Educação

Estudantes mantêm ocupação da reitoria da USP e cobram diálogo com Segurado

Entre as principais reivindicações do movimento estão o aumento dos auxílios de permanência estudantil e a ampliação de políticas de inclusão

Estudantes mantêm ocupação da reitoria da USP e cobram diálogo com Segurado
Estudantes mantêm ocupação da reitoria da USP e cobram diálogo com Segurado
Estudantes da USP em greve, em 7 de maio de 2026. Foto: Gabriel Eid
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A ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo completou 24 horas na tarde desta sexta-feira 8. Estudantes em greve seguem no prédio administrativo enquanto aguardam a abertura de uma mesa de negociação com o reitor Aluísio Segurado, nomeado em janeiro pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O DCE Livre da USP abriu na tarde desta sexta uma assembleia com os grevistas e solicitou apoio dos funcionários técnico-administrativos, categoria que também esteve em greve recentemente.

Houve um corte no fornecimento de água e energia elétrica no prédio ocupado. Segundo os manifestantes, o acesso à alimentação e aos banheiros ocorre por meio de revezamento entre os participantes.

Entre as principais reivindicações do movimento estão o aumento dos auxílios de permanência estudantil e a ampliação de políticas de inclusão. Há também uma cobrança por criação de cotas para pessoas trans, adoção de vestibular indígena, contratação permanente de intérpretes de Libras, e adaptação de programas de mestrado e doutorado para candidatos com deficiência auditiva.

O movimento afirma que só deixará o prédio após o agendamento de uma reunião com a reitoria. A Associação de Docentes da USP expressou apoio à greve e decidiu paralisar as atividades na próxima segunda-feira 11.

A última ocupação da reitoria da USP havia ocorrido em 2013.

À espera do reitor

Policiais militares acompanham a movimentação no local. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do estado, não há registro de ocorrências até a tarde desta sexta-feira.

Para a diretora do DCE Livre da USP Rosa Baptista, porém, a presença policial reforça o impasse político e a falta de interlocução com a gestão universitária. “Essa é uma movimentação pacífica em resposta ao não diálogo da reitoria, que desde segunda-feira tem ignorado nossos pedidos de conversa.”

Em nota veiculada nas redes sociais, reitoria e direções de institutos e faculdades alegaram ter havido “depredação de patrimônio público e escalada de violência por manifestantes”. Um exemplo seria a derrubada da porta principal de acesso ao hall do prédio. Segundo os estudantes, a entrada havia sido trancada pela administração em uma tentativa de impedir a ocupação.

O movimento estudantil argumenta que a ocupação é resultado do esgotamento das tentativas de negociação com a gestão universitária, após semanas de impasse. A greve foi aprovada há 22 dias em assembleias organizadas pelos cursos e pelo DCE.

Policiais militares acompanham ocupação na USP. Foto: Guilherme Farpa

Entre as reivindicações também está a melhoria da alimentação nos restaurantes universitários, conhecidos como bandejões. Nas últimas semanas, estudantes alegaram ter encontrado larvas, cabelos e pedaços de plástico nas refeições, especialmente no campus da Faculdade de Direito, no Largo São Francisco.

Atualmente, há apenas um bandejão administrado diretamente pela universidade. Outros 17 restaurantes funcionam por meio de contratos terceirizados. Dados do Portal da Transparência indicam que cada unidade custa, em média, 1,3 milhão de reais por ano aos cofres da universidade.

Os estudantes também criticam a insuficiência das políticas de permanência estudantil, especialmente do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil, gerido pela Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, criada sob a gestão do ex-reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior.

De acordo com o movimento, os reajustes propostos pela reitoria estão distantes da realidade enfrentada pelos estudantes. Em 2022, o auxílio-permanência era de 400 reais. Agora, a universidade propõe um aumento de apenas 10 reais para moradores do Conjunto Residencial da USP. Para estudantes que vivem fora da moradia estudantil, o reajuste prometido seria de 27 reais, chegando a 827 reais.

Os estudantes sustentam que os valores continuam insuficientes diante do custo de vida em São Paulo, especialmente no bairro do Butantã, onde está a cidade universitária. Na região, os aluguéis custam em torno de 3 mil reais, segundo o índice FipeZAP divulgado em janeiro deste ano.

Nas redes sociais, manifestantes solicitam doações para a alimentação dos grevistas. “A fome dos ocupantes é a única coisa não pacífica da noite”, diz uma das mensagens compartilhadas em grupos de WhatsApp, acompanhada de uma chave PIX para arrecadação.

Apoio político

A greve estudantil contou com o endosso de expoentes da oposição ao governo Tarcísio. Na noite de quinta-feira, as deputadas estaduais Luana Alves e Mônica Seixas, ambas do PSOL, conversaram com os estudantes na ocupação.

“A universidade foi a última a adotar cotas raciais no País e insiste em não dar as melhores condições de permanência, com uma moradia universitária vergonhosa, com mofo e corte de água e luz, o que compromete a segurança dos estudantes mais pobres”, disse Luana Alves.

Nesta sexta, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) encaminhou um ofício ao reitor da USP solicitando a retomada do diálogo com os estudantes. No documento, a parlamentar afirma que a greve não pode ser tratada como caso de polícia ou simples problema de ordem patrimonial. “Estar bem alimentado é requisito mínimo para se estudar, fazer pesquisa e ciência”, diz o texto.

As parlamentares também criticaram a atuação da Polícia Militar no entorno da ocupação. “O povo pagou pela construção da USP e paga todos os dias. Por que, quando os filhos do povo finalmente conseguem acessar esse espaço, seu reitor tenta trancar suas portas e cercá-los com polícia?”, questionou Erika Hilton.

CartaCapital pediu à reitoria uma atualização sobre eventual retomada de negociação com os estudantes, mas ainda não obteve resposta. O espaço segue aberto.

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