Cultura
Imobilismo redentor
Walter Benjamin pensava a história como constelação e o tempo como promessa
Walter Benjamin tinha uma forma peculiar de acreditar na redenção, mesmo diante dos mais brutais momentos de crise. Pouco antes de se suicidar, em uma fuga da França para Portugal, a fim de alcançar os EUA e deixar para trás os nazistas (bem, os tempos eram outros), ele entrega à sua amiga Hannah Arendt um texto com um conjunto de teses sobre a história, o materialismo e o messianismo que ficou conhecido como Sobre o Conceito de História. O texto começa com uma imagem conceitual que todo estudante de filosofia conhece, a de um autômato que seria jogador de xadrez imbatível. Embaixo da mesa havia, no entanto, um anão corcunda, mestre do jogo, que comandava seus gestos. Benjamin usa a imagem para criar uma analogia. O autômato é o materialismo histórico, diz. O anão que o faz vencer, e só ele o leva à vitória, é a teologia. Saber fazer a força messiânica jogar a seu favor é a única forma de o materialismo histórico realizar as promessas de emancipação que um dia portou.
Esse texto faz parte de um pequeno volume recém-lançado organizado por Thiago Soares, intitulado Constelações (Autêntica, 132 págs.). Ele traz três textos fundamentais para compreender o lugar singular de Benjamin no interior da tradição crítica dialética e do marxismo ocidental: Prólogo Epistemológico-Crítico, que abre o livro Origens do Drama Barroco Alemão, Sobre o Conceito de História e Eduard Fuchs, Colecionador e Historiador. A escolha dos textos foi astuta. Mesmo situados nos extremos da produção de Benjamin (o primeiro texto vem de sua tese recusada de doutorado, enfim publicada em 1928), eles se conectam pela maneira de pensar a história como constelação e o tempo como promessa.
Uma forma de entender esse problema é lembrando que Benjamin é, à sua maneira, o mais heterodoxo de todos os dialéticos. E muitas vezes só a heterodoxia é fiel ao espírito inicial da crítica. É exatamente sobre a natureza dessa heterodoxia que versa outro livro. Nesse caso, uma bela introdução sobre o filósofo que acaba de ser publicada por Fabio Mascaro Querido: Walter Benjamin: Uma Introdução (Boitempo, 128 págs.).
Querido organiza sua introdução por meio de uma apresentação bem organizada do desenvolvimento do pensamento de Benjamin que não deixa de reconstruir o contexto sociopolítico da época, assim como os encontros e desencontros que marcarão sua vida. Nessa apresentação, fica evidente como o eixo central é seu vínculo tanto ao messianismo judaico quanto ao marxismo, além do surrealismo. Nisso, Querido segue um caminho frutífero desenvolvido entre nós por Michael Löwy e seus textos fundamentais.
Era o mais heterodoxo dos pensadores dialéticos
Tal vínculo triplo terá vários momentos, mas será sempre marcado por certa distância de quem, ao mesmo tempo, nunca dará os passos que se espera. Benjamin nunca emigrará para a Palestina, como seu amigo Schoelen, e nunca entrará no Partido Comunista, como vários de seus amigos. Ou seja, estamos diante de alguém que compreendeu a necessidade de habitar certo lugar liminar para poder encontrar o que procurava.
Um dos méritos do livro de Querido é explorar as perspectivas de Benjamin em sua procura por um lugar possível do intelectual não orgânico com sua coreografia de proximidade e distância em relação aos processos sociais que ele acompanha. Outro é colocar de pé as peças que permitirão a Benjamin resolver um problema fundamental da dialética.
Falo isso porque um dos problemas que atravessam a crítica dialética no século XIX, e que atingem Hegel e Marx, é certa concepção de filosofia da história que muitas vezes se confunde com o curso dos vencedores. Basta estar atento, por exemplo, à maneira com que o colonialismo é justificado, tanto em um quanto em outro (as páginas de Marx sobre o colonialismo inglês na China e no Hindustão não estão entre seus melhores momentos). Basta estar atento também a certa maneira de apostar no progresso e no desenvolvimento que marcou e marca muitos dos debates da vulgata marxista.
Benjamin, nesse sentido, é praticamente o primeiro a mostrar como seria possível pensar dialeticamente a história como um processo aberto, crítico do progresso, capaz de redimir a natureza e de reorientar a sua direção mesmo nos momentos mais escuros. A beleza da metáfora da constelação, usada nesse contexto para pensar a história, é mostrar como há formas de construir totalidades um pouco como quem organiza estrelas que não se tocam, cada uma sendo um sol próprio, mas que, quando articuladas, elas nos auxiliam a navegar e encontrar outras terras, como os navegadores que procuravam as constelações para se orientar no mar escuro.
Experiências históricas são como estrelas que não têm relação de causa e efeito entre si, mas que podem entrar em constelação, desde que entendamos que processos históricos não obedecem a relações de necessidade causal, que não há nada parecido a um “necessitarismo histórico”. Mas há essas suspensões do tempo que abrem a estados de exceções (que parecem tanto com o tempo dos milagres), que fazem o tempo parar e se contrair, que faz o que foi morto ganhar vida mais uma vez, redimindo o tempo de suas quedas. Tantos temas teológicos que o verdadeiro materialismo histórico precisa saber como colocar em operação, se quiser vencer o próximo jogo de xadrez. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Imobilismo redentor’
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