Economia
Cadê o carteiro?
Os Correios enfrentam um processo de encolhimento e descaracterização e precisam mirar iniciativas internacionais
Entre o compromisso assumido e declarado, em dezembro, por Lula de não privatizar os Correios enquanto for presidente da República e o plano de negócios apoiado pelos ministérios da Fazenda e Casa Civil, com aspectos tradicionais de enxugamento para privatizações, os funcionários da empresa criada há 56 anos não encontram motivos para otimismo.
Dados contábeis recentes emitem sinais contraditórios. O balanço de 2025, divulgado no mês passado com os primeiros resultados do Plano de Reestruturação 2025–2027, mostra que o volume de encomendas recebidas fora do prazo caiu 43%, o índice de entregas no prazo ultrapassou 90% naquele mês e a satisfação dos clientes subiu 23,9 pontos porcentuais. Em contrapartida, o prejuízo de 8,5 bilhões de reais, no quarto ano consecutivo de resultado negativo, obnubila o ambiente e joga gasolina na fogueira das forças pró-privatização. A baixa adesão ao plano de demissão voluntária, de 3.075 funcionários ante uma meta de 10 mil, também dificulta o esforço de pôr o plano de negócios em pé. “Temos opinião contrária às medidas adotadas como se fossem um caminho para os Correios. Se o plano de demitir até 15 mil trabalhadores for concretizado, a qualidade do serviço prestado declinará ainda mais, pois desde 2011 não se faz concurso acompanhado de contratação de novos funcionários”, afirma Emerson Marinho, secretário-geral da Fentect, a federação dos trabalhadores da estatal. “Em 2024, houve um concurso, mas não chamaram nenhum aprovado. Fizeram planos de demissão voluntária e de desligamento incentivado, que reduziram o quadro de 90 mil para os 76 mil trabalhadores atuais. É insuficiente para uma empresa do tamanho dos Correios, que presta amplos serviços fundamentais em um país de dimensão continental.”
Com os cortes, acrescenta o sindicalista, a queda da qualidade será inevitável, o que tende a fortalecer a defesa da privatização, de que os Correios não proporcionam mais um resultado de qualidade. A empresa tem 12 mil pontos de atendimento e está presente nos 5.570 municípios do País.
O modelo de negócios não funciona e são necessárias medidas drásticas
Segundo o economista Fernando Amorim Teixeira, da Universidade Federal Fluminense, o modelo de negócios vigente é insustentável e precisa ser repensado. “A atual situação dos Correios demanda medidas drásticas que combinem o micro, o macro, o setorial e o regulatório”, diagnostica. “É preciso ter uma compreensão mais ampla do setor e repensar a função e o modelo de negócios da empresa nesse novo contexto.”
Do ponto de vista micro, destaca o professor da UFF, os Correios administram um dos maiores conjuntos de ativos tangíveis logísticos e operacionais do País. A reestruturação precisaria debruçar-se sobre a gestão de ativos e seu potencial de gerar caixa, isto é, planejamento de investimentos, manutenção preventiva e corretiva, atualização tecnológica de equipamentos de triagem, padronização de unidades operacionais, gestão da frota e adequação das agências às normas de segurança e acessibilidade. Do ponto de vista setorial, a empresa deve integrar suas estratégias de infraestrutura ao planejamento logístico nacional, buscando maior eficiência, redução de custos e continuidade do atendimento essencial, em conformidade com o regime jurídico dos serviços postais e com a responsabilidade de operar em um sistema de monopólio em parte das atividades.
Teixeira cita a reestruturação dos serviços postais australiano, francês, austríaco e italiano. Na empresa Australia Post, um modelo híbrido combina obrigação universal com atividades comerciais de logística, varejo e serviços financeiros. A diversificação baseia-se na ampla rede física para manter a viabilidade financeira. Reformas recentes ajustaram operações em relação à frequência e preços, diante da queda de cartas e crescimento do e-commerce.
Novos tempos. Os serviços postais tradicionais estão diante de um novo tipo de concorrência. Fora do Brasil, o Estado testa diferentes fontes de receita – Imagem: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil e iStockphoto
Na francesa La Poste, o modelo tem por base um contrato plurianual com o Estado, que define metas e compensações. O governo cobre os custos adicionais da universalização do serviço. A atuação híbrida permite cumprir a função social enquanto gera receitas para a sustentabilidade. A Áustria prevê compensação financeira para perdas decorrentes de obrigações públicas dos correios. Empresas têm o direito de solicitar o reembolso de custos não recuperáveis mesmo com gestão eficiente. Um mecanismo garante o equilíbrio entre serviço universal e viabilidade econômica. Na Itália, a definição de serviço universal evolui ao longo do tempo conforme a regulação. Alguns foram retirados do escopo após intervenção da autoridade de concorrência. Acordos entre Estado e operador detalham obrigações, com regulação focada em qualidade e metas. “Na Europa, na Ásia e na África, as empresas de correios estão diversificando a oferta de serviços, com bancos próprios ou parcerias em serviços financeiros e assistência social, com entrega de alimentos e remédios para idosos com dificuldade de locomoção, entre outras iniciativas”, sublinha Amanda Corcino, presidente do Sintect, o sindicato da categoria no Distrito Federal. “Os Correios também poderiam ampliar a oferta de novos produtos no Brasil.”
A diversificação inclui, em alguns casos, venda de seguros e telefonia, acrescenta Rogério Ubine, secretário de relações internacionais da Fentect. Os Correios também têm diversificado, mas de forma mais limitada, como prestador de serviços. “Estamos enfrentando no mundo inteiro o dumping econômico contra as empresas de correios, com a explosão de companhias de plataforma e a uberização, e o dumping social contra os direitos dos trabalhadores”, dispara Ubine.
O setor tem perdido participação em relação ao segmento de encomendas no mundo inteiro, acrescenta Corcino, em consequência da concorrência desleal dos grandes players, que utilizam mão de obra precarizada, pagam baixos salários e não têm compromisso social com os trabalhadores. Por utilizarem esses expedientes, conseguem oferecer tarifas mais baratas, e isso afeta diretamente a competição. Essas empresas só entregam nos grandes centros, não operam em locais distantes ou de risco. Os Correios são lucrativos apenas em 500 municípios, em torno de 8% do total. Mesmo no setor de encomendas, sem investimentos e após várias dispensas, a empresa ainda ocupa uma posição relevante, devido à sua abrangência. “Com a vitória do presidente Lula em 2023,” retoma Marinho, “esperávamos um fortalecimento dos Correios, com novas contratações, investimento, inovação e modernização e nada disso aconteceu após três anos. Na verdade, o que foi feito seguiu na contramão do compromisso assumido com os trabalhadores. O governo não fez nenhum movimento nessa direção.”
O número atual de funcionários é insuficiente para prestar os serviços essenciais em todo o País, diz o sindicato
Outro ponto de vulnerabilidade é o passivo trabalhista, com acúmulo de precatórios bilionários resultantes do descumprimento de normas trabalhistas e decisões da Justiça. Do total de quase 8 bilhões de reais negativos no balanço de 2025, perto de 6 bilhões são precatórios de dívidas trabalhistas de ações que a empresa perdeu na Justiça e ainda não pagou.
Em sua luta para sobreviver em meio à concorrência feroz de gigantes nacionais e estrangeiros, os Correios sofrem com o fogo amigo. “A ‘taxa das blusinhas’ e a Portaria 1086 da Remessa Conforme, de 2024, retiraram 4 bilhões e meio dos Correios”, aponta Marinho. Documentos internos confirmam o rombo. A portaria do Ministério da Fazenda, que instituiu a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até 50 dólares, a popular “taxa das blusinhas”, dentro do Programa Remessa Conforme, teve efeito financeiro direto e significativo com a perda de receita no montante apontado pelo presidente da Fentect. Impopular, a “taxa das blusinhas” pode cair, caso prevaleça a posição do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos. Ou mantida, no que depender do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que na quarta-feira 6 disse que “não abre mão” da taxa.
Segundo a direção dos Correios, a atual gestão adota medidas para equilibrar o quadro de pessoal, com foco na eficiência e na qualidade, mantem diálogo permanente com as representações dos trabalhadores e deliberou pelo não reajuste da remuneração dos dirigentes em 2026. O plano de reestruturação contempla medidas para garantir a sustentabilidade e recolocar a estatal na liderança no setor logístico. A melhora da eficiência tem sido alcançada com a modernização da infraestrutura e a otimização das escalas de trabalho, que permitiram à estatal processar volumes crescentes de encomendas com maior agilidade e precisão. Um dos resultados é a regularização das pendências acumuladas com fornecedores, empregados terceirizados e obrigações tributárias, com 99% dos valores devidos quitados ou renegociados. Um total de 14 imóveis foi alienado, com previsão de receita de 12 milhões de reais. O plano focará agora na consolidação da sustentabilidade financeira por meio da diversificação de receitas, com ênfase na expansão de serviços digitais e financeiros, para maximizar o caixa. Com o equilíbrio das contas em 2026 e 2027, a transformação definitiva resultará em uma empresa moderna, ágil e integrada à economia digital, a serviço do País. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cadê o carteiro?’
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