Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Terrabras e Petrobras

Da China aos EUA, os países mantêm empresas estatais para garantir segurança energética e soberania econômica

Terrabras e Petrobras
Terrabras e Petrobras
“Discutir a criação de uma estatal em ano eleitoral é nocivo para campanha de Lula”, avalia Tebet. “Se insistirmos na Terrabras, podemos perder a oportunidade de regular a exploração de terras- raras” – Imagem: Pablo Porciúncula/AFP e Redes Sociais/Mineração Serra Verde
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A proposta de criação da Terrabras parte de uma lógica já testada na história econômica brasileira, a atuação do Estado como indutor de setores estratégicos intensivos em capital, tecnologia e coordenação de longo prazo. Inspirada na experiência da Petrobras, a nova estatal teria como objetivo organizar e desenvolver a cadeia produtiva das terras-raras – insumos críticos para indústrias de alta tecnologia, como eletrônicos, energia renovável e defesa –, superando falhas de mercado próprias desse tipo de atividade, como elevados custos iniciais, riscos geológicos e ausência de escala.

Em tese, a Terrabras poderia replicar o sucesso da Petrobras ao articular investimento público, capacitação tecnológica e formação de um ecossistema industrial integrado, agregando valor internamente e reduzindo a dependência externa em insumos estratégicos. Em um contexto global de crescente disputa por recursos minerais críticos, a iniciativa também se insere como instrumento de soberania econômica e reposicionamento do Brasil em cadeias produtivas mais sofisticadas, como têm feito EUA e China.

A percepção de que empresas estatais seriam sinônimo de ineficiência e atraso ainda aparece com frequência no debate público. Ao longo dos anos, esse entendimento muitas vezes alcançou a Petrobras, tornando-a objeto de críticas recorrentes. Por isso, é necessário enfrentar alguns mitos que giram em torno da estatal com dados e responsabilidade, sobretudo porque o futuro do desenvolvimento energético, industrial e tecnológico do Brasil passa pela companhia.

Uma das ideias mais difundidas é a de que a Petrobras seria um peso para os cofres públicos. Comecemos pelos números. A Petrobras é um dos maiores contribuintes do País.  A previsão é de recolher 1,4 trilhão de reais em tributos para municípios, Estados e União só no próximo quinquênio. Mas seu impacto econômico vai muito além da arrecadação direta. A Petrobras é uma máquina de gerar empregos e induzir investimentos privados. Cada 1 bilhão de reais investido na exploração e produção do pré-sal gera 1,28 bilhão no PIB e 26.319 postos de trabalho. No setor de refino, o mesmo 1 bilhão resulta em 1,27 bilhão de reais no PIB e 32.348 ocupações. Não se trata de acaso, mas da expressão do papel indutor que a Petrobras desempenha na economia brasileira. “Se fosse privada, a Petrobras seria mais eficiente” talvez seja o tema mais repetido – e o que mais vai na contramão das experiências das maiores economias do mundo.

A China não confia sua política energética ao acaso: suas cinco maiores petrolíferas são estatais. A Saudi Aramco é o próprio Estado Saudita. Assim como Canadá, Rússia, México, Noruega, Iraque e diversos outros países criaram e mantêm empresas petrolíferas estatais como instrumentos de política econômica. Quando se trata de energia, o Estado norte-americano tampouco se retira do jogo. Em 2025, o presidente Donald Trump invocou o ­National Emergencies Act para autorizar o uso de instrumentos jurídicos voltados à identificação, produção, refino e transporte de recursos energéticos nacionais. Também foi acionado o Defense Production­ Act de 1950, que permite ao governo direcionar a produção privada em nome da segurança nacional.

Quanto à agenda ambiental, a Petrobras tem incorporado de forma crescente critérios de sustentabilidade às suas operações. De fato, a Petrobras é a empresa brasileira que mais investe em transição energética. Ela desenvolveu o Pégaso, reconhecido como o maior e mais ecoeficiente supercomputador da América Latina. Mantém também o Programa Petrobras Socioambiental, que destinou centenas de milhões de reais a iniciativas de conservação e recuperação ambiental. Olhando para a frente, o seu Plano de Negócios 2026–2030 prevê investimentos de 13 bilhões de dólares em projetos de baixo carbono. A companhia investe ainda em biocombustíveis, captura e armazenamento de carbono e novas tecnologias, além de manter a meta de eliminar a queima rotineira de gás em tochas até 2030.

A Petrobras é patrimônio nacional. É o núcleo dinâmico do capital produtivo nacional e o coração da soberania energética brasileira. Fortalecê-la é ampliar a capacidade do Brasil de decidir seu próprio futuro. A história de sucesso da Petrobras é um dos maiores exemplos da capacidade produtiva e tecnológica do Brasil. Nesse sentido, a antiga estatal e hoje privada Vale poderia ser a nossa Terrabras, mas no momento tem outros objetivos mais prementes que não o desenvolvimento nacional. Nem seria justo cobrar de uma companhia privada responsabilidades que são do governo de um país. •

Publicado na edição n° 1412 de CartaCapital, em 13 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Terrabras e Petrobras’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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