Economia

assine e leia

Carbono maquiado

A opção das empresas por crédito mais barato mascara o objetivo de reduzir as emissões de CO2

Carbono maquiado
Carbono maquiado
Brechas. Existem projetos estruturados no País, que tem tudo para virar o maior mercado do planeta nessas transações, mas certos vícios precisam ser superados – Imagem: Paulo Cézar/Agência Pará/GOVPA
Apoie Siga-nos no

O Brasil tem florestas, sol, vento e, desde 2024, uma lei que estrutura o maior mercado regulado de carbono do Hemisfério Sul. Tem também um problema que o setor prefere discutir em fóruns fechados. O dinheiro real, o que de fato circula nas transações cotidianas do mercado voluntário de carbono, ainda vai para o crédito mais barato. E o crédito mais barato, com frequência, não representa nenhuma redução de emissões, só é papel.

Henrique Pereira, cofundador e diretor de operações da WayCarbon, assessoria especializada em descarbonização, conhece o dilema. “O preço sempre será um fator determinante para a decisão de compra”, diz. “As companhias buscam otimizar a qualidade das reduções segundo critérios próprios e minimizar custos.” Isto significa que a empresa compra o que cabe no orçamento e declara o problema resolvido.

O mercado voluntário de carbono funciona, em tese, como um mecanismo de compensação. Uma empresa que emite CO₂ além do que consegue reduzir compra créditos gerados por projetos que retiraram ou evitaram aquela mesma quantidade de carbono da atmosfera. Cada crédito equivale a uma tonelada. Quem preserva floresta, planta árvores ou instala energia renovável gera créditos. Quem polui, compra e o mercado faz a intermediação.

O problema é que nem todo crédito é igual. Um crédito barato pode representar uma floresta que seria preservada de qualquer forma, um projeto auditado com metodologia frouxa ou, em casos extremos, uma operação fraudulenta com sobreposição a áreas de desmatamento ilegal. Um crédito caro, de alta integridade, representa redução verificável, permanente e adicional, ou seja, algo que não aconteceria sem o projeto. O mercado hoje compra o barato e chama de solução climática.

Roberto Gonzalez, consultor de governança corporativa e ESG e conselheiro independente de empresas, descreve o mecanismo. “Em muitos casos, o comprador corporativo sabe exatamente o que está adquirindo. Há empresas que encaram o crédito de carbono como uma ferramenta meramente reputacional e de curto prazo, uma espécie de seguro de imagem.” Quando um crédito ruim é aceito como bom, diz Gonzalez, “não é só uma falha comercial, mas uma opção de transformar a compensação climática em licença para continuar emitindo”.

Não é um problema abstrato. ­Vladimir Abreu, sócio do L.O. Baptista Advogados, aponta casos concretos que revelam a dimensão jurídica do risco. A operação “Greenwashing”, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso, identificou projetos de créditos de carbono sobrepostos a áreas de grilagem ilegal e desmatamento, com madeira lavada via venda de créditos fraudulentos usados para compensar emissões. “Exemplos reais envolvem ações judiciais contra empresas por tokens falsos de carbono, expondo compradores a multas administrativas e danos reputacionais”, alerta Abreu. O comprador que não fez uma due diligence adequada não comprou apenas um crédito ruim, assumiu um passivo.

Tatiana Cymbalista, advogada e sócia da Manesco Advogados, descreve a situa­ção. “Comprar um crédito de carbono sem a due diligence adequada traz o risco de que, na prática, ele não represente efetivamente aquilo que declara. É como qualquer compra de um produto que não cumpre aquilo que promete.” A certificação, acrescenta, oferece alguma proteção, mas está longe de ser absoluta. “Isso nem sequer existe.”

O problema se aprofunda quando se examina o motivo de o capital não fluir para onde deveria. A origem dos projetos, o desenvolvimento de novas iniciativas de redução ou remoção de carbono que alimentariam o mercado com créditos de qualidade, segue travada. Henrique Pereira enumera as razões. As revisões em curso nos principais padrões de certificação, como o VCS 5.0 da Verra, criam incerteza sobre quais metodologias serão aceitas. O marco regulatório do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões ainda está em construção, o que leva o setor privado a desacelerar decisões até as regras estarem definidas. E o preço do carbono no mercado voluntário segue baixo demais para tornar a maioria dos projetos financeiramente viáveis. O SBCE, previsto para entrar em operação em 2030, é a aposta do governo para dar ao mercado de carbono brasileiro a estrutura regulatória que o voluntário nunca teve.

O greenwashing é não só um problema de reputação, mas policial

O risco é que o mercado regulado herde os vícios do voluntário antes de corrigi-los. Abreu aponta que projetos foram suspensos após investigações policiais que revelaram falhas nas próprias certificadoras internacionais. A Verra, maior certificadora do mundo, foi alvo de investigação publicada, em janeiro de 2023, pelo jornal britânico The Guardian em parceria com o semanário alemão Die Zeit e a organização jornalística SourceMaterial. A apuração concluiu que 94% dos créditos florestais certificados pela entidade não representavam redução real de emissões. A Verra contestou as conclusões, mas o impacto sobre a credibilidade do setor foi imediato.

Gonzalez enxerga uma mudança em curso, ainda que lenta. A pressão de investidores institucionais, as exigências de auditorias ESG mais rigorosas e o escrutínio crescente de clientes e imprensa começam a encarecer o greenwashing. “O crédito de alta integridade deixa de ser apenas uma escolha ética e se transforma em proteção estratégica contra passivos futuros.” A tendência ainda não se converteu, no entanto, em prática dominante.

Enquanto isso, a conta do sistema é transferida para quem não tem voz no mercado. Cymbalista é direta: “Quem paga é a população como um todo e, sobretudo, aqueles que são mais vulneráveis”. Gonzalez e Abreu chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes. Populações expostas a eventos climáticos extremos, insegurança hídrica e perda de produtividade agrícola pagam primeiro. Contribuintes pagam depois, via fiscalização, perícias e remediação ambiental. E o mercado de carbono paga por último, quando perde o único ativo que não se compra com crédito barato, a credibilidade.

O mercado de carbono brasileiro tem capacidade de ser o maior gerador de créditos do mundo. Tem florestas, tem projetos e tem, agora, arcabouço legal. O que ainda falta é garantir que o crédito que circula nesse mercado faça, de fato, o que está escrito no papel. •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Carbono maquiado’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo