Política

Prisão de Thiago Ávila aprofunda crise diplomática, mas Itamaraty descarta rompimento com Israel

O entendimento é que a suspensão oficial das relações eliminaria canais institucionais de interlocução e afetaria acordos estratégicos

Prisão de Thiago Ávila aprofunda crise diplomática, mas Itamaraty descarta rompimento com Israel
Prisão de Thiago Ávila aprofunda crise diplomática, mas Itamaraty descarta rompimento com Israel
Thiago Ávila, integrante brasileiro da 'Flotilha da Liberdade'. Foto: Ilia Yefimovich/AFP
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A prisão do ativista brasileiro Thiago Ávila em Israel aprofundou uma crise diplomática entre Brasília e Tel Aviv, mas o Itamaraty descarta um rompimento completo com Israel por razões estratégicas, diplomáticas e comerciais. Em reunião realizada nesta quarta-feira 6, representantes do governo Lula (PT) admitiram a parlamentares e aliados do militante que a relação entre os dois países “está muito ruim, como nunca antes”.

Os relatos foram confirmados a CartaCapital por quatro participantes do encontro. Estiveram na reunião, além de militantes do movimento pró-Palestina e da esposa de Thiago, a psicóloga Lara Souza, os deputados federais Luizianne Lins (Rede-CE), Sâmia Bomfim (SP), Fernanda Melchionna (RS) e Tarcisio Motta (RJ), todos do PSOL, e Érika Kokay (PT-DF). 

Segundo os participantes, integrantes da diplomacia brasileira afirmaram que o Itamaraty está atuando “dentro dos limites diplomáticos possíveis” para obter a libertação de Ávila e que existe expectativa de que o caso chegue à Suprema Corte israelense, cenário visto internamente como capaz de facilitar sua soltura.

Nos bastidores, interlocutores do Ministério das Relações Exteriores avaliam que a tensão bilateral atingiu um patamar inédito, impulsionado pelas críticas públicas de Lula à ofensiva israelense em Gaza e pelo alinhamento do Brasil a denúncias internacionais de violações de direitos humanos.

Ainda assim, diplomatas avaliam que uma ruptura formal teria alto custo político e econômico para o Brasil. De acordo com os relatos, o entendimento exposto na reunião foi o de que o rompimento eliminaria canais institucionais de interlocução e afetaria acordos estratégicos sensíveis mantidos entre os dois países.

Israel mantém cooperação histórica com o Brasil em áreas como defesa, tecnologia, segurança cibernética, irrigação e inteligência. O país também integra cadeias comerciais consideradas estratégicas para setores do agronegócio e da indústria brasileira.

Um dos participantes da reunião, ouvido sob reserva pela reportagem, afirmou ter ficado subentendido que, sem a interlocução israelense, o Brasil passaria a depender ainda mais dos Estados Unidos em determinados acessos tecnológicos e comerciais.

Em contato com CartaCapital, a deputada federal Fernanda Melchionna afirmou considerar “muito preocupante” a situação de Ávila e disse que, apesar de o governo federal reconhecer a prisão como “injusta e ilegal”, o ativista “segue preso”. Ela também elogiou a postura do presidente Lula que, em postagem na terça-feira 5, classificou a detenção do brasileiro como uma “ação injustificável”.

Thiago Ávila foi preso pelo Exército israelense enquanto integrava a delegação da Global Sumud Flotilla, grupo que tenta levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza, e está detido em uma cela solitária sem janelas. A detenção dele foi prorrogada até o próximo domingo pela Justiça do país.

O espanhol-palestino Saif Abu Keshek também foi preso na ocasião. Ambos são acusados pelo país de terem vínculos com uma organização sancionada pelos Estados Unidos, a Conferência Popular para os Palestinos no Exterior.

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