Do Micro Ao Macro
67% das pessoas com deficiência nunca foram promovidas no emprego
Pesquisa aponta que barreiras de acessibilidade e ausência de tecnologia assistiva travam a progressão de carreira mesmo após anos na mesma empresa
A inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho brasileiro avançou com a Lei de Cotas, mas parou na porta dos departamentos de RH. Dados de 2025 mostram que 67% dessas pessoas nunca receberam uma promoção no emprego atual.
O número vem do relatório Radar da Inclusão 2025, produzido pela consultoria Talento Incluir e o Pacto Global da ONU no Brasil, em parceria com o Instituto Locomotiva. Em relação ao levantamento de 2024, o percentual cresceu quatro pontos.
O que torna o dado mais revelador é o contexto: 41% dos entrevistados trabalham na mesma empresa há mais de três anos. Ou seja, permanência não se traduz em ascensão.
Barreiras que vão além da contratação
A Lei de Cotas obriga empresas com mais de 100 funcionários a reservar entre 2% e 5% das vagas para pessoas com deficiência. O mecanismo ampliou o acesso ao emprego formal, mas não garantiu condições para o desenvolvimento dentro das organizações.
Segundo a mesma pesquisa, 76% das pessoas com deficiência já se sentiram prejudicadas no ambiente de trabalho. Outros 56% relatam ter vivido situações de falta de inclusão que afetaram o desempenho ou o bem-estar.
“A inclusão não pode se limitar à contratação. As empresas precisam criar caminhos para o desenvolvimento e a ascensão profissional das pessoas com deficiência, garantindo acesso às mesmas oportunidades de crescimento”, afirma Monica Lupatin, diretora de Negócios do ICOM, empresa brasileira de serviços de comunicação acessível para a comunidade surda.
Tecnologia assistiva e o caso dos profissionais surdos
Um dos pontos mais visíveis da pesquisa é a ausência de tecnologias acessíveis nas rotinas corporativas. Reuniões, treinamentos, eventos internos e interações entre equipes acontecem, com frequência, sem nenhum recurso de acessibilidade.
Para profissionais surdos, isso significa ficar de fora de discussões e oportunidades que moldam trajetórias dentro das empresas. A comunicação segue sendo uma das principais barreiras no cotidiano corporativo desse grupo.
Plataformas de interpretação simultânea em Libras, como a desenvolvida pelo ICOM, têm sido adotadas por empresas para garantir a participação de funcionários surdos em tempo real nas rotinas de trabalho.
“Quando a acessibilidade é incorporada às ferramentas e aos fluxos de comunicação, ela deixa de ser uma adaptação pontual e passa a fazer parte da cultura organizacional”, diz Monica. “Isso abre espaço para que profissionais com deficiência tenham condições reais de desenvolver suas carreiras.”
Inclusão de pessoas com deficiência como prática cotidiana
Para a executiva, o avanço depende de uma mudança de postura das organizações. A acessibilidade precisa sair do campo do cumprimento legal e entrar na lógica do funcionamento diário das empresas.
“A inclusão avança quando as organizações entendem que acessibilidade não é apenas uma obrigação legal, mas um elemento para construir ambientes de trabalho mais diversos, produtivos e inovadores”, afirma Monica.
A inclusão de pessoas com deficiência, nessa perspectiva, não se mede pela quantidade de contratações, mas pela qualidade das condições oferecidas para que essas pessoas cresçam, participem e, de fato, pertençam às empresas onde trabalham.
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