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Pontificado de Leão XIV: um ano de moderação ofuscado pela crise com Trump

Os apelos pacifistas do pontífice foram ignorados pelo presidente de seu país de origem

Pontificado de Leão XIV: um ano de moderação ofuscado pela crise com Trump
Pontificado de Leão XIV: um ano de moderação ofuscado pela crise com Trump
Papa Leão XIV na Basílica de São Pedro – Foto: Filippo Monteforte / AFP
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Eleito papa há um ano, Leão XIV viu o seu estilo, marcado pela moderação, ser ofuscado pelo confronto direto com o governo do seu compatriota Donald Trump, que colocou os seus apelos pacifistas na mira.

Desde a sua eleição em 8 de maio de 2025 à frente da Igreja Católica, o mundo aguardava com particular interesse para ver a relação de Robert Francis Prevost com seu país natal.

O que se desenhou foi um duelo entre o primeiro pontífice norte-americano da história e as ambições belicistas de Trump. Durante meses, esse poliglota da ordem de Santo Agostinho e ex-missionário no Peru, onde chegou inclusive a naturalizar-se, cultivou uma prudência sóbria tingida de discrição, em contraste com a espontaneidade de seu antecessor argentino, Francisco (2013-2025).

Dedicando-se a nomeações nos cargos-chave da Cúria Romana, Leão XIV impõe sua escuta metódica e suas prioridades sociais: combate à pobreza, perigos da inteligência artificial (IA), justiça ambiental e defesa da paz.

Partidário de uma governança mais transversal que associe estreitamente os cardeais, ele também delega nos assuntos mais delicados, permitindo que a hierarquia católica americana denuncie decisões do governo Trump, em particular sobre a política migratória e a violência policial.

Em novembro de 2025, os bispos norte-americanos publicaram uma carta sem precedentes, na qual denunciavam a “difamação” dos estrangeiros e os atentados contra a dignidade dos imigrantes.

Trata-se de uma estratégia assumida em Roma, destinada a manter um diálogo com Washington sem renunciar a uma resposta moral.

‘Pastor’

Mas a “diplomacia da força” denunciada por Leão XIV acabou reduzindo sua margem de manobra, levando-o a sair de sua postura reservada.

Em janeiro, criticou uma guerra que “voltou à moda”. Em fevereiro, com o início dos bombardeios dos Estados Unidos e de Israel que desencadearam uma guerra com o Irã, qualificou como “inaceitáveis” as ameaças de Trump de “aniquilar a civilização iraniana”.

Para Christopher White, da Universidade de Georgetown, em Washington, essa “forte reação” do papa é provocada, em particular, pelos esforços do governo Trump em “recorrer constantemente” à linguagem religiosa a fim de “justificar a guerra”.

Uma homilia pacifista pronunciada por Leão em plena Semana Santa, no Vaticano, irritou Trump, que o chamou de “fraco” diante da criminalidade e de “incompetente” em política externa, o que desencadeou uma onda de indignação.

Embora afirme não ter “medo” do governo americano, o pontífice se recusa a entrar em uma escalada verbal e prefere manter o debate no terreno moral.

O chefe da Igreja Católica “não deseja se apresentar na cena internacional como americano, como representante de uma superpotência, mas como um pastor que representa uma Igreja universal”, acrescentou White, autor do livro Pope Leo XIV: Inside the Conclave and the Dawn of a New Papacy.

“Por isso ele não quer que cada uma de suas palavras seja percebida como uma resposta direta a Donald Trump”, avaliou.

Nápoles e Pompeia

A visita do secretário de Estado de Trump, o católico praticante Marco Rubio, prevista para quinta-feira no Vaticano, confirma a importância que a Santa Sé tem para Washington como um fator que não deve ser negligenciado no cenário diplomático.

Segundo a imprensa italiana, essa audiência privada tem como objetivo tentar descongelar as relações bilaterais, ainda tensas na segunda-feira devido a uma nova acusação de Trump, que, em uma entrevista televisiva, acusou o papa de “colocar em perigo muitos católicos” ao dizer que ele aceita que o Irã possua armas nucleares.

Em meio à recente viagem do papa à África, o duelo à distância com Trump amplificou o eco do estilo mais firme adotado por Leão XIV, que denunciou frontalmente a corrupção, as desigualdades sociais e a violação dos direitos humanos diante de líderes que estão no poder há décadas.

A imprensa internacional viu nisso um ponto de inflexão: pela primeira vez, o pontífice não hesitou em recorrer a um vocabulário contundente para ressaltar a urgência da paz. Essa mudança é apenas fruto da conjuntura ou será duradoura? Surgirá um Leão XIV mais combativo sob o ouro do Vaticano?

Os analistas concordam em um ponto: o papa, natural de Chicago, não tem pressa. Aos 70 anos, em boa forma física, está consciente de que tem diante de si um horizonte relativamente longo.

Para o seu primeiro aniversário, ele viajará na sexta-feira a Nápoles e Pompeia, dando início a uma série de deslocamentos de verão pela Itália, centrados no âmbito eclesiástico, em contato direto com os fiéis.

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