro mal apagadas e preparação de áreas de pastagem com fogo. Tais ações negligentes, associadas à escalada de temperatura global, criam condições de incêndio sem precedentes. Com a destruição das matas, surgem as doenças. A migração de roedores silvestres e outros habitantes da floresta para áreas urbanas resultou em um aumento na incidência de infecções por hantavírus na Argentina. Somem-se a isso as condições precárias de saúde e alimentação impostas à população pelas políticas públicas equivocadas dos últimos anos.
O hantavírus foi descrito pela primeira vez na década de 1970 em um surto que ocorreu na Coreia do Sul, na região do Rio Hantan (vem daí seu nome). Em geral, o ser humano infecta-se com o vírus ao tomar contato com fezes e urina de roedores silvestres. Em se tratando da variante Andes, pode ocorrer também a transmissão de pessoa para pessoa por via respiratória e contato próximo. Os sintomas podem incluir dor de cabeça, febre, enjoos e vômitos e evoluir para quadros hemorrágicos, insuficiência renal e respiratória.
A chance de óbito é de 30% a 40% e não há tratamento específico ou vacina para esse vírus. Outro fator de complicação é o longo período de incubação da doença, que pode levar até 40 dias. Num mundo globalizado não há para onde fugir e nesse contexto surge um surto de hantavírus num navio que visitava a Patagônia. O vírus tem inúmeras variantes e esta que acometeu os passageiros do navio Hondius é a variante Andes, ou seja, transmissão pessoa a pessoa num espaço de confinamento em alto-mar. Cena de série de suspense. E vem aí mais um capítulo. Nos últimos dois dias, os passageiros do navio estão sendo repatriados para diversos países, cada um com uma política de quarentena e medidas sanitárias diferentes. Cria-se uma atmosfera de apreensão no mundo todo, que ainda tem gravados na memória os horrores da Covid-19.
No caso do hantavírus, as chances de uma disseminação global rápida são muito pequenas, pois o comportamento do vírus é bastante diferente do SARS-CoV-2. A boa notícia é que o sequenciamento genético desta cepa foi realizado e não mostrou nenhuma mutação que pudesse alterar o poder de infectividade do vírus. Mais uma vez, um convite a entendermos que preservar o meio ambiente é crucial para o nosso bem-estar. Uma frase do biólogo Javier Grosfeld, ex-diretor regional de Conservação de Parques Nacionais no norte da Patagônia e estudioso dessas árvores há muitos anos, sintetiza com precisão o impacto catastrófico desses incêndios: “Entrar em um bosque de lariços é como entrar em uma catedral. São indivíduos ancestrais, de escala e presença tão imponentes que inspiram silêncio e respeito. Os lariços podem viver até mil anos e ultrapassar 40 metros de altura, distribuídos como exemplares únicos dentro da floresta, desempenhando um papel ecológico insubstituível”. Com certeza, a destruição dessas “árvores-entidades’’ não passará despercebida ao planeta. •
Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Incêndio na Patagônia e hantavírus’
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