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Não somos um país de desonestos, mas a Copacabana que celebra a latinidade
É preciso dizer e repetir à exaustão, para que pautas de costumes conservadores não se sobreponham aos interesses coletivos
“Com a incidência de suicídios sendo tão alta entre os homens, principalmente na faixa etária que vai dos dezoito aos trinta e quatro anos de idade, uma iniciativa importante é a criação de espaços seguros chamados de ‘zonas de conversa’. Essas zonas de conversa são ambientes comunitários baseados em uma lógica de confiança, nos quais alguém pode se oferecer para escutar ou falar com uma pessoa que esteja precisando de apoio. No Zimbábue, por exemplo, foi feito um teste com ‘bancos de amizade’, onde pacientes com questões de saúde mental conversavam abertamente e em público com seu terapeuta ou cuidador, algo que mostrou ter efeitos positivos no bem-estar dos envolvidos no projeto” – JJ Bola
Quem puder, não perca O Riso e a Faca, filme dirigido pelo português Pedro Pinho, uma coprodução brasileira, francesa e romena, estrelada por Sérgio Coragem.
O filme equilibra revoluções externas (o processo de descolonização africana) e internas (a superação radical do machismo). Tudo isso envolvido em poesia e no realismo da vida no Sul Global.
Com efeito, a arte tem o condão de ser suprarreal, colocando-nos em outro plano, mas derramando harmonia na realidade, distópica, em nossos dias.
Note como ouvir uma música sobre amar transcende estar amando alguém em especial.
A música nada perde de impacto se não estivermos em uma relação amorosa, ou se ela tiver terminado.
Dessa forma, damo-nos conta de que o amor é um bem imaterial, como os sentimentos que a arte desperta em nós.
São manifestações que nos instam à abertura, a sairmos de nossas caixinhas culturais. São verdadeiros apelos à transcendência.
Em Seja Homem (editora Dublinense), JJ Bola reflete:
“…às vezes pode ser mais fácil falar sobre seus problemas com um estranho – até porque a terapia pode ser de difícil acesso, devido a questões financeiras ou pela ausência de serviços comunitários (em decorrência de cortes nos orçamentos e estruturas…) Assim, as zonas de conversa podem ser parte de uma mudança cultural decisiva, ajudando as pessoas a buscarem novas formas de envolvimento emocional e potencialmente levando a importantes consequências positivas no longo prazo”.
Falar com estranhos é tido como coisa perigosa, mas, guardadas as devidas proporções, pode ser algo libertador, na medida em que estamos despidos de títulos, posses ou qualquer outra artificialidade.
Uma experiência de vitalidade, de viver de maneira essencial, sem as ilusões que o capitalismo nos sugere como sendo a porta da felicidade.
Um exemplo são nossas opiniões políticas. Poder dizer aos demais eleitores que Flávio Bolsonaro irá terminar o desastre inacabado que o pai dele fez no País é algo que precisa ser dito em alto e bom som.
Que ele irá destruir e vender a Petrobras está mais do que claro, comprometendo a soberania energética do País.
Que irá rifar nossa soberania, como um todo, também está evidente, tendo em vista as declarações dele e do irmão Eduardo, ambos já tendo pedido que Trump invadisse e bombardeasse o País, para libertar o pai criminoso, golpista e genocida.
A hipocrisia de Trump apoiar os Bolsonaros é flagrante, uma vez que a família está diretamente envolvida com as milícias traficantes de drogas, tendo o próprio Flávio lotado em seu gabinete a mãe e a ex-mulher do maior matador e traficante do Rio de Janeiro, Adriano da Nóbrega, posteriormente morto em provável “queima de arquivo”.
Tudo isso tem de ser dito e repetido à exaustão, para que pautas de costumes conservadores não se sobreponham aos interesses coletivos, obnubilando o eleitorado.
Entretanto, sempre temos o temor de não sermos aceitos. Mas devemos lembrar que a pertença no Brasil é uma riqueza: somos falantes de mais de 180 línguas, com uma composição étnica riquíssima, que nos permite saber que uma tribo pode nos rejeitar, mas dez outras estão prontas a nos acolher, lembrando o antigo adágio francês: “um que parte, dez que chegam”.
Em A Coragem de Não Agradar (editora Sextante), Ichiro Kishimi e Fumitake Koga recordam:
“Um adulto que escolheu uma vida com pouca liberdade, ao ver um jovem vivendo livremente o aqui e agora, critica-o e o chama de hedonista. Claro que esta é uma mentira da vida que o adulto conta para aceitar sua vida sem liberdade. Um adulto que escolheu a verdadeira liberdade não fará esse tipo de comentário. Em vez disso, vai incentivar a vontade de ser livre”.
Voltando ao âmbito coletivo, o desastroso governador do Rio Grande do Sul irá privatizar a administração de 98 escolas públicas. Ele já não administra o abastecimento de água e energia no estado, mas continua recebendo salário integral. Isso é honesto? Até uma criança de cinco anos é capaz de responder… Se ele sabia que não tinha capacidade para administrar, por que se candidatou, em primeiro lugar?
Relacionando estelionatos eleitorais com a obra antes citada, encontramos o seguinte parágrafo explicativo: “…os problemas de relacionamento são causados pela nossa intromissão nas tarefas das outras pessoas ou pela intromissão alheia nas nossas tarefas. A separação é suficiente para mudar os relacionamentos da água para o vinho”.
Assim, separemo-nos de Eduardo Leite, Flávio Bolsonaro e Sérgio Moro. Não somos um país de desonestos, milicianos traficantes ou juízes ladrões.
Somos a Copacabana com dois milhões de pessoas, cantando, dançando e celebrando juntos nossa latinidade, com Shakira e a lua cheia, que, de tão cúmplice da nossa felicidade, como que até piscava para nós.
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