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Marília Campos quer “furar a bolha” e se tornar a primeira senadora de esquerda eleita por Minas Gerais

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Origem popular. A petista iniciou a militância no sindicalismo bancário. Por quatro vezes, administrou, com ampla aliança, a segunda maior cidade mineira – Imagem: Washington Alves/CartaCapital
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Foi por meio da igreja que Marília Campos começou a se interessar pela política. Nos primeiros anos da década de 1980, a Teologia da Libertação cativava estudantes e trabalhadores que tinham ali seu primeiro contato com a política. “Sempre tive um envolvimento com essa Igreja Católica comprometida com o fim das desigualdades sociais. Isso me levou a iniciar uma militância, primeiro, no movimento estudantil e, depois, no movimento sindical”, relata. Naquele tempo, as leituras de Dostoievski, Eduardo Galeano e dos clássicos marxistas forjavam suas posições.

Nascida em Ouro Branco, na região central do estado, Marília se mudou cedo para o Triângulo Mineiro, onde estudou e trabalhou como bancária. Em Uberlândia, maior cidade da região, participou da criação do PT e da CUT. No movimento sindical, conheceu José Prata de Araújo, com quem se casou e vive até hoje, tendo três filhos e uma neta.

Foi justamente o pedido de casamento de Prata que fez com que Marília se mudasse para Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Ela participou da oposição no sindicato dos bancários, contra a Central Geral dos Trabalhadores (CGT). “Disputamos a eleição sindical e ganhamos, na época era a CUT, contra os pelegos. E eu fui primeiro diretora do sindicato, depois cresci e fui presidente do sindicato”, relembra. Marília acredita que seu avanço na entidade se deu por causa do comprometimento e do ativismo, principalmente na organização e mobilização de greves. Pouco antes de completar 30 anos, ela coordenava um dos sindicatos mais fortes do País­ e participava de negociações salariais com a Federação Brasileira de Bancos. Ao encerrar o ciclo no movimento sindical, voltou a trabalhar como caixa de banco. Mas, ao participar de um encontro do PT em Contagem, acabou candidata a prefeita pela primeira vez, em 1996. “Fui numa reunião do partido e eles estavam discutindo quem seria o candidato a prefeito. Eu comecei a falar demais, aí o PT falou vai ser você”, relembra. Na primeira ­disputa, vencida pelo emedebista Newton Cardoso, que depois viria a ser governador do estado, a petista terminou em terceiro lugar. Para ela, a contenda não ficou marcada pela derrota, mas por um acúmulo de capital político. Foram 40 mil votos, 18,1% dos eleitores da cidade à época, no primeiro turno. Na eleição seguinte, a petista se tornaria a candidata mais votada da legenda e seria eleita vereadora. Em 2002, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa. Em 2004, venceu, pela primeira vez, a corrida pela prefeitura de Contagem.

Neste ano, Marília Campos renunciou ao quarto mandato como prefeita para concorrer a uma vaga ao Senado. A disputa não é simples, pois, desde o fim da ditadura, Minas Gerais nunca elegeu senador um político de esquerda. Em 2018, quando igualmente havia duas vagas em aberto, Dilma Rousseff liderou praticamente todas as pesquisas, mas acabou derrotada nas urnas por Rodrigo Pacheco, então no DEM, e Carlos Viana, à época no PHS. Dilma terminou em quarto lugar. O revés de uma companheira de partido não tira o otimismo de Marília, que afirma ter um perfil diferente daquele da ex-presidenta, não só por ter baixa rejeição, mas por transitar na esquerda e no centro e colher até a simpatia de quem se declara de direita. “Meu perfil não é de polarização, eu faço um debate político aberto com o lado que eu represento, mas eu dialogo com todos os setores. Eu não concentro petistas versus bolsonaristas, meu debate é de conteúdo.” Como exemplo de sua capacidade de articulação a ex-prefeita gosta de destacar que, ao fim de sua gestão em Contagem, sua base de apoio reunia 16 partidos de diferentes espectros ideológicos.

A elasticidade proposta fica evidente quando ela se declara a favor da articulação até com o PSDB de Aécio Neves, repetindo um cenário já testado em Minas. “O Aécio sempre teve uma proximidade, tanto é que nas campanhas passadas era Lulécio, Dilmécio… É uma aliança que o próprio eleitor fez do centro com a esquerda. O Aécio deu uma escorregada na época da Dilma, mas era um Brasil diferente e hoje nós temos um novo Brasil, onde a polarização não é mais com o Aécio, é com o bolsonarismo, e o Aécio se coloca no espectro de centro, o PSDB, que inclusive faz parte da minha aliança em Contagem.”

“Meu perfil não é de polarização”, diz a ex-prefeita de Contagem

No atual cenário da disputa ao Senado, o principal concorrente é Viana, atualmente no Podemos, que, apesar de ter obtido apenas 1% dos votos na eleição para a prefeitura de Belo Horizonte em 2024, tem oscilado entre a segunda e a terceira posição nas intenções de voto das duas­ últimas pesquisas eleitorais, a depender do cenário avaliado. O senador é impulsionado por uma robusta rede social e por ter estado em evidência como presidente da CPMI do INSS, posição que lhe permitiu atacar o governo Lula e o Supremo Tribunal Federal e obter visibilidade no bolsonarismo.

Se para Viana o ataque ao governo petista rende frutos, Marília aposta na proximidade com o presidente Lula para obter votos, principalmente no interior. “Hoje, minha representatividade ainda está concentrada nas regiões metropolitanas e meu desafio é consolidar esses votos e encantar os mineiros do interior. Por isso tenho viajado bastante.” Ela destaca que terá Lula no seu palanque e que sua agenda prevê percorrer o interior para ganhar novos aliados e eleitores, além de travar diálogo com associações que representam os municípios.

A petista acredita que em uma eleição com duas vagas, o eleitorado costuma dividir-se entre um candidato de esquerda e um de direita e que por ser o nome com melhores intenções de voto e ser apoiada por Lula, não haverá pulverização dos votos, como aconteceu em 2018. Ela afirma, porém, que sua campanha não será marcada pelo enfrentamento contra os demais concorrentes. “Eu não vou fazer embate com os candidatos ao Senado, até porque vou disputar o segundo voto, na verdade são eles que estão com o maior dilema, porque são três para uma só vaga.”

Marília conta ainda com o trunfo de uma boa avaliação ao deixar a prefeitura de Contagem. Sua maior vantagem, acredita, reside no fato de ser uma mulher na disputa por uma vaga de senadora. “Hoje há a necessidade de a gente aumentar a bancada feminina. E essa é uma questão que se coloca urgente e necessária.” •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Com jeitim’

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