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Fim de festa

Mais de duas dezenas de empresas listadas na Bolsa enfrentam processos de recuperação judicial

Fim de festa
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Ressaca. O período de captação fácil na B3 foi soterrado pela Selic nas alturas. A Raízen e o Pão de Açúcar pediram recuperação – Imagem: Raphael Henrique Figueira, iStockphoto e Cris Faga/NurPhoto/AFP
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Havia um tempo em que empresas incapazes de honrar as dívidas tinham um único destino, a falência, com o encerramento das atividades e a liquidação dos ativos. Esta era a consequência quase inevitável para companhias que chegavam ao limite do endividamento. A Lei de Recuperação Judicial, de 2005, criou uma alternativa ao encerramento compulsório das atividades e uma forma de manter os empregos. Em vez de decretar o fim, permitiu que empreendimentos em dificuldade negociassem suas dívidas e tentassem retomar o equilíbrio sem fechar as portas. A recuperação extrajudicial seguiu caminho semelhante, com mais flexibilidade para tratar diretamente com grupos específicos de credores. Os dois mecanismos transformaram o modo como o Brasil trata a insolvência empresarial.

A onda chegou, no entanto, a um lugar que poucos antecipavam. Em março de 2026, a Raízen, gigante dos combustíveis, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar perto de 65 bilhões de reais em dívidas, numa operação que pode ser a maior reestruturação extrajudicial registrada no País­. Dias antes, o Grupo Pão de Açúcar havia feito o mesmo, buscando renegociar 4,5 bilhões de reais em passivos que declarou não ter condições de honrar sem comprometer as operações. Um levantamento baseado em dados da Bolsa de Valores e da CVM indica que 21 das 357 empresas listadas estão em recuperação judicial. Somados os processos extrajudiciais e os pedidos de Chapter 11 nos Estados Unidos, o conjunto representa 6% das companhias abertas. O cenário não é o de um acidente isolado, mas o retrato de um ciclo que chegou ao fim e das consequências das taxas de juro nas alturas.

A Serasa Experian relançou, em abril de 2026, seu Indicador de Falências e Recuperações Judiciais. Os dados apontam 977 processos em 2025, o maior volume desde 2016, alta de 5,5% ante o ano anterior. Medido pelo número de CNPJs, o impacto é mais expressivo, com 2.466 empresas ingressando no mecanismo, alta de 13%, recorde da série.

Entre 2020 e 2021, o Brasil operava com a Selic no menor patamar de sua história, 2%, e expandir com alavancagem parecia ser, além de mais viável, mais racional. O Banco Central iniciou em seguida um dos ciclos de aperto monetário mais agressivos da história recente. Margens foram comprimidas, o capital de giro encareceu e a rolagem de passivos, antes quase automática, passou a depender de condições que muitos balanços não conseguiam oferecer. “O que vemos não é uma virada de ciclo, mas um respiro estatístico após dois anos de forte deterioração. O problema não passou, ele está sendo digerido”, avalia Luiz Alexandre Cristaldo, economista e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Administração Judicial.

O mercado de capitais sente o peso do período de alavancagem e dos juros altos

A escala dos passivos seria muito difícil de imaginar há poucos anos: Americanas, com mais de 40 bilhões de reais em obrigações, Oi, com dívidas próximas de 50 bilhões e falência decretada, e Light, com passivos acima de 11 bilhões, entre outras. Os papéis da Raízen chegaram a ser negociados abaixo de 50 centavos, e o valor de mercado despencou de 76,3 bilhões, em 2021, para em torno de 5,3 bilhões de reais em 2026. Para Cristaldo, o ciclo de juros baixos produziu uma ilusão coletiva de solvência. “Tamanho e acesso ao mercado não substituem disciplina financeira. Houve complacência dos dois lados: os credores subestimaram o risco e os gestores superestimaram sua capacidade de alavancagem.” Segundo Alan Mincache, advogado e vice-presidente da Comissão de Recuperação Judicial e Falências da OAB do Paraná, o longo período de Selic acima de 10% esgotou as margens de liquidez, com exaurimento de garantias reais e de recebíveis.

O mercado observa ainda companhias que ainda não entraram com pedidos formais, mas é o caso da Braskem, petroquímica listada na B3 e em Nova York que acumula dívida líquida elevada num ambiente de margens reduzidas. A companhia nunca mais foi a mesma depois da Operação Lava Jato. A Oncoclínicas, rede de oncologia que abriu capital em 2021, viu suas ações perderem valor de forma acentuada e segue sob escrutínio. Em ambos os casos, o mercado acompanha a capacidade de refinanciamento e a geração de caixa.

O setor que mais acumula casos é o agronegócio. A agropecuária saltou de 1,3% para 30,1% dos CNPJs em recuperação judicial entre 2012 e 2025. ­Cristaldo lê o movimento como exposição de uma fragilidade preexistente. “O agro se expandiu alavancado em crédito barato, câmbio favorável e preços elevados. Quando esse tripé deixou de existir, ficou evidente que grande parte do setor operava com estrutura financeira frágil.” O produtor rural, lembra Mincache, só obteve acesso formal ao mecanismo em 2020. Com mais de 5 milhões de estabelecimentos no País, menos de 0,05% deles recorreram ao instrumento até agora.

A proporção entre judicial e extrajudicial recuou de 26 para 1, em 2023, para 16 para 1, em 2025. Mincache nota que o mecanismo começa a alcançar médias empresas. Para as pequenas e médias, ­Cristaldo mantém a ressalva: a chegada costuma ser tardia. “Não por escolha, mas por limitação. No Brasil, a reestruturação ainda é vista como último recurso, não como ferramenta de gestão. Enquanto isso não mudar, seguiremos presos a um modelo reativo e mais destrutivo.”

Apesar de temerário, o processo de reestruturação é uma boia de salvação, pois os pedidos de falência caíram 19% em 2025, com 698 CNPJs afetados, 61% abaixo de 2012. Mincache vê o recuo como amadurecimento dos institutos. Cristaldo concorda, mas pondera que o sistema ainda permite postergar o ajuste necessário. Os dados da Serasa Experian­ trazem um alerta para 2026, com 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro, dívida média de 23 mil reais e perto de sete restrições por CNPJ. A inadimplência costuma anteceder as recuperações judiciais. O que Cristaldo teme não é um novo pico, mas algo mais silencioso, como a deterioração prolongada, com empresas sobrevivendo no limite e perdendo capacidade de investimento. A Bolsa brasileira atravessa um momento em que os anos de expansão financiada por crédito barato apresentam a conta. Não de uma vez nem de forma ordenada, mas num ritmo que indica que o ajuste ainda não chegou ao fim. •

Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fim de festa’

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