Educação
‘Parecia cena de ditadura’: PM agride estudantes em ocupação da reitoria da USP
A manifestação iniciada quinta-feira terminou após com ação violenta na madrugada deste domingo; estudantes chegaram a ser detidos
Uma ação violenta da Polícia Militar de São Paulo encerrou, na madrugada deste domingo 10, a ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) por estudantes em greve. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram dezenas de PMs armados, que deram golpes com cassetetes e lançaram gás lacrimogêneo contra os estudantes.
A ação foi realizada por volta das 4h15 da manhã deste Dia das Mães na cidade universitária, no Butantã, zona oeste da capital, numa tentativa de reintegrar o prédio da administração da universidade. Mães de manifestantes iriam preparar um almoço junto aos estudantes, que ocupavam apenas o hall central do prédio da reitoria.
“Enquanto o movimento grevista estava no aguardo de diáogo e negociação com o reitor, a PM chegou na calada da noite nos agredindo, tem estudantes com o dedo, nariz e braço quebrados. Isso é covardia!”, disse uma integrante da mobilização estudantil.
Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da USP, quatro alunos foram detidos e encaminhados ao 7º Distrito Policial, na região da Lapa e Vila Romana, Zona Oeste da capital paulista. Horas depois, foram liberados, após pressão de estudantes na frente da delegacia.
Ainda segundo o DCE, cinco estudantes ficaram feridos durante a ação policial, e um deles segue hospitalizado. Os demais integrantes do grupo que ocupava o prédio retornaram a suas casas, e a vigilância policial na reitoria prossegue.
Chegada da PM na ocupação da reitoria da USP relembra cenas da ditadura militar no campus – Divulgação/Guilherme Farpa
“O que o reitor [Aluísio Segurado] e seu chefe de gabinete Edmilson Freitas vão dizer para as mães de centenas de estudantes vítimas dessa ação truculenta? Temos um estudante da universidade que está realizando uma tomografia para avaliar risco de traumatismo; uma das estudantes teve o braço quebrado, outra, torcido. É o histórico da PM de Tarcísio de Freitas, não podemos esquecer a Operação Escudo, em que 94 pessoas foram mortas na Baixada Santista” disse Daniel Lustosa, estudante de Relações Internacionais e coordenador geral do DCE Livre da USP à CartaCapital.
A manifestação
A ocupação começou na quinta-feira 7, depois que o reitor Aluísio Segurado decidiu cancelar a mesa de negociações por demandas estudantis, como o aumento do auxílio permanência aos estudantes de baixa renda. Segurado afirmou na sexta 8 que não iria reabrir negociações com os estudantes em greve após a entrada no prédio da reitoria.
Antes da ação deste domingo, a reitoria soltou um comunicado informando “lamentar a escalada de violência e depredação do patrimônio público provocado pelos estudantes”. Até o momento foi confirmado apenas que a porta de entrada principal ao hall da reitoria havia sido derrubada, após o reitor mandar trancamento das portas.
“A ocupação já passava de 60 horas, não havia qualquer sinal de violência ou grave ameaça a qualquer pessoa, a operação ocorreu fora do horário de funcionamento administrativo, e a todo momento houve acompanhamento policial. Ainda no rol das ilegalidades, não há qualquer informação sobre a motivação real para a detenção de quatro estudantes, ou mesmo, quais condutas lhes foram imputados para que ensejasse o encaminhamento destes estudantes à 7ª DP”, relatou o DCE.
A Universidade, em nota, “lamentou os acontecimentos durante o processo de reintegração de posse do prédio da reitoria. Na manhã deste domingo, sem comunicação prévia à reitoria, houve desocupação do espaço pela Polícia Militar”. “A reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil”, prossegue o texto.
CartaCapital procurou a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo e aguarda resposta.
Até o momento, institutos e cursos da universidade estão emitindo notas de repúdio à ação violenta da PM. É o caso do Departamento de Direito do Trabalho e Seguridade Social, da Faculdade de Direito da USP. “Ao que se tem notícia, a invasão que levou à violência provocada pelos policias sequer agiu em cumprimento a uma decisão judicial. Toda essa violência talvez se explique pela própria origem do conflito. Finalmente admitimos depois de décadas de exclusão, estudantes da classe trabalhadora, grande parte, negros e negras, reinvidicando condições mínimas de permanência universitária, como moradia e alimentação”, publicou.
‘Parecia cena de ditadura’
Os moradores do Conjunto Residencial da USP (Crusp) foram acordados na madrugada deste domingo com barulhos de bomba. Em mensagens, o grupo de grevistas solicitou apoio da associação de moradores, os únicos a estarem no campi, principalmente por ser fim de semana e dia das mães.
“Eu estava dormindo e acordei com um barulho, pensei que era tiro. Fui checar o celular e os estudantes que estavam acampados na reitoria imploravam por apoio, informando que a PM que estava invadindo o espaço, batendo neles e destruindo suas coisas”, relatou à CartaCapital uma moradora que prefere não ser identificada.
“Parecia cena de ditadura, tivemos que chamar ambulância às pressas porque tinha gente chorando de dor por conta do braço quebrado”, contou a aluna.
Repressão violenta da PM na ocupação da reitoria da USP – Divulgação/Guilherme Farpa
O Crusp está entre as reivindicações dos estudantes da greve que já dura três semanas, como reformas e entregas de novos blocos para moradia. A moradia é considerada um dos piores alojamentos universitários do país, por não realizar reforma de infraestrutura desde a década de 1960, quando o espaço foi construído para abrigar os jogos atletas que disputaram os Jogos Pan-Americanos de 1963.
“Essa ação ocorre de forma abusiva eivada de ilegalidade, vez que ocorre sem qualquer determinação judicial que pudesse embasar a ação policial. É preciso apontar que, mesmo em situações em que há determinação de reintegração de posse (o que não é o caso), existe um conjunto de regras que orientam o procedimento de desocupação, entre as quais a ilegalidade da realização de operações entre às 21h e 5h, algo pacífico nos tribunais”, afirmou o DCE, em nota.
O planejamento da ação começou na sexta-feira 8, dia seguinte à ocupação, entre a gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a USP. Os estudantes organizaram um festival cultural, remontando às origens do movimento estudantil. Para a ocasião, artistas foram convidados para apresentar performances, musicais e pequenas cenas teatrais.
No mesmo dia, integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) e do Partido Missão foram ao local e gravaram vídeos contra os estudantes, criticando as ações da greve.
Ainda na sexta, a Polícia Militar havia fechado os acessos da rua da reitoria da USP, cercado o prédio ocupado pelos estudantes e cortado a energia elétrica e a água do prédio. A estratégia de desocupar o prédio no Dia das Mães tem relação com a menor participação dos estudantes no campus.
Arbitrariedade jurídica
O movimento estudantil interpreta a violência policial como ação política. Para o advogado Ronaldo Barbosa, assessor do DCE Livre da USP, não há qualquer autorização judicial para uma ação como essa. “Iremos acompanhar o caso e tomar as medidas necessárias. A advogada Letícia Chagas esteve na delegacia, mas foi impedida de acompanhar os depoimentos. Não se sabe o teor dos documentos que foram lavrados”, criticou Barbosa.
A equipe jurídica do DCE também afirma que vai acionar a corregedoria geral do estado de São Paulo, com o objetivo de apurar a ação policial. A procuradoria geral da universidade e a ouvidoria também serão notificadas. “Já foi solicitado exame de corpo de delito na UPA e postos de saúde onde os estudantes feridos para avaliar a letalidade da ocorrência, que pode embasar um pedido ao ministério público do estado”, destacou o advogado.
Barbosa também critica a diferença no tratamento da PM. “Nesta sexta, a polícia militar escoltou membros do MBL que estavam no campus insultando os estudantes para fazer conteúdo provocativo. Hoje [domingo], temos a PM batendo em estudantes”.
Os estudantes seguem ainda solicitando reabertura da mesa de negociações por demandas ligadas à permanência dos estudantes, como melhoria na alimentação dos restaurantes universitários – e ao ingresso, como inserção de cotas trans, vestibular indígena, e aprovação de cotas para pessoas com deficiência.
Nesta segunda-feira 11 acontece um ato em frente a Cruesp, órgão que unifica as reitoria das universidades estaduais paulistas. O ato pretende juntar demandas de greve de estudantes da Unesp e Unicamp, que também estão em greve, além da USP.
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