CartaCapital
O minério é deles
Com a inestimável cooperação dos “patriotas” nativos, os EUA avançam sobre as terras-raras no Brasil
A USA Rare Earth, empresa norte-americana listada na Nasdaq e financiada pelo governo de Donald Trump, anunciou, na segunda-feira 20, a compra da Serra Verde, única mineradora de terras-raras em operação no Brasil, por 2,8 bilhões de dólares (cerca de 13,8 bilhões de reais). A conclusão do negócio está prevista para o terceiro trimestre de 2026, com pagamento de 300 milhões de dólares em dinheiro e o restante em ações.
À primeira vista, pode parecer que pouca coisa mudou. Embora “brasileira”, a Serra Verde já era controlada por grupos estrangeiros – dois fundos norte-americanos (Denham Capital e Energy and Minerals Group) e um britânico (Vision Blue Resources) – e toda a produção era destinada ao mercado externo. A nova controladora não é, porém, uma empresa qualquer. Desde que a China suspendeu a exportação de minerais críticos aos EUA, em retaliação à guerra tarifária de Trump, a Casa Branca tem investido pesadamente no setor – e a USA Rare Earth faz parte dessa estratégia.
Fundada em 2019, a empresa só começou a gerar receita no quarto trimestre de 2025, somando 1,6 milhão de dólares, segundo a revista Fortune. O prejuízo líquido no ano foi de quase 300 milhões de dólares. Seu principal projeto é o Round Top, um empreendimento de mineração e processamento de terras-raras no oeste do Texas, com inauguração prevista para o fim de 2028. Apesar dos resultados modestos, o Departamento de Comércio dos EUA se dispôs a investir 1,6 bilhão de dólares na companhia em janeiro deste ano – o que pode assegurar ao governo norte-americano uma participação de até 15% em seus ativos.
Paralelamente, a Serra Verde obteve, no início de abril, um financiamento de 565 milhões de dólares junto à U.S. International Development Finance Corporation (DFC), agência governamental ligada ao Departamento de Estado. A liberação dos recursos está atrelada a cláusulas de offtake, que garantem prioridade de fornecimento a empresas norte-americanas. Ao comentar o acordo para o Financial Times, Conor Coleman, chefe de investimentos da DFC, fez questão de enfatizar que o texto inclui “controles de escoamento, garantindo que (os minerais) fossem para os EUA e para partes alinhadas”.
Após a venda da companhia, anunciada na segunda 20, essa prioridade se converteu em exclusividade. A mineradora “brasileira” firmou um acordo de 15 anos para fornecer 100% da produção, durante a fase inicial da mina, a uma empresa de propósito específico capitalizada pelo governo dos EUA e por fontes privadas. “Estamos entusiasmados em unir forças com a USA Rare Earth para criar uma empresa maior e mais diversificada, abrangendo a cadeia de suprimentos de terras-raras no Brasil, EUA e os seus aliados”, afirmou Thras Moraitis, CEO do Grupo Serra Verde.
A Serra Verde opera a mina Pela Ema, em Minaçu (GO). Trata-se do único depósito de argilas iônicas de terras-raras fora da Ásia capaz de produzir, em escala, quatro elementos usados na fabricação de ímãs permanentes (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), empregados em veículos elétricos, aerogeradores e equipamentos de defesa, entre outros. Apesar de ter, entre seus antigos donos, dois grupos baseados nos EUA, a companhia exportava quase toda a produção para a China, que concentra cerca de 70% da extração mundial de terras-raras e controla 90% do refino. Agora, a mina brasileira passará a abastecer o mercado norte-americano.
A ofensiva de Trump sobre as terras-raras no Brasil conta com o inestimável apoio de muitos “patriotas”. Em março, Ronaldo Caiado, governador de Goiás e pré-candidato à Presidência pelo PSD, assinou um memorando de entendimento com o encarregado de negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, para explorar o potencial minerário do estado. Em contrapartida, os norte-americanos teriam acesso exclusivo e confidencial ao mapeamento geológico estadual. Um acerto claramente ilegal, pois a competência de regular a gestão de minerais estratégicos é exclusiva da União, argumenta a deputada federal Dandara Tonantzin (PT), que acionou a Procuradoria-Geral da República para anular o acordo.
O contrato prevê 15 anos de fornecimento exclusivo ao mercado norte-americano
No mesmo mês, em discurso na Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), realizada no Texas, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, afirmou que “o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras-raras”. Enquanto isso, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), surpreendeu com a pressa em pautar o PL 2780/2024, que estabelece a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. “O projeto entrou na pauta da quarta-feira 22, logo após o feriado de Tiradentes, e o deputado Arnaldo Jardim nem sequer havia apresentado seu relatório. Um tema dessa magnitude não pode ser tratado de forma tão açodada”, comenta o deputado Pedro Uczai, líder da bancada do PT na Casa.
A pedido do governo, Jardim adiou para 4 de maio a entrega de seu parecer. Até lá, poderá analisar sugestões do Palácio do Planalto e de parlamentares. O texto original, de Zé Silva (Solidariedade), foi elaborado para atender aos interesses das mineradoras privadas, com ampla oferta de incentivos fiscais e creditícios e poucas exigências quanto à industrialização desses minerais no País. A bancada petista propõe a criação da estatal TerraBras para explorar minerais críticos e a adoção de um regime de partilha, nos moldes do pré-sal, mas o governo ainda não encampou a proposta. “Ao retornar da viagem à Alemanha, o presidente Lula participará de uma reunião com o ministro Alexandre Silveira (Minas e Energia) para se inteirar sobre o tema e definir a estratégia. Nossa proposta estará na mesa.”
Na justificativa do PL 1754/2026, os parlamentares do PT argumentam que o objetivo do regime de partilha é “assegurar a participação direta do Estado, promovendo segurança nacional, conteúdo local, preservação ambiental e transparência, além de fomentar o desenvolvimento tecnológico e industrial”. Em outra passagem, acrescentam: “Ao potencializar e incentivar o beneficiamento dos recursos extraídos, o modelo inibe a prática de exportar matérias-primas minerais sem valor agregado”.
O discurso parece afinado com o de Lula. “Não repetiremos o papel de meros exportadores de commodities minerais”, escreveu o presidente na rede social X, em 19 de abril. “Com apenas 30% do potencial mineral mapeado, o País já detém a maior reserva mundial de nióbio, a segunda de grafite e terras-raras, e a terceira de níquel. Esses insumos devem ser instrumentos de desenvolvimento econômico e social.”
Difícil será superar a resistência de Jardim. “Criar estatal de mineração seria um retrocesso e não estará em meu relatório de forma alguma”, afirmou no fim de março. “Não vamos seguir a old fashion estatizante.” •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O minério é deles’
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