Cultura
O perigo sempre à espreita
Vladimir Safatle faz um diagnóstico sobre os novos fascismos, mas deixa ao leitor a resposta sobre como combatê-los
Não há nada de propriamente novo no livro mais recente do filósofo e psicanalista Vladimir Safatle, A Ameaça Interna: Psicanálise dos Novos Fascismos. Boa parte das reflexões mobilizadas no ensaio vinha circulando de maneira difusa e tímida nos meios acadêmicos e midiáticos há certo tempo.
Ao agrupar e articular com minúcia e lucidez tais questões, Safatle oferece ao leitor, porém, uma obra que busca contribuir para que o “freio de emergência”, nos termos benjaminianos, seja puxado.
O filósofo Walter Benjamin sugeriu, a partir da imagem da “locomotiva da história” de Marx, que a revolução, como um despertar coletivo, seria um “freio de emergência” – um meio de evitar que a humanidade, abandonada aos trilhos de um progresso feroz, caísse no abismo.
Com vasta produção reflexiva publicada em veículos dos mais aos menos especializados, Safatle mantém uma atuação intelectual incansável, acumulando participações e entrevistas em programas de televisão, rádio, canais de YouTube, podcasts etc.
Faz jus à figura do crítico que – como ele mesmo descreve – não se deixa domesticar pelo conformismo nem pelo receio de se referir às dinâmicas em curso pelos seus nomes devidos.
O fascismo, no livro, é definido como uma forma específica de violência social e dessensibilização que se encontra no cerne das sociedades liberais e de seus ideais normativos de progresso.
A Ameaça Interna: Psicanálise dos Novos Fascismos. Vladimir Safatle. Ubu (240 págs., 79,90 reais)
Assim, mais que um modelo específico de ordenamento político-econômico ou um acontecimento histórico vinculado às experiências totalitárias na Europa dos anos 1930, o fascismo é uma força estruturante, em latência, que se estabelece conforme determinadas circunstâncias sócio-históricas.
Por isso, talvez nunca tenham existido as tais “democracias liberais”. “O que tínhamos era algo que poderia ser chamado de fascismos restritos”, afirma. Safatle propõe o termo para caracterizar regimes seletivos, nos quais a experiência democrática – a proteção dos direitos individuais e da cidadania – está garantida a certos setores da população, expondo os demais a práticas contínuas de segregação, punição e extermínio.
Em momentos de acirramento de crises, e sem que haja um horizonte concreto de superação delas, o que era “restrito” dá lugar a um regime fascista generalizado. Trata-se da ampliação de processos concretos que vão decompondo o corpo social e intensificam a precariedade material das populações, sob um permanente estado de exceção.
O livro organiza-se em cinco capítulos. No primeiro deles, Safatle discute a lógica da “guerra infinita” que sustenta a governabilidade fascista. O Estado policial naturaliza o uso de violência a fim de eliminar o “inimigo público”, que provoca desordem e constitui um risco à sociedade.
Tal lógica tem raízes nas dinâmicas coloniais, que não só forneceram as “tecnologias de extermínio e desumanização” que viriam a ser usadas posteriormente – no nazismo, por exemplo – como estabeleceram um regime de subjetivação que permanece até hoje. Por ele, os sujeitos são distinguidos entre “pessoas” e “coisas”. Há as vidas valorizadas e as que não importam.
Neste ano de eleições no Brasil, mostra-se pertinente refletir sobre a ideia que alicerça o ideário fascista e se insinua nos discursos da extrema-direita pelo mundo: a de que não há nem haverá sociedade para todos.
Safatle, acertadamente, lida com os desdobramentos dessa ideia em várias passagens. No campo psíquico, tema do segundo capítulo, ele reflete sobre o sofrimento que busca no fascismo a sua cura. E desmonta as justificativas patologizantes que acabam por produzir julgamentos morais.
Mais que um modelo vinculado às experiências totalitárias na Europa dos anos 1930, o fascismo é uma força estruturante e latente
A adesão ao fascismo resulta de um cálculo racional, destaca ele. Diante de um horizonte de sobrevivência econômica cada vez mais estreito e de uma sensação de desamparo social, a eliminação dos “próximos da fila” – os outros que competem por melhores condições de vida – não soaria tão cruel.
O fascismo se aproveita, então, de uma “mutação profunda das estruturas de nossa subjetividade”, resultante da crise psíquica acoplada à econômica, e propicia a criação de “sistemas agressivos de defesa”. Ao minar a solidariedade social, transfere a promessa de segurança às figuras autoritárias.
No terceiro e no quarto capítulos, Safatle esmiúça o que está por trás das dinâmicas autodestrutivas tanto do Estado quanto do indivíduo. Retoma outra tese que perpassa o texto: a noção hegemônica de liberdade individual, tomada como sinônimo de propriedade sobre si e sobre coisas, suplanta a busca por um comum.
No último capítulo, a argumentação volta-se para o campo da cultura, em que as forças fascistas travam a batalha pelo cultivo dos afetos. “O fascismo não tem projeto de governo porque tem algo maior; um verdadeiro projeto de sociedade”, afirma.
Ao longo do texto, Safatle mobiliza um rol diverso de pensadores, muitos deles ligados à Teoria Crítica, desenvolvida pela Escola de Frankfurt no início do século XX. No ensaio Pensar Sobre Gaza, que faz as vezes de epílogo, questiona a domesticação de alguns de seus expoentes atuais, que corroboraram a apatia ocidental diante do genocídio palestino.
A Ameaça Interna disseca de modo elucidativo as dinâmicas fascistas no interior das sociedades ditas democráticas. O diagnóstico é preciso. Contudo, pouco há sobre a profilaxia. Ao puxarmos o freio de emergência, até quando aguentaremos? E como conseguiremos reacender nossa imaginação política? Cabe a cada leitor buscar as respostas. •
Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O perigo sempre à espreita’
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