Política
O custo da exclusão
A discriminação à população LGBTQIA+ no mercado de trabalho corrói 0,8% do PIB brasileiro
Um dos países mais violentos do mundo para a comunidade LGBTQIA+, o Brasil perde, anualmente, 94,4 bilhões de reais por excluir essa população do mercado de trabalho. É o que revela uma pesquisa inédita realizada pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, em parceria com o Banco Mundial e um consórcio de 16 organizações da sociedade civil.
Intitulado O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais no Mercado de Trabalho, o estudo mostra que o impacto no PIB brasileiro por não aproveitar a força de trabalho de pessoas LGBTQIA+ pode chegar a 0,8% e gerar perdas fiscais de mais de 14 bilhões de reais anuais, resultado da combinação entre menor arrecadação e maior pressão sobre gastos públicos. O levantamento utiliza uma metodologia proposta pelo Banco Mundial, que permite, por meio de um cálculo da área econômica, medir como a ausência de políticas direcionadas a um segmento social pode gerar prejuízos na economia do País.
A maioria da população LGBTQIA+ não consegue trabalho com carteira assinada. Quem tem acesso aos empregos formais sofre, porém, vários tipos de discriminação, o que compromete suas carreiras. “Esses trabalhadores costumam ganhar menos, são preteridos nas promoções e, por vezes, acabam demitidos pelo simples fato de serem quem são. No fim, essa prática discriminatória vai gerar custos ao Estado, como pagamento de seguro-desemprego e de benefícios sociais”, ressalta Symmy Larrat, secretária Nacional dos Direitos da Pessoa LGBTQIA+ do Ministério do Trabalho.
“É comum as empresas acharem que, por ser LGBT, o funcionário vai se acomodar lá, por não ter oportunidades em outros lugares ou para evitar humilhações. É o preconceito sendo usado como forma de manutenção da exploração, sem possibilidade de crescimento”, acrescenta Larrat, destacando que tal realidade empurra a maior parte dessa população para a informalidade, situação ainda mais precária, sem direitos trabalhistas e previdenciários.
Para entender essa exclusão, o estudo analisou alguns mecanismos de diferenciação. “Quando comparados a outros indivíduos com perfis semelhantes – idade, escolaridade e características sociodemográficas, como gênero, raça e local de moradia –, observa-se uma diferença de rendimentos e o fato de que pessoas LGBTs são alocadas em posições de trabalho que não utilizam todo o seu potencial”, explica Samuel Araújo, coordenador de Pesquisa do Instituto Matizes, uma das entidades responsáveis pela parte técnica da pesquisa. “Quando essas pessoas estão desempregadas ou na informalidade, elas não geram nenhum tipo de arrecadação para o governo. Nesse contexto, o Estado precisa garantir o bem-estar e a seguridade desses indivíduos por meio de benefícios assistenciais. Ou seja, não só há redução nas contribuições ao Estado, como também aumento do gasto social”, completa.
Estudo do Ministério dos Direitos Humanos, em parceria com o Banco Mundial, estima uma perda anual de 94,4 bilhões de reais
Entre os trabalhadores LGBTQIA+, a taxa de desemprego é de 15,2%, o dobro da média nacional (7,7%), revela a pesquisa. Nesse segmento, 37,4% estão fora do mercado formal, 4 pontos acima da média geral, que é de 33,4%. “O estudo mostra algo que já aparecia para nós no campo da percepção: o fato de que a população LGBTQIA+ ainda está apartada do mercado de trabalho. Mais que isso, os números revelam que o preconceito corrói quase 1% do PIB brasileiro. Não se trata de uma questão de direitos humanos, mas de um problema com impacto econômico e na produtividade”, destaca Ricardo Sales, um dos coordenadores do Instituto Mais Diversidade, entidade que também coordenou a pesquisa.
A pesquisa ainda confirma o impacto da interseccionalidade dos marcadores sociais. “Quando os recortes de gênero e raça se conjugam, o que ocorre é uma intensificação dos preconceitos. A situação de mulheres trans, sobretudo se forem negras, tende a ser mais crítica”, diz Sales.
A pedagoga Joane Orlando, uma mulher travesti de 25 anos, sentiu na pele o preconceito ao tentar uma vaga de professora em uma escola privada no Recife. Passou pelas etapas iniciais do processo seletivo, realizadas de forma online, mas, na entrevista presencial, foi desclassificada. “Fui eliminada, acredito, por ser travesti. Mesmo tendo acesso a todo o meu currículo e ao meu histórico profissional, fui invalidada por ser quem eu sou, pelo meu gênero. Além disso, meu pronome não foi respeitado”, lamenta.
Para Thiago Jerohan, assessor de projetos da ONG Gestos, que presta assistência a soropositivos, a violência contra a população LGBTQIA+ começa muito cedo, ainda no espaço familiar, e se reproduz no mundo do trabalho. Segundo Jerohan, o não acolhimento dentro de casa e a falta de acesso a um emprego digno empurram essas pessoas para a prostituição ou para as drogas.
“Muitos envelhecem sem acumular experiência de trabalho. Por isso, vemos tantos LGBTs com mais de 50 anos atuando como profissionais do sexo, fazendo shows em bares ou coisas do tipo. Quem não morre cedo, por causa da violência a que estão submetidos, chega à velhice sem aposentadoria”, explica. “A falta de acesso ao trabalho formal é um dos fatores que mais contribuem para a vulnerabilidade social dessa população. Precisamos de leis mais contundentes, que de fato combatam a discriminação nos locais de trabalho.” •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O custo da exclusão’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.


