Economia
Fim de festa
Mais de duas dezenas de empresas listadas na Bolsa enfrentam processos de recuperação judicial
Havia um tempo em que empresas incapazes de honrar as dívidas tinham um único destino, a falência, com o encerramento das atividades e a liquidação dos ativos. Esta era a consequência quase inevitável para companhias que chegavam ao limite do endividamento. A Lei de Recuperação Judicial, de 2005, criou uma alternativa ao encerramento compulsório das atividades e uma forma de manter os empregos. Em vez de decretar o fim, permitiu que empreendimentos em dificuldade negociassem suas dívidas e tentassem retomar o equilíbrio sem fechar as portas. A recuperação extrajudicial seguiu caminho semelhante, com mais flexibilidade para tratar diretamente com grupos específicos de credores. Os dois mecanismos transformaram o modo como o Brasil trata a insolvência empresarial.
A onda chegou, no entanto, a um lugar que poucos antecipavam. Em março de 2026, a Raízen, gigante dos combustíveis, protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar perto de 65 bilhões de reais em dívidas, numa operação que pode ser a maior reestruturação extrajudicial registrada no País. Dias antes, o Grupo Pão de Açúcar havia feito o mesmo, buscando renegociar 4,5 bilhões de reais em passivos que declarou não ter condições de honrar sem comprometer as operações. Um levantamento baseado em dados da Bolsa de Valores e da CVM indica que 21 das 357 empresas listadas estão em recuperação judicial. Somados os processos extrajudiciais e os pedidos de Chapter 11 nos Estados Unidos, o conjunto representa 6% das companhias abertas. O cenário não é o de um acidente isolado, mas o retrato de um ciclo que chegou ao fim e das consequências das taxas de juro nas alturas.
A Serasa Experian relançou, em abril de 2026, seu Indicador de Falências e Recuperações Judiciais. Os dados apontam 977 processos em 2025, o maior volume desde 2016, alta de 5,5% ante o ano anterior. Medido pelo número de CNPJs, o impacto é mais expressivo, com 2.466 empresas ingressando no mecanismo, alta de 13%, recorde da série.
Entre 2020 e 2021, o Brasil operava com a Selic no menor patamar de sua história, 2%, e expandir com alavancagem parecia ser, além de mais viável, mais racional. O Banco Central iniciou em seguida um dos ciclos de aperto monetário mais agressivos da história recente. Margens foram comprimidas, o capital de giro encareceu e a rolagem de passivos, antes quase automática, passou a depender de condições que muitos balanços não conseguiam oferecer. “O que vemos não é uma virada de ciclo, mas um respiro estatístico após dois anos de forte deterioração. O problema não passou, ele está sendo digerido”, avalia Luiz Alexandre Cristaldo, economista e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Administração Judicial.
O mercado de capitais sente o peso do período de alavancagem e dos juros altos
A escala dos passivos seria muito difícil de imaginar há poucos anos: Americanas, com mais de 40 bilhões de reais em obrigações, Oi, com dívidas próximas de 50 bilhões e falência decretada, e Light, com passivos acima de 11 bilhões, entre outras. Os papéis da Raízen chegaram a ser negociados abaixo de 50 centavos, e o valor de mercado despencou de 76,3 bilhões, em 2021, para em torno de 5,3 bilhões de reais em 2026. Para Cristaldo, o ciclo de juros baixos produziu uma ilusão coletiva de solvência. “Tamanho e acesso ao mercado não substituem disciplina financeira. Houve complacência dos dois lados: os credores subestimaram o risco e os gestores superestimaram sua capacidade de alavancagem.” Segundo Alan Mincache, advogado e vice-presidente da Comissão de Recuperação Judicial e Falências da OAB do Paraná, o longo período de Selic acima de 10% esgotou as margens de liquidez, com exaurimento de garantias reais e de recebíveis.
O mercado observa ainda companhias que ainda não entraram com pedidos formais, mas é o caso da Braskem, petroquímica listada na B3 e em Nova York que acumula dívida líquida elevada num ambiente de margens reduzidas. A companhia nunca mais foi a mesma depois da Operação Lava Jato. A Oncoclínicas, rede de oncologia que abriu capital em 2021, viu suas ações perderem valor de forma acentuada e segue sob escrutínio. Em ambos os casos, o mercado acompanha a capacidade de refinanciamento e a geração de caixa.
O setor que mais acumula casos é o agronegócio. A agropecuária saltou de 1,3% para 30,1% dos CNPJs em recuperação judicial entre 2012 e 2025. Cristaldo lê o movimento como exposição de uma fragilidade preexistente. “O agro se expandiu alavancado em crédito barato, câmbio favorável e preços elevados. Quando esse tripé deixou de existir, ficou evidente que grande parte do setor operava com estrutura financeira frágil.” O produtor rural, lembra Mincache, só obteve acesso formal ao mecanismo em 2020. Com mais de 5 milhões de estabelecimentos no País, menos de 0,05% deles recorreram ao instrumento até agora.
A proporção entre judicial e extrajudicial recuou de 26 para 1, em 2023, para 16 para 1, em 2025. Mincache nota que o mecanismo começa a alcançar médias empresas. Para as pequenas e médias, Cristaldo mantém a ressalva: a chegada costuma ser tardia. “Não por escolha, mas por limitação. No Brasil, a reestruturação ainda é vista como último recurso, não como ferramenta de gestão. Enquanto isso não mudar, seguiremos presos a um modelo reativo e mais destrutivo.”
Apesar de temerário, o processo de reestruturação é uma boia de salvação, pois os pedidos de falência caíram 19% em 2025, com 698 CNPJs afetados, 61% abaixo de 2012. Mincache vê o recuo como amadurecimento dos institutos. Cristaldo concorda, mas pondera que o sistema ainda permite postergar o ajuste necessário. Os dados da Serasa Experian trazem um alerta para 2026, com 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro, dívida média de 23 mil reais e perto de sete restrições por CNPJ. A inadimplência costuma anteceder as recuperações judiciais. O que Cristaldo teme não é um novo pico, mas algo mais silencioso, como a deterioração prolongada, com empresas sobrevivendo no limite e perdendo capacidade de investimento. A Bolsa brasileira atravessa um momento em que os anos de expansão financiada por crédito barato apresentam a conta. Não de uma vez nem de forma ordenada, mas num ritmo que indica que o ajuste ainda não chegou ao fim. •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Fim de festa’
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



