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Estão doutrinando nossos jovens nas escolas

Quem tem o poder de decidir quais ideias podem circular na escola e quais devem ser tratadas como ameaça?

Estão doutrinando nossos jovens nas escolas
Estão doutrinando nossos jovens nas escolas
Ato do vereador bolsonarista Lucas Pavanato (PL-SP) na Universidade de São Paulo (USP). Créditos: Reprodução
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Em março de 2026, um vereador paulistano de extrema direita instalou uma tenda na Praça do Relógio da Universidade de São Paulo segurando uma placa com os dizeres “aborto é assassinato”. Dizia estar ali para ‘debater ideias’.

Pouco tempo depois, o campus se transformaria em cenário de confronto, empurrões, spray de pimenta e vídeos que rapidamente circularam nas redes sociais como prova da suposta intolerância das universidades públicas brasileiras.

No mês seguinte, em Hortolândia (SP), famílias esconderam gravadores dentro das mochilas de crianças para registrar, sem o conhecimento do professor, aulas da rede municipal. Os episódios sintetizam uma dinâmica cada vez mais frequente: escolas e universidades transformadas em espaços de vigilância, exposição pública e disputa ideológica, quase sempre acompanhadas pela acusação de que professores estariam “doutrinando” estudantes.

Em um ano marcado por eleições, não causa estranhamento a recorrência de episódios que transformam escolas e universidades em alvos de disputas ideológicas – amplamente exploradas nas redes sociais.

Parlamentares, influenciadores e grupos políticos da extrema direita brasileira têm retomado discursos que criminalizam o trabalho docente por meio de pânicos morais centrados na figura do “professor doutrinador”. Não raramente, após a repercussão desses episódios, anunciam candidaturas, fortalecem projetos eleitorais ou declaram apoio político a determinados candidatos.

Nessa toada, têm se tornado recorrentes episódios de exposição pública, constrangimento e até abordagens agressivas promovidas por parlamentares, influenciadores e candidatos contra professores e estudantes em instituições públicas de ensino, especialmente nas universidades federais. Gravações descontextualizadas, denúncias sem comprovação e acusações genéricas de “militância ideológica” passam a circular como evidências de uma suposta ameaça presente no ambiente educacional.

Nas universidades públicas, os alvos preferenciais costumam ser os cursos da área de humanas, como Serviço Social, Sociologia, História, Filosofia e Pedagogia. Nas escolas de educação básica, o foco da vigilância recai quase sempre sobre professores da área de Humanidades, como se discutir desigualdade social, racismo, democracia, direitos humanos ou gênero representasse automaticamente uma forma de doutrinação.

Ao mesmo tempo, chama atenção o fato de que raramente esse mesmo tipo de fiscalização moral se dirige às instituições privadas de ensino. Tampouco se observa mobilização semelhante contra escolas cívico-militares ou escolas militares, espaços em que valores políticos, morais e disciplinares específicos são frequentemente apresentados como naturais e desejáveis. Em diferentes ocasiões, vídeos de crianças e adolescentes cantando músicas que exaltam a violência de Estado, a tortura e a morte circularam nas redes sociais sem produzir o mesmo nível de indignação pública por parte dos “fiscais da doutrinação”. Não parece haver preocupação com neutralidade quando a ideologia transmitida coincide com valores conservadores, nacionalistas ou militarizados.

O mesmo silêncio costuma ocorrer diante da presença de práticas religiosas em ambientes escolares, como orações coletivas, palestras confessionais ou atividades vinculadas a determinadas tradições religiosas. Embora também expressem valores e concepções específicas de mundo, essas práticas raramente são enquadradas pelos “fiscais da doutrinação” como formas de influência ideológica.

Também chama atenção a ausência de indignação proporcional diante de problemas efetivamente graves relacionados às políticas educacionais. Em diferentes estados brasileiros, redes públicas distribuíram materiais didáticos contendo erros históricos e conceituais grosseiros, sem que isso produzisse o mesmo nível de mobilização política observado nas denúncias contra professores de Humanidades. Em São Paulo, por exemplo, materiais distribuídos pela rede estadual apresentaram erros factuais amplamente divulgados pela imprensa, como informações equivocadas sobre a autoria da Lei Áurea, datas das guerras mundiais e até a afirmação de que a capital paulista possui praias, mas não houve campanhas exigindo fiscalização ideológica dos responsáveis por esses erros conceituais.

A seletividade do debate torna-se ainda mais evidente quando observamos a atuação de grupos privados que produzem materiais educacionais fortemente orientados por determinadas visões políticas e ideológicas. A produtora Brasil Paralelo, por exemplo, tem ampliado sua presença no campo educacional por meio da distribuição de conteúdos audiovisuais e materiais didáticos, tanto em escolas públicas como privadas, que frequentemente apresentam interpretações distorcidas ou falseadas de fenômenos históricos e sociais, especialmente relacionados à ditadura militar brasileira, às desigualdades sociais e ao papel das Ciências Humanas. Ainda assim, dificilmente essas iniciativas são classificadas publicamente como “doutrinação”.

Mais recentemente, a própria ambição de formar professores passou a integrar o projeto de expansão desse tipo de empresa. O debate sobre neutralidade educacional parece desaparecer quando determinados grupos econômicos e ideológicos buscam disputar diretamente a formação docente e a produção de conteúdos escolares alinhados a perspectivas conservadoras específicas.

Talvez um dos exemplos mais expressivos dessa contradição esteja na incorporação crescente de componentes curriculares como “Projeto de Vida” e conteúdos fortemente orientados pela lógica do empreendedorismo individual, impulsionados pela Lei nº 13.415/2017 e mantidos, ainda que reformulados, após a aprovação da Lei nº 14.945/2024. Sob a linguagem da autonomia e da inovação, esses componentes curriculares difundem concepções de sucesso centradas na responsabilização individual e na adaptação flexível às condições do mercado. A ideia de cidadania vai sendo gradualmente substituída pela noção de performance econômica individual, como se o principal objetivo da escola fosse formar jovens capazes de suportar a precarização do trabalho contemporâneo, muitas vezes associados ao imaginário do trabalho em aplicativos de entrega ou transporte, e não sujeitos aptos a compreender criticamente a sociedade e ampliar seus horizontes educacionais, científicos e profissionais.

Iniciativas como o movimento Escola sem Partido, criado há quase vinte e cinco anos, tiveram papel relevante na difusão da ideia de que a prática pedagógica deveria se restringir a uma suposta neutralidade ideológica, entendida como condição para um ensino legítimo.

No entanto, a expectativa de neutralidade absoluta na educação ignora que a escola não opera fora da sociedade, mas dentro dela. Isso significa que práticas pedagógicas, currículos e conteúdos são atravessados por valores, escolhas e formas específicas de compreender o mundo. Ensinar não é apenas transmitir informações neutras, mas selecionar, organizar e interpretar conhecimentos considerados socialmente relevantes.

Ao mesmo tempo, reconhecer esse caráter não significa defender a escola como espaço de doutrinação, mas compreender que a educação é, por natureza, uma prática social e histórica. Toda ação pedagógica envolve escolhas, interpretações e enquadramentos de mundo, e é justamente por isso que o debate sobre seus limites deve ser público, informado e qualificado.

No fundo, a pergunta que atravessa esse debate talvez seja mais simples e mais incômoda do que parece: quem tem o poder de decidir quais ideias podem circular na escola e quais devem ser tratadas como ameaça? Porque, no Brasil contemporâneo, o problema nunca foi a existência de ideologias na educação. O problema é quais delas terão o privilégio de parecer neutras.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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