André Ilario

André Ilario é graduado em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e e atualmente cursa MBA na China, com foco em economia política internacional e relações sino-brasileiras.

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Por que os bilionários chineses preferem o silêncio

A discrição de figuras como Zhong Shanshan não deve ser vista apenas como traço cultural ou temperamento pessoal.

Por que os bilionários chineses preferem o silêncio
Por que os bilionários chineses preferem o silêncio
(Foto: ImageChina)
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Você consegue nomear três bilionários americanos? E cinco? Provavelmente, nomes como Jeff Bezos, Elon Musk, Mark Zuckerberg e Warren Buffett vêm à mente quase de imediato. Eles estão nos jornais, concedem entrevistas, fazem declarações controversas e, muitas vezes, confundem sua própria imagem com a das empresas que comandam.

Ao tentar repetir o exercício com a China, a tarefa se torna bem mais difícil. O país tem o segundo maior número de bilionários do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo a Forbes — e aparece em primeiro lugar no ranking da chinesa Hurun. Ainda assim, muitos dos produtos e serviços chineses presentes no cotidiano global são liderados por empresários quase desconhecidos do grande público. Isso não é acaso. Se, no Ocidente, chamar atenção pode ser oportunidade, na China pode ser risco.

Um estudo publicado em 2025 no Journal of Corporate Finance associou traços narcisistas em CEOs a uma maior propensão a correr riscos. A conclusão, porém, deve ser lida com cautela. A pesquisa mede o narcisismo a partir do uso de pronomes em primeira pessoa e de declarações públicas — material frequentemente roteirizado por equipes de comunicação. Dizer “eu” ou “meu” pode revelar menos sobre a personalidade do executivo do que sobre a estratégia de imagem da empresa.

Quando pensamos em bilionários chineses, Jack Ma, fundador do Alibaba, costuma ser o primeiro nome lembrado — embora ocupe apenas a oitava posição entre os mais ricos do país, segundo a Forbes. No topo da lista está uma figura bem menos conhecida: Zhong Shanshan, empresário que construiu um império vendendo um dos produtos mais banais do mundo: água engarrafada.

Fundador da Nongfu Spring, gigante chinesa do setor de bebidas, Zhong é conhecido como o “Magnata da Água”. Apelidado pela mídia chinesa de “lobo solitário”, por sua aversão a conferências de negócios e entrevistas, ele tem uma trajetória digna de épico da economia real: abandonou a escola durante a Revolução Cultural, trabalhou na construção civil e atuou como repórter antes de fundar a Nongfu, aos 42 anos.

Sua grande sacada foi apostar na água mineral natural em um mercado dominado por concorrentes que vendiam água purificada. Com isso, conseguiu convencer consumidores a pagar mais pela ideia de uma água associada à fonte, à natureza e à saúde. Hoje, a Nongfu Spring também atua em chás, sucos e produtos agrícolas, consolidando-se como uma das maiores empresas chinesas de bebidas não alcoólicas.

Nem tudo, porém, correu sem turbulência. Zhong enfrentou uma disputa pública com a Wahaha, outra gigante do setor, e foi acusado por internautas de ter lucrado às custas de seu ex-parceiro de negócios, Zong Qinghou. Mais recentemente, a Nongfu Spring passou por uma crise de imagem relacionada ao design de suas embalagens, o que pressionou suas ações e fez Zhong perder, ainda que temporariamente, o posto de homem mais rico da China. Mesmo assim, ele manteve sua discrição habitual enquanto a empresa tentava se recuperar.

Em muitas companhias ocidentais, a imagem do CEO está colada à da empresa. Isso pode gerar valor, mas também amplia o risco: qualquer deslize pessoal, ou mesmo uma interpretação negativa, pode afetar diretamente a reputação e o valor da companhia. Na China, onde empresas privadas operam sob maior vigilância política e regulatória, o silêncio muitas vezes se torna uma estratégia de sobrevivência — não apenas no setor de bebidas, mas também em áreas sensíveis como semicondutores, inteligência artificial e veículos elétricos.

É claro que existem anomalias. Elon Musk, por exemplo, acumula episódios controversos — de aparições em podcasts a gestos obscenos em público — e, ainda assim, segue à frente de empresas altamente valiosas. Mas Musk é menos regra do que exceção. Em boa parte do mercado, a exposição excessiva de um CEO pode rapidamente se transformar em passivo.

A figura do CEO carismático, disruptivo e barulhento já se mostrou lucrativa em vários momentos. Mas, em um mundo no qual a opinião pública muda em questão de minutos e mercados reagem em segundos, a fusão entre pessoa física e pessoa jurídica se torna cada vez mais arriscada.

A discrição dos bilionários chineses, portanto, não deve ser vista apenas como traço cultural ou temperamento pessoal.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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