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Do concreto ao carbono: o Brasil lidera a virada da arquitetura
Arquitetura brasileira ganha protagonismo global ao unir tradição modernista, inovação técnica e soluções orientadas por desempenho e sustentabilidade
A conquista recente da arquiteta Fernanda Marques no iF Design Award, uma das premiações de design mais prestigiadas e antigas do mundo, chega em um momento que diz mais sobre o coletivo do que sobre o individual. O reconhecimento de três de seus projetos não é apenas um marco de carreira. Ele se insere em um reposicionamento mais amplo da arquitetura brasileira no cenário global do design.
O próprio iF, historicamente associado à excelência formal e técnica, vem ajustando seus critérios. Hoje, inovação estética não basta. Entram na equação impacto ambiental, eficiência e relevância social. Nesse contexto, o desempenho brasileiro recente, com mais de uma centena de projetos reconhecidos, deixa de ser um dado pontual e passa a indicar maturidade. Não é exceção; é movimento.
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O foco, portanto, não está no troféu. Está no que ele revela. A arquitetura contemporânea brasileira atravessa uma mudança de paradigma. A forma perde protagonismo isolado e passa a dividir espaço com métricas objetivas de desempenho. O debate se desloca do desenho autoral para variáveis como consumo energético, conforto térmico e impacto dos materiais. O arquiteto amplia seu campo de atuação. O projeto deixa de ser apenas forma e passa a operar como sistema.
Esse deslocamento dialoga diretamente com o que já acontece em outros mercados. Premiações internacionais funcionam como termômetro ao valorizar soluções que conciliam inovação técnica e responsabilidade ambiental. Ao mesmo tempo, a presença crescente de projetos brasileiros nesses espaços indica que o país não apenas acompanha essa transformação, mas participa da sua construção. A arquitetura nacional, historicamente marcada por uma identidade formal forte, ganha novas camadas de complexidade. Tradição e inovação passam a coexistir de maneira mais estratégica.
Quem é Fernanda Marques?
A trajetória de Fernanda Marques ajuda a ler esse momento. Formada pela FAU-USP, a arquiteta construiu uma carreira multidisciplinar, transitando entre arquitetura, interiores e design de produto. O interesse surgiu cedo, impulsionado pela proximidade com arte e desenho e pela percepção de como os espaços interferem na vida cotidiana. “Sempre busquei criar ambientes que tenham significado para quem os habita”, afirma. A experiência do usuário permanece como eixo do seu trabalho.
A influência do modernismo paulista aparece como base estruturante. Na universidade, o contato com referências como Paulo Mendes da Rocha consolidou uma leitura da arquitetura como expressão estrutural, não apenas formal. “Aprendi que a estrutura não funciona apenas como solução técnica, mas como linguagem”, diz. Essa herança não é abandonada. É reinterpretada à luz de um contexto mais complexo, que exige novas respostas.

Créditos: Gui Gomes/Editora Globo
Legenda: A arquiteta Fernanda Marques
O reconhecimento internacional surge, nesse cenário, como reflexo de um processo coletivo. “Ele valida nosso trabalho em um cenário global muito exigente e reforça a relevância da arquitetura brasileira hoje”, afirma. Mais do que visibilidade individual, a premiação amplia a presença da produção nacional. Os 112 projetos brasileiros premiados reforçam essa escala. Não se trata de um caso isolado, mas de consistência.
Fernanda Marques passa, assim, a representar uma geração que articula tradição e inovação. Sua atuação evidencia como a arquitetura brasileira incorpora novas camadas sem perder identidade. A interseção entre disciplinas, recorrente em seus projetos, reflete uma tendência mais ampla. Arquitetura, design, tecnologia e sustentabilidade deixam de operar de forma isolada. O valor está na integração.
Do modernismo à performance ambiental
A arquitetura moderna brasileira sempre operou com uma lógica racional, na qual o material tinha papel central. Hoje, essa equação se amplia. Métricas de desempenho entram no núcleo do projeto. Segundo Fernanda Marques, fatores como eficiência energética, conforto térmico e impacto ambiental já fazem parte da concepção desde o início. “Não basta que uma casa seja esteticamente interessante. É necessário responder a critérios de performance.”
Os materiais ganham protagonismo estratégico. Concretos de baixo carbono, madeira engenheirada e vidros de alta performance deixam de ser escolhas secundárias. Passam a orientar decisões fundamentais. O material deixa de ser consequência. Torna-se ponto de partida. Essa inversão altera a prática arquitetônica e carrega implicações ambientais e sensoriais.
Ferramentas digitais aceleram esse processo. Simulações ambientais e modelagem paramétrica permitem testar cenários com mais precisão, reduzindo incertezas e ampliando possibilidades. “Hoje conseguimos avaliar soluções com mais assertividade, o que transforma nossa capacidade de decisão”, afirma. A tecnologia não substitui o processo criativo. Expande. O projeto se torna mais informado.
O resultado é uma arquitetura orientada por performance. A estética continua relevante, mas deixa de ser critério único. Premiações internacionais reforçam essa lógica ao valorizar resultados mensuráveis. “Há uma expectativa crescente de que o projeto contribua positivamente para o ambiente e para a qualidade de vida”, diz Fernanda. A arquitetura se torna mais complexa e, ao mesmo tempo, mais responsável.

Créditos: Divulgação
Legenda: Uma das peças da coleção Tumbi para St.James
Tecnologia invisível: o novo luxo
No morar contemporâneo, a tecnologia passa por um reposicionamento. Sistemas inteligentes, sensores e automação deixam de ser exibidos e passam a operar de forma discreta. “A melhor tecnologia é aquela que melhora a experiência do espaço sem se impor visualmente”, afirma Fernanda Marques. O conceito de luxo muda. Sai o excesso visível. Entra a integração silenciosa.
Casas inteligentes já não precisam parecer vitrines de inovação. Iluminação automatizada, controle térmico e gestão energética funcionam nos bastidores. O foco se desloca para o bem-estar. A experiência se torna o principal indicador de qualidade. A tecnologia atua como infraestrutura.
Essa integração, no entanto, exige mais coordenação. Arquitetura, engenharia e tecnologia precisam operar de forma articulada. “A tecnologia permite maior interdisciplinaridade e torna o processo mais ágil”, destaca. O projeto contemporâneo ganha densidade. A casa passa a ser pensada como ecossistema. O resultado é uma arquitetura que privilegia conforto e experiência sem abrir mão da eficiência. A tecnologia deixa de ser protagonista. Passa a ser suporte. O valor está no que não se vê, mas se sente.

Créditos: Vitor Guilherme
Legenda: O empreendimento Joya Jardins, da incorporadora Netcorp
Arquitetura sensorial: projetar emoções
A dimensão sensorial sempre esteve presente na arquitetura, mas ganha protagonismo. Luz natural, acústica, temperatura e textura deixam de ser complementos. Tornam-se centrais. “A forma como os materiais moldam o espaço influencia diretamente como as pessoas se sentem”, afirma Fernanda Marques.
Materiais, cores e superfícies constroem a atmosfera. Ventilação e iluminação natural impactam diretamente o conforto. “Busco criar espaços equilibrados, com relação fluida com o entorno”, diz. A integração entre interior e exterior se consolida como diretriz. A transição entre espaços é parte do projeto.
A sustentabilidade também se torna mais tangível. Ambientes bem ventilados, iluminados naturalmente e termicamente eficientes reduzem a dependência de sistemas artificiais. O discurso técnico se materializa no uso cotidiano. A sustentabilidade deixa de ser conceito. Vira experiência. A arquitetura sensorial sintetiza técnica e percepção. Exige conhecimento, mas também sensibilidade. O arquiteto atua como mediador entre diferentes dimensões do espaço. Não se trata apenas de resolver problemas. Trata-se de criar experiências significativas.

Créditos: Fernando Guerra
Legenda: O projeto Apartamento Pulso
Brasil como potência tropical
O Brasil reúne condições específicas para se posicionar como referência em arquitetura de baixo impacto em climas tropicais. Estratégias como ventilação cruzada, sombreamento e integração com a vegetação fazem parte da tradição local. “Nosso clima e nossa biodiversidade oferecem uma base muito rica para o desenvolvimento de soluções adaptadas”, afirma Fernanda Marques.
O desafio está na escala. Transformar esse conhecimento em soluções replicáveis exige avanço em pesquisa de materiais e sistemas construtivos. “É preciso desenvolver estratégias que possam ser aplicadas em maior escala”, diz. Isso depende de articulação entre mercado, indústria e academia. Inovação precisa ser sistematizada. O reconhecimento internacional valida esse potencial. Indica que a arquitetura brasileira já dialoga com demandas globais. Ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade. O país passa a ser observado como laboratório para soluções em climas quentes.
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