Cultura
A amizade sob o isolamento
Gary Shteyngart conta, de modo divertido, como um grupo tenta sobreviver à pandemia numa propriedade afastada
A leitura de Nossos Amigos do Campo, do norte-americano Gary Shteyngart, soa como ouvir uma cativante história antes de dormir. Para adultos que estão mais acostumados a ler para ninar os filhos do que a escutar alguém lendo para si, o romance é um acalanto.
Tal efeito é gerado pela voz narrativa singular que conta o enredo. A narração inclui o leitor quando antecipa os acontecimentos ou cria suspense: “O suprimento de água estava praticamente esgotado para o dia, com pelo menos uma consequência desastrosa, como em breve veremos”. É nesse “veremos”, por exemplo, que o leitor se percebe incluído e ouvinte.
Trata-se de um narrador que seduz e revela seu ofício quando anuncia o que está prestes a acontecer. “Agora, os protagonistas revelarão quem realmente são. Agora, risos e amor correrão soltos. Agora, os personagens principais flertarão e serão cruelmente rejeitados, e os demais, desprovidos de amor, suspirarão em suas taças, enquanto tentam relembrar como era se sentirem desejados”, diz a voz, usando os verbos no futuro.
O tempo em que se passa o romance é a pandemia de Covid-19. E isso poderia até ser um demérito da obra de Shteyngart. Naqueles anos, afinal de contas, muitos procuramos, como leitores, um escape da realidade e não seu reflexo. Superada a calamidade, talvez não queiramos ler uma ficção sobre intubação.
No entanto, Shteyngart consegue a proeza de narrar aqueles tempos com o devido luto e o medo, de forma realista, mas também com alegria e esperança diante da vida que segue a correr.
No livro, acompanhamos um grupo de amigos isolados na propriedade de campo do outrora celebrado escritor Sasha Senderovsky e sua mulher Masha, uma psiquiatra. Eles são imigrantes russos e têm uma filha, Nat, adotada na fronteira da Rússia com a China. A criança é obcecada por uma banda de K-pop e sofre de ansiedade climática.
Nossos Amigos do Campo Gary Shteyngart. Tradução: André Czarnobai. Todavia (416 págs., 119,90 reais)
A casa principal, no vale do Rio Hudson, não muito longe de Nova York, é cercada por cabanas onde se hospedam os demais personagens.
Dee é uma ex-aluna de Sasha e a única branca do grupo, que acaba cancelada na internet durante o lockdown. Karen é coreana, amiga de juventude, bilionária criadora de um aplicativo que promete fazer as pessoas se apaixonarem.
Ed é igualmente coreano, sofisticado e rico por herança. Vinod é um imigrante indiano com um romance não publicado e motivos extras para se preocupar com a pandemia. O livro supostamente desaparecido de Vinod e a chegada de um convidado estranho à maioria são os elementos que desencadeiam os conflitos da trama.
O estranho é chamado apenas de Ator. Sasha convida-o para tentar emplacar a produção e filmagem de um roteiro, mas precisa lidar com a vaidade extrema do recém-chegado.
Shteyngart é hábil tanto em construir pequenas tensões quanto em narrar momentos cômicos. O Ator, para se ter uma ideia, está envolvido em não apenas um triângulo amoroso entre os hóspedes, mas em dois.
Dee, a jovem escritora cancelada, decide causar climão na hora do jantar e critica a proclamada diversidade do grupo: “Onde estão os negros desta mesa? Onde estão os gays? As pessoas não cis?” E a garotinha, de repente, responde no mesmo tom: “E latines?”, emendou ela, que havia estudado sobre a história do México.
Depois de criar um vínculo do leitor com seus personagens, Shteyngart não nos poupa da faceta mais impiedosa da pandemia. Deixe o lencinho por perto, para a lágrima, mas se prepare também para a risada. •
VITRINE
Por Ana Paula Sousa

A mãe suicida é o fantasma a rondar Jocasta, a protagonista de Vida Doçura, uma escritora obcecada por uma YouTuber supostamente feliz (Companhia das Letras, 176 págs., 79,90 reais). O livro é também a elaboração real do luto infantil vivenciado porsua autora, Natércia Pontes.
Teatro Aberto: Escritos de Um Diretor (Cobogó, 424 págs., 128 reais) atravessa três décadas da vida de Aderbal Freire Filho, encenador e dramaturgo dos mais marcantes do Brasil – morto em 2023. O material vai de memórias da infância a textos sobre sua obra e a de grandes dramaturgos.
No leito de morte, um pai e um filho relembram seus autores e histórias favoritos. É esse o mote de Tinta Invisível (Instante, 256 págs.,84,90 reais), do espanhol Javier Peña. O autor, jornalista de formação, aventura-se por uma mistura entre ensaio literário e memória.
Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A amizade sob o isolamento’
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