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O SAMU por um fio
O Congresso tira recursos do serviço de urgências e coloca em perigo a sua sustentabilidade financeira
Em quase quatro décadas de atuação como gestor do Sistema Único de Saúde, poucas me proporcionam tão intensamente a sensação de dever cumprido como ter coordenado a criação e implantação do SAMU-192, em 2003, no primeiro governo Lula. À época, o atendimento às urgências era fragmentado, precário e, muitas vezes, ineficaz. Ambulâncias, quando existiam, limitavam-se a transportar pacientes sem qualquer garantia de cuidado qualificado. As taxas de mortalidade em domicílio e em vias públicas eram elevadas, embora evitáveis.
O SAMU não foi apenas uma inovação administrativa. Foi uma mudança de paradigma. Passamos a estruturar uma rede nacional de atenção às urgências baseada em três pilares: um número único (192), regulação médica centralizada e reconhecimento da autoridade sanitária do serviço. Não se tratava mais de “remover doentes”, mas de oferecer cuidado no tempo certo, com decisão clínica qualificada e articulação com a rede de serviços.
Ao ligar para o 192, não se aciona uma ambulância. Aciona-se um sistema. A chamada é acolhida, classificada, analisada por um médico regulador, que orienta o cidadão e define, com base em critérios técnicos, o melhor encaminhamento. Em muitos casos, o atendimento começa ali mesmo, com orientações que salvam vidas antes da chegada da equipe. Quando necessário, são mobilizadas unidades de suporte básico ou avançado, motolâncias, ambulanchas ou equipes aeromédicas. O destino do paciente não é o mais próximo. É o mais adequado.
Esse modelo, cuidadosamente desenhado, foi expandido ao longo dos anos. Com exceção do período recente de desmonte deliberado das políticas públicas de saúde no governo Bolsonaro, o SAMU avançou de forma consistente rumo à universalização. Hoje, está presente em mais de 4,2 mil municípios e atende cerca de 190 milhões de brasileiros. É, sem dúvida, uma das políticas públicas mais bem avaliadas pela população.
Desde 2023, voltou a ser prioridade. Houve renovação significativa da frota, com 3.950 novas ambulâncias entregues, além da construção de 18 centrais de regulação com recursos do Novo PAC, que ampliará ainda mais a cobertura. Trata-se de uma retomada que dialoga com o compromisso de reconstrução do SUS após anos de negligência e desorganização.
Mas o que deveria ser motivo de orgulho nacional está, mais uma vez, sob ameaça. Uma ofensiva conservadora em curso coloca em risco o financiamento e a própria lógica do SAMU. A aprovação, na Câmara dos Deputados, de projeto que permite destinar recursos da saúde para o custeio de serviços pré-hospitalares realizados por Corpos de Bombeiros Militares altera profundamente o marco legal vigente. Ao incluir essas ações como despesas computáveis no piso constitucional da saúde, abre-se espaço para uma disputa direta por recursos já escassos.
Não se trata de desmerecer o trabalho dos bombeiros, ao contrário. Sua atuação em resgates, incêndios e situações de risco é indispensável e merece reconhecimento. Os dois sistemas se complementam. O problema está em confundir funções distintas e, sobretudo, em fragmentar o financiamento de uma política estruturada, regulada e baseada em evidências.
O SAMU não é apenas transporte, é cuidado médico qualificado, integrado à rede de atenção à saúde. É regulação clínica, tomada de decisão e responsabilidade sanitária. Substituí-lo ou diluí-lo em outras estruturas significa retroceder décadas.
Como se não bastasse, iniciativas locais começam a sinalizar um movimento ainda mais preocupante. A decisão recente do governo de Mato Grosso de extinguir o SAMU, transferindo suas atribuições para o Corpo de Bombeiros, acende um alerta. Se esse caminho tiver êxito e for replicado, estaremos diante de um processo silencioso de desmonte.
Dividir os recursos do SAMU sob o argumento de fortalecer outras instituições é populismo barato. É ignorar a complexidade do cuidado em saúde e desconsiderar uma política pública que salvou – e continua salvando – milhares de vidas todos os dias. O SAMU é um claro exemplo de como o SUS é universal, atendendo a toda a população, independentemente de ser usuário do SUS ou de planos de saúde.
O Brasil construiu, ao longo de décadas, um sistema de saúde que é referência mundial. O SAMU é parte desse patrimônio. Fragilizá-lo é comprometer a capacidade do SUS de responder às urgências, especialmente para quem mais precisa.
Neste momento, mais que nunca, é preciso afirmar com clareza: defender o SAMU é defender a vida. •
Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O SAMU por um fio’
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