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Retaliação imperial

No maior revés para a Otan, os Estados Unidos ameaçam retirar tropas e armamentos do país europeu

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Reprimenda. Merz virou alvo de Trump, que anunciou a saída de 5 mil militares das bases alemãs. Será outro blefe? – Imagem: Tobias Schwarz/AFP e USAG Wiesbaden/Exército dos EUA
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou em 1º de maio a retirada de 5 mil militares norte-americanos estacionados em território alemão. Embora o gesto seja limitado em termos numéricos – representa 12% do contingente total –, é simbolicamente forte, pois marca o maior distanciamento entre os EUA e a Europa em matéria de defesa desde a criação da Otan, em 1949.

Além de diminuir o efetivo, Trump pode voltar atrás na promessa de instalar em solo alemão um moderno sistema de mísseis capazes de proteger o Velho Continente e de alcançar alvos a quase 3 mil quilômetros de distância. Os poderosos Tomahawk (superfície-superfície) e SM-6 (solo-ar) eram o maior elemento de dissuasão contra a Rússia, país que, desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, passou a ser visto pela Europa como um foco de ameaça iminente contra o continente.

O distanciamento entre aliados transatlânticos se anunciava desde ao menos a campanha presidencial norte-americana de 2016, quando Trump começou a advertir os europeus sobre o desejo de diminuir o engajamento orçamentário dos Estados Unidos na Otan, forçando seus parceiros a assumirem uma parcela maior da conta. A pressão surtiu efeito. Em 2025, os europeus aceitaram elevar os gastos a 3,5% do próprio PIB, em vez dos 2% anteriores, mas novos problemas surgiram.

Depois do ataque dos EUA ao Irã, em fevereiro deste ano, Trump viu-se abandonado pelos aliados, quando os conclamou a tomar parte numa ofensiva militar conjunta para desbloquear o Estreito de Ormuz. Os europeus não apenas declinaram da convocatória como denunciaram o caráter ilegal dessa guerra de agressão. Em 27 de abril, o chanceler alemão, Friedrich­ Merz, disse que Trump tinha sido “humilhado” pelo Irã, no contexto de uma guerra conduzida “sem nenhuma estratégia”. O presidente norte-americano retrucou três dias depois em termos duros: “O chanceler alemão devia dedicar mais tempo a pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia (na qual ele se mostra totalmente ineficaz) e a cuidar de seu país em ruínas, especialmente no que diz respeito à imigração e energia”. Em seguida, veio o anúncio da retirada das tropas, que deve acontecer paulatinamente num prazo de até um ano. Como o ritmo é lento e o número é baixo, tudo pode não passar de um blefe. Não seria a primeira vez que o republicano faz uma ameaça para conseguir algo em troca. Mas a Europa não quer pagar para ver, e tem investido numa guinada em direção da maior autonomia possível em relação aos norte-americanos.

“Nós estamos pagando hoje o preço de nossa dependência excessiva da proteção oferecida pelos Estados Unidos em matéria de defesa e de segurança”, disse o presidente da França, Emmanuel ­Macron, no encontro das autoridades políticas europeias em Yerevan, na Armênia, na primeira semana de maio. Daqui em diante, “é preciso, sem sombra de dúvida, reforçar a dimensão europeia no seio da Otan”, ecoou o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, no mesmo evento.

Atualmente, os europeus aportam entre 30% e 40% dos meios convencionais de guerra da Otan (não nucleares). Nos planos, esse porcentual passará a ser de 80% até 2030. Hoje, comandantes militares europeus têm assumido o controle de instalações conjuntas, além de ter protagonismo cada vez maior nos exercícios militares feitos em parceria com os Estados Unidos. Tudo isso é parte de uma alardeada transição em curso.

Trata-se de uma reprimenda ao chanceler alemão, Friedrich Merz, crítico dos ataques ao Irã

No caso particular da Alemanha, o país abriga o maior efetivo norte-americano na Europa, entre a base aérea de ­Ramstein e o hospital militar de Landstuhl­. Nenhuma nação europeia tem condições, atualmente, de substituir na totalidade o tipo de armamento que os Estados Unidos podem instalar no continente. Além disso, essa presença militar, que, no auge da Guerra Fria, chegou a ser de 500 mil homens, representa uma fonte de renda importante para as regiões alemãs que abrigam essas bases.

A retirada não terá apenas custo estratégico e econômico, mas político. Merz é o chanceler mais impopular da Alemanha desde 1949, com 83% de reprovação. Sua chegada ao poder, em maio de 2025, já foi difícil. Pela primeira vez, a Alemanha teve de repetir uma eleição parlamentar nacional, pois Merz não conseguia formar uma coalizão majoritária para governar. A combinação de fragilidade interna e externa torna a situação difícil para ele e, em consequência, para toda a Europa que, a despeito do discurso altivo e autônomo, ainda depende excessivamente dos Estados Unidos. Mark Rutte, secretário-geral da Otan, que tinha chegado ao ridículo de chamar o republicano de “papai” da aliança, pode até se rebaixar ainda mais, no intuito de tentar fazer o presidente norte-americano mudar de ideia, mas é improvável que isso siga funcionando. “Nenhum acordo com Trump vale o papel em que está escrito e nenhum grau de genuflexão faz a menor diferença para ele, exceto por destruir a dignidade europeia”, disse Nathalie Tocci, especialista em Relações Internacionais da Universidade Johns Hopkins. Para ela, “essa aliança funciona com base na confiança, e, a partir de agora, essa confiança está em seu ponto mais baixo”.

Além do recuo agressivo na cooperação militar, Trump fustiga seus aliados europeus com medidas econômicas. Os Estados Unidos são destino de 10% das exportações alemãs, e o presidente norte-americano anunciou a intenção de taxar carros e caminhões em 25%, o que afeta principalmente a indústria automotiva do país comandado por Merz.

Em julho, norte-americanos e europeus devem encontrar-se em Ancara, na Turquia, para a reunião de cúpula da aliança. Trump e seus ministros devem fazer desta uma ocasião para cobrar a fatura do que eles consideram uma traição dos europeus em relação ao espírito de engajamento mútuo da Otan. Macron, Starmer, Merz e companhia calculam desde já qual a melhor dosagem na resposta, entre o apaziguamento e o distanciamento crescente. •

Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Retaliação imperial’

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