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Ato de traição?

Eu não iria tão longe. Mas Galípolo & Cia. mantêm intactas a bolsa-banqueiro e a bolsa-rentista

Ato de traição?
Ato de traição?
Voto de confiança. Galípolo “é um traidor”, disparou Bresser-Pereira. Ainda resta uma esperança minguante de que ele possa reorientar a política monetária – Imagem: Washington Costa/Ministério da Fazenda
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Gabriel Galípolo é um traidor”, disparou Bresser-Pereira há poucos dias. Não sei se eu iria tão longe, ainda tenho uma esperança minguante de que Galípolo possa reorientar a política monetária. Mas não há dúvida de que é imensa a frustração com a diretoria do Banco Central – tanto mais que toda ela é formada atualmente por pessoas nomeadas pelo presidente Lula.

As taxas de juro no Brasil são bizarras. Há casos de outros países relevantes que tenham mantido juros reais na estratosfera por tanto tempo? Se existem, são raríssimos. Essas taxas de juro destroem as finanças de empresas, famílias e do próprio governo.

Há justificativas para manter os juros básicos nesse nível? O argumento mais recente em favor de juros altos é o choque do petróleo decorrente da agressão ao Irã. Porém, o Brasil é um dos ganhadores imediatos com esse choque, pois está entre os maiores exportadores de petróleo bruto do mundo e não depende do Estreito de Ormuz para escoar suas exportações. Em consequência do choque, aumentam os nossos preços médios de exportação e também a quantidade exportada – com o Brasil substituindo exportadores da região do Golfo Pérsico. Os termos de troca e a balança comercial melhoram e diminui o déficit de balanço de pagamentos em conta corrente.

Além de favorecer as contas externas, o choque do petróleo ainda proporciona ganhos fiscais para o Brasil. O Instituto Fiscal Independente, do Senado, estimou que o resultado primário do setor público pode melhorar em algo como 0,6 ponto porcentual do PIB em 2026, admitindo-se  que o barril do tipo Brent fique em torno de 100 dólares.

Assim, o argumento de que a crise internacional justifica a manutenção de juros estratosféricos parece duvidoso, para dizer o mínimo.

Outro ponto importante. Dados os efeitos positivos do choque do petróleo sobre as contas externas, que são percebidos e antecipados pelo mercado, o real tende a se apreciar em relação a outras moedas. A moeda brasileira está entre as que mais se valorizaram em 2026, amortecendo o impacto inflacionário do choque do petróleo. Nessa situação, manter juros ­reais muito altos é o típico overkill.

Haddad, em 2023, poderia ter revisto a meta de inflação para cima. Mas faltou iniciativa

O BC alega que as expectativas de inflação estão “desancoradas”. A mediana das expectativas de mercado, apuradas por ele, situa-se em 4,9% para 2026 e 4% para 2027. Como a meta de inflação é 3% com intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima e para baixo, a inflação esperada para este ano situa-se um pouco acima do teto da meta.

O BC não estaria nessa posição desconfortável se não tivesse fixado, nos tempos do governo Temer, uma meta irrealista. No início do governo Lula, em 2023, o ministro Fernando Haddad, que presidia o Conselho Monetário, poderia ter revisto a meta central para cima e ampliado um pouco o intervalo de tolerância em torno do centro da meta. Mas faltou iniciativa e ficamos amarrados a um regime de metas excessivamente ambicioso.

Mesmo com a meta atual, seria possível praticar uma política de juros menos extravagante, mirando, por exemplo, sem declarar, o teto da meta de 4,5%. E se a inflação ficar um pouco acima disso, não será o fim do mundo.

Efeitos destrutivos dos juros altos

Como ignorar os estragos que a atual política de juros está produzindo no País?

Quem perde? As empresas que dependem de crédito interno, as famílias endividadas e o governo, por causa do efeito dos juros no custo da dívida pública.

Quem ganha? O aumento da despesa financeira de empresas e famílias vai para o bolso dos grandes bancos privados e outras instituições financeiras. E quando aumentam as despesas financeiras do governo, ganham os bancos, os ricos e os super-ricos que possuem elevado patrimônio financeiro no País. Por isso é que a política de juros altos faz tanto sucesso no mercado financeiro e na mídia tradicional.

O desajuste que o BC produz nas finanças públicas é imenso. Fala-se muito do déficit primário, mas nem sempre da carga de juros. O déficit primário anda por volta de 0,5% do PIB. Mas o déficit total está em torno 8,5% do PIB, refletindo uma carga de juros da ordem de 8% do PIB.

A pesada carga de juros decorre fundamentalmente do elevado custo médio e do tamanho da dívida governamental. Esse último, ao contrário do que se diz, não é muito alto para padrões internacionais. O ponto fora da curva é a taxa de juros, sempre entre as mais altas do mundo. E os juros escorchantes ainda provocam um efeito rebote sobre as finanças do governo, restringindo a atividade econômica e estreitando, assim, a base sobre a qual incidem os tributos.

Não se deve esquecer que a desaceleração da atividade é um objetivo deliberado da diretoria do BC, que nela vê uma forma de combater a inflação pelo lado da demanda. No período 2022–2025, o PIB brasileiro cresceu apenas cerca de 3% ao ano. Para 2026 e 2027, refletindo a política monetária, as projeções indicam um crescimento de 2% ou menos, inferior ao da economia mundial – resultado brilhante para uma economia que sofre há décadas de perda de dinamismo.

Além disso, num país que sofre de uma das piores distribuições de renda do mundo, Galípolo & Cia. se encarregam fielmente de manter intactas e até reforçar a bolsa-banqueiro e a bolsa-rentista. Promove-se assim a concentração da renda nacional, varrendo do mapa os impactos distributivos do Bolsa-Família e de outros programas sociais.

Note-se, por último, que, ao colocar fortunas nas mãos de investidores estrangeiros e de elites locais apátridas, o BC aumenta a vulnerabilidade externa do País, pois os beneficiários dos juros altos são exatamente aqueles que têm capacidade de transferir fácil e rapidamente recursos ao exterior, quando aumentam as incertezas no Brasil ou os juros no exterior. Essa facilidade só é possível porque houve uma liberalização prematura dos movimentos de capital desde os anos 1990, notável feito dos governos de Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor. A fuga de capitais virou um instrumento de chantagem dos bancos, dos ricos e dos super-ricos sobre todo e qualquer governo brasileiro.

Como dizia Leonel Brizola, a elite brasileira é um lixo. •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Traição?’

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