Josué Medeiros

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Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

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Quaest e áudio-bomba de Flávio Bolsonaro a Vorcaro devolvem boas notícias a Lula

Haverá um crescimento da dispersão de votos na direita, especialmente para Romeu Zema e Ronaldo Caiado, mas também Renan Santos

Quaest e áudio-bomba de Flávio Bolsonaro a Vorcaro devolvem boas notícias a Lula
Quaest e áudio-bomba de Flávio Bolsonaro a Vorcaro devolvem boas notícias a Lula
Coletiva de imprensa com Flávio Bolsonaro e aliados, em 9 de maio de 2026. Foto: Vitor Souza/AFP
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O áudio de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro revelado pelo Intercept Brasil cai como uma bomba para o bolsonarismo. Não apenas pelo conteúdo em si, que arrasta o filho de Jair Bolsonaro para o centro do escândalo do Banco Master, consolidando a ideia de BolsoMaster já trabalhada pela esquerda. Mas também porque a pesquisa Quaest publicada nesta quarta-feira 13 apresentou uma tendência de crescimento consistente de Lula — uma tendência que será impulsionada pelo vínculo entre Flávio e Vorcaro e marcará um novo momento da campanha presidencial de 2026. 

Na Quaest, as boas notícias para Lula resultam de dois eixos: movimentos concretos do governo no curto prazo e o que o presidente chama de “colheita” do que foi feito desde 2023, no âmbito das políticas públicas e de reconstrução da democracia. 

No curto prazo, dois elementos foram centrais: o lançamento do Novo Desenrola e a reunião de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O novo programa de renegociação das dívidas de brasileiras e brasileiros gera um impacto imediato no humor do eleitorado. As pessoas não apenas se sentem aliviadas por resolverem pendências financeiras, mas sentem que há um movimento concreto do governo para cuidar delas. Essa percepção de proteção e acolhimento se conecta diretamente com a dimensão carismática de Lula, que ultrapassa os recortes de direita e esquerda e de conservadores e progressistas.

A reunião com Trump bate no mesmo lugar do carisma, mas pela chave da altivez e da negociação. Ao receber elogios públicos do norte-americano, percebido pela população brasileira em várias pesquisas como agressivo e contrário aos interesses nacionais, Lula reforça e atualiza a imagem de líder capaz de posicionar o Brasil no plano nacional de modo positivo. O povo brasileiro nutre um nacionalismo popular a projetar o Brasil como um país que merece destaque na ordem global, e Lula alimenta — e é alimentado — por esse sentimento nacionalista. 

É neste sentido do reforço da capacidade de Lula de cuidar das pessoas e do Brasil que a pesquisa Quaest deve ser lida. A diferença entre desaprovação (49%) e aprovação (46%) do presidente diminuiu de 9% para apenas 3%. É a menor diferença desde fevereiro de 2026. 

Outros dados da Quaest confirmam essa direção: o número de pessoas que consideram que o País vai na direção errada caiu de 58% para 53%, bem acima da margem de erro. Já a quantidade de pessoas que entendem que o Brasil está na direção certa subiu de 34% para 38%, também além da margem. O total do eleitorado que vê mais notícias negativas do que positivas sobre o governo recuou de 48% para 43%, e as pessoas que veem mais notícias positivas do que negativas sobre o governo Lula subiram excepcionalmente acima da margem, de 23% para 32% — um aumento de 11 pontos percentuais. 

Na intenção de voto, Lula cresceu na modalidade espontânea de 19% para 22%, enquanto Flávio passou de 13% para 14%. Quanto aos números no cenário estimulado de primeiro turno, Lula passou de 37% para 39%. Já Flávio oscilou de 32% para 33%. Esses dados, analisados em conjunto, indicam que o petista começa a recuperar eleitores que ao fim de 2025 declaravam voto nele, enquanto Flávio amealha votos dos outros candidatos de direita.

É nesse quadro, positivo para o governo Lula e negativo para a oposição, que surge o áudio de Flávio Bolsonaro para Vorcaro. De acordo com a reportagem do Intercept, o filho de Jair pediu 134 milhões de reais ao banqueiro para financiar um filme em favor de seu pai, condenado e preso pela tentativa de golpe de 8 de Janeiro de 2023. Na conversa, Flávio teria dito a Vorcaro: “Estou e estarei sempre contigo”. 

Se confirmada, a mensagem de voz é devastadora para Flávio Bolsonaro. É provável que, mesmo com o áudio, ele mantenha um alto percentual de votos, pois o eleitorado bolsonarista já mostrou fidelidade ao clã. Porém, é virtualmente impossível que ele mantenha o atual patamar, uma vez que não tem nem a máquina do Estado – que Jair tinha em 2022 –, nem o carisma do pai, fundamental na eleição de 2018. 

Haverá um crescimento da dispersão de votos da direita entre os demais candidatos deste campo, especialmente Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD, mas também Renan Santos, do Missão. Além disso, haverá um aumento das disputas internas na extrema-direita, como a que opõe Ricardo Salles e Eduardo Bolsonaro pela vaga na chapa ao Senado em São Paulo ou os conflitos entre o filho de Bolsonaro foragido nos Estados Unidos e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).

Neste sentido, não devemos descartar nem mesmo uma substituição de Flávio na candidatura presidencial. O nome de Michelle Bolsonaro ganhará força, diante da atuação dela junto às mulheres e ao eleitorado evangélico. Porém, dificilmente a esposa de Jair conseguirá se desvincular da consolidação do BolsoMaster, com sua família envolvida até o pescoço por centenas de milhões de reais com Daniel Vorcaro. 

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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