Cultura

assine e leia

Quase acabado

Fim de Partida escancara a falta de propósito em um mundo vazio de significados

Quase acabado
Quase acabado
Nanini é Ham, Weber é Clov, o filho adotivo – Imagem: Fernando Young
Apoie Siga-nos no

“Acabou, está acabado, quase acabado, talvez acabe.” A frase, repetida várias vezes durante a peça Fim de Partida, reforça o tom metalinguístico do texto escrito pelo dramaturgo Samuel Beckett na ressaca da Segunda Guerra Mundial e encenada pela primeira vez em 1957. Não se sabe ao certo se a frase se refere à própria peça ou à civilização, pois os atores várias vezes quebram a quarta parede e se dirigem ao público, enquanto o texto dialoga com as guerras e com o vazio existencial contemporâneo.

Com Fim de Partida, Beckett consolida o Teatro do Absurdo, deixando o naturalismo de lado e explorando a falta de sentido da existência humana. Ambientada em um cenário pós-apocalíptico onde, em um mundo em ruínas, quatro sobreviventes se encontram presos em uma rotina sufocante de violência e crueldade. Em um abrigo claustrofóbico no meio do nada, Hamm, interpretado por ­Marco Nanini­, tem uma relação de dependência física e emocional de seu filho adotivo Clov, personagem de Guilherme ­Weber. Hamm sente prazer em humilhar e criar demandas repetidas e cansativas para Clov, que passa o tempo dividido entre atender aos pedidos e ensaiar uma fuga.

O diretor da peça, Rodrigo Portella, consagrado por espetáculos como Tom na Fazenda, Ficções e (Um) Ensaio Sobre a Cegueira, estruturou a atual montagem em três camadas. Na primeira está a relação entre o pai e o filho adotivo. Na segunda, Portella vê uma alegoria política, na qual Hamm seria um tirano arbitrário, cuja autoridade se funda no poder bélico e opressivo. Já Clov seria o corpo submisso, o soldado incapaz de repouso. Reforça essa ideia o fato de Hamm ser cego (moralmente?) e passar a encenação toda sentado em uma cadeira de rodas, incapaz de andar, mas descansado. Clov tem excelente visão, mas é incapaz de se sentar por alguma deformidade física, condenado a permanecer em pé eternamente, sob o peso de um esgotamento corpóreo e emocional.

E entre os dois, uma relação de poder entre opressor e oprimido que não faz mais sentido em um mundo destruído, mas onde um não consegue viver sem o outro. A terceira camada seria o próprio caráter metalinguístico da peça. Em determinado momento, Hamm pergunta se o calor no rosto vem do Sol, ao que Clov responde: “Não, vem do refletor”. “Clov existe para dar as deixas, para manter a engrenagem em funcionamento, enquanto Hamm encena todos os dias a sua própria centralidade”, afirma Portella.

Dois outros personagens acompanham a tragédia de Hamm e Clov: os pais de Hamm, Nagg e Nell, vividos, respectivamente, por Ary França e Helena Ignez. Vivendo em duas latas de lixo, ao lado do bunker, com as pernas amputadas em um acidente, os dois representam a memória do que não existe mais, ao se lembrarem da vida antes do Holocausto, e da natureza destruída, da história perdida. Também são alvos da mesquinhez de Hamm e se protegem nos latões.

Com diálogos curtos e fragmentados, humor ácido e muitas repetições em uma circularidade sem fim, Fim de Partida escancara a falta de propósito em um mundo vazio de significados que afeta até a linguagem. Clov expressa a falência da linguagem, dizendo que as palavras perderam o seu sentido e função: “Eu uso as palavras que você me ensinou. Se elas não querem dizer mais nada, ensine-me outras. Ou deixe-me calado”.  •

Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Quase acabado’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo