Do Micro Ao Macro
Por que o antigo ‘cara da TI’ virou peça decisiva nas empresas
Pesquisa mostra que 82% dos executivos de cibersegurança reportam direto ao CEO, mas no Brasil 83% das companhias não têm um responsável dedicado
Durante anos, o técnico de informática, carinhosamente chamado de “cara da TI”, ocupou um espaço silencioso dentro das companhias. Era acionado quando a internet caía, quando o e-mail travava ou quando algum diretor esquecia a senha do sistema. A segurança da informação cabia ali, em uma sala discreta, longe das discussões sobre estratégia, expansão ou resultado financeiro. Esse retrato, porém, ficou para trás. Com a digitalização acelerada e o avanço dos ataques cibernéticos, o profissional que antes apenas resolvia problemas técnicos virou figura recorrente nas reuniões de alto nível.
Dados recentes do relatório da plataforma de software Splunk mostram a virada em números. Hoje, 82% dos profissionais à frente da cibersegurança reportam diretamente ao CEO, e 83% participam com regularidade dos encontros do conselho de administração. A mudança reflete uma leitura corporativa diferente: o risco cibernético passou a ser tratado como risco de negócio, com efeito imediato sobre reputação, operação e valor de mercado.
Para Fernando Dulinski, fundador do Cyber Economy Brasil, a evolução redesenha o próprio escopo da função. “À medida que os negócios se tornam mais digitais, a cibersegurança deixa de ser apenas uma função técnica e passa a integrar a estratégia corporativa. O CISO precisa traduzir riscos tecnológicos em impactos para o negócio e apoiar decisões que envolvem inovação, expansão e proteção de dados”, afirma.
Brasil ainda trata o cara da TI como improviso
Apesar do movimento internacional, o cenário brasileiro segue em descompasso. O Relatório Nacional de Cibersegurança, divulgado pelo Cyber Economy Brasil, mostra que 83% das empresas do país não dispõem de um executivo dedicado à área. Na prática, a responsabilidade recai sobre líderes técnicos, que tocam a função sem autonomia formal e sem cadeira garantida nos fóruns de decisão.
O mesmo levantamento indica que 70% dos conselhos brasileiros não discutem cibersegurança com regularidade. Enquanto o mercado global posiciona o profissional de tecnologia como engrenagem da governança, a maior parte das companhias locais ainda enxerga ataques digitais como dor de cabeça isolada, distante das pautas que de fato pesam no resultado.
Da sala dos servidores para a mesa do conselho
A defasagem cobra um preço. Em ambientes conectados, sistemas comprometidos paralisam operações, expõem dados de clientes e abalam a confiança do mercado em poucas horas. Por isso, o perfil exigido também mudou. Já não basta dominar firewalls, criptografia e protocolos de resposta a incidentes; é preciso falar a linguagem do conselho, conhecer indicadores financeiros e dialogar com áreas como jurídico, comunicação e relações com investidores.
Segundo Dulinski, é nesse ponto que se separa quem está pronto de quem ficou para trás. “A cibersegurança não é mais um custo, mas um pilar de confiança. O novo CISO precisa ter visão estratégica e fluência financeira para traduzir bits e bytes em impactos de negócio. Onde essa integração falha, a empresa fica cega para riscos que podem paralisar operações inteiras”, avalia.
O novo cara da TI e o futuro das empresas
Por enquanto, o desafio é de governança. Consolidar a área de segurança como um dos pilares da gestão exige tratar a proteção digital como parte da estrutura de qualquer decisão sobre expansão, inovação, fusão ou abertura de novos mercados. Companhias que dão esse passo tendem a antecipar riscos e proteger contratos relevantes; as que adiam a discussão se mantêm vulneráveis a paradas operacionais e perdas reputacionais difíceis de reverter.
Com a regulação avançando, a Lei Geral de Proteção de Dados em vigor e a pressão dos investidores por maturidade digital, o cara da TI deve deixar de ser figura periférica nos próximos anos. O movimento já dita a competitividade das companhias mais expostas ao consumidor final e começa a pressionar setores tradicionais, do varejo às concessionárias de serviços públicos.
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