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Rotina do trabalho afasta brasileiros do médico e adia cuidados com saúde

Levantamento aponta que jornadas extensas, falta de flexibilidade e dificuldade de liberação levam pacientes a recorrer à internet e à IA para tirar dúvidas

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Rotina do trabalho afasta brasileiros do médico e adia cuidados com saúde
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Cerca de 50% dos pacientes brasileiros apontam a rotina de trabalho como o maior obstáculo para manter consultas médicas e exames em dia, segundo levantamento de uma plataforma de consultas online. Horários inflexíveis do expediente e a dificuldade de liberação por parte das lideranças aparecem entre os fatores mais citados.

Os dados mostram que 2 em cada 5 entrevistados foram ao médico menos do que deveriam nos últimos doze meses. Diante da ausência de atendimento presencial, parte desses pacientes acabou recorrendo à internet e a ferramentas de inteligência artificial para tirar dúvidas sobre o próprio corpo.

Entre os entrevistados, 55,4% afirmaram ter ido ao médico com frequência ao longo do último ano e realizado os cuidados recomendados. Os outros 40%, no entanto, relataram ter buscado menos atendimento que o ideal por conta de barreiras cotidianas.

Por isso, quando questionados sobre os motivos do afastamento, metade dos respondentes citou o trabalho como o principal entrave. Excesso de demandas, jornadas longas e pouca margem para ausências durante o expediente formaram o conjunto de razões mais apontado pelos participantes.

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Jornadas extensas dificultam acesso à saúde

Os números reforçam um retrato já conhecido do mercado de trabalho brasileiro. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 30 milhões de brasileiros cumprem jornadas de 40 horas semanais distribuídas em cinco dias.

Além disso, outros 20 milhões trabalham seis dias por semana, com cargas de 44 horas ou mais e pouca flexibilidade no expediente. Esse perfil de jornada, segundo especialistas em saúde ocupacional, reduz as janelas disponíveis para consultas presenciais e exames de rotina.

“Sabemos que o trabalho e as ocupações não param, mas o cuidado com nossa saúde também não deveria esperar”, afirmou Anderson Zilli, CEO do Olá Doutor. A empresa promoverá em maio uma ação presencial na linha 11-Coral da CPTM, em São Paulo, para divulgar o atendimento médico por meio de consultas online realizadas via chat.

Pacientes buscam internet e IA para tirar dúvidas

A pesquisa também investigou o que os pacientes fazem quando deixam de ir ao consultório. Do total de entrevistados, 53,2% recorreram à internet para tirar dúvidas de saúde nos últimos doze meses, enquanto 45,8% utilizaram ferramentas de inteligência artificial para obter informações sobre o próprio organismo.

O movimento, segundo os pesquisadores, indica que a barreira do trabalho convive com outro problema: a experiência dentro do consultório. Comportamentos repetidos durante o atendimento médico aparecem como motivo de afastamento gradual entre parte dos pacientes.

Entre os pontos mais citados estão a falta de empatia e a escuta superficial, mencionadas por 5 em cada 10 entrevistados. Na sequência, aparecem a pressa durante a consulta, citada por 42,8%, e os atrasos excessivos, apontados por 37,4% dos respondentes.

Por fim, 36,4% relataram orientações pouco claras durante o atendimento, e 30% disseram ter sentido que os sintomas foram minimizados pelos médicos. A combinação desses fatores ajuda a explicar a migração crescente para canais digitais de orientação.

Médicos defendem escuta ativa no atendimento

Durante o evento FUTR Health, realizado no mês passado, o médico Jairo Bauer chamou atenção para a importância da escuta ativa no atendimento. Segundo ele, a qualidade da conversa entre médico e paciente pesa tanto quanto a parte técnica do diagnóstico.

“A consulta médica, independentemente de acontecer no digital ou no presencial, é um momento em que o paciente precisa ser ouvido com atenção. É ali que o profissional deve ir além dos dados e indicadores, buscando compreender de forma mais ampla aquilo que o paciente está trazendo”, afirmou Bauer.

A telemedicina e os modelos híbridos de consulta surgem, segundo as plataformas do setor, como caminho para reduzir o efeito do trabalho sobre a regularidade dos cuidados de saúde. A flexibilidade de horários e a possibilidade de atendimento remoto, inclusive durante deslocamentos, ampliam o acesso de quem cumpre jornadas extensas.

Para os pacientes, no entanto, o desafio segue sendo conciliar o expediente com a prevenção, em um país onde a maior parte da força laboral trabalha mais de 40 horas por semana e ainda enfrenta dificuldades para se ausentar em busca de atendimento médico.

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