Mundo
Jogo de rico
Além dos ingressos, o transporte nas cidades-sede do torneio nos EUA atinge valores exorbitantes
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, coça os dedos. O cartola prevê uma arrecadação de 11 bilhões de dólares durante a Copa do Mundo, a ser disputada nos Estados Unidos, Canadá e México e no formato com 48 seleções. Bom para os cofres da entidade, ruim para as cidades-sede e os torcedores sem recursos de sobra. Na sexta-feira 17, a New Jersey Transit, empresa pública de transporte que opera o principal sistema de trens e ônibus do estado vizinho a Nova York, confirmou tarifas de até 150 dólares pelo bilhete de trem entre a Penn Station, em Manhattan, e o estádio MetLife. O valor é quase 12 vezes a tarifa atual, de 12,90 dólares, para um trajeto de cerca de 15 minutos e será cobrado nos dias de cada uma das oito partidas no estado, a final incluída. O Brasil jogará lá.
A decisão da empresa é sinal de uma batalha a céu aberto entre o Partido Democrata e a Fifa em torno do financiamento do transporte durante o torneio. Em comunicado oficial, a governadora de New Jersey, Mikie Sherrill, acusou a entidade de contribuir “com zero dólar” para o sistema, dizendo que o acordo herdado pelo governo estadual deixou a NJ Transit presa com uma conta de ao menos 48 milhões de dólares, enquanto a cartolagem embolsa milhões. “A Fifa deveria cobrir o custo de transportar os torcedores. E, se não o fizer, não vamos subsidiar quem tem ingresso para a Copa à custa dos moradores de New Jersey que dependem da NJ Transit todos os dias.” Heimo Schirgi, um dos diretores da federação de futebol, reclamou: “Nenhum outro evento global, show ou grande promotor esportivo jamais enfrentou tal demanda”.
Não bastasse, a Fifa proibiu o estacionamento no estádio em dias de jogos, medida extrema que, em versão atenuada, se repete nos demais estádios dos EUA, enquanto no Canadá e México nenhuma restrição equivalente foi anunciada. Aplicativos de transporte, como o Uber, terão preços dinâmicos e só poderão operar fora do perímetro do estádio. Caminhar até lá é proibido pela polícia e as cerca de 5 mil vagas disponíveis no shopping mais próximo do Metlife, a 2 quilômetros do estádio, foram colocadas à venda pela Fifa por 225 dólares a diária, quando normalmente a tarifa máxima listada para eventos não passa de 80. No SoFi Stadium, em Los Angeles, as vagas chegam a 300 dólares por jogo, mais caro que muitos ingressos da categoria 3. Em Boston, o preço inicial no Gillette Stadium é de 150 dólares, podendo chegar a 600.
“Quando se eliminam vagas de estacionamento, fecham a Penn Station e forçam todos os torcedores a usar um único sistema de transporte, a Fifa precisa agir de acordo. Você não pode dirigir, você não pode ir a pé. Você precisa usar o transporte público ou pagar 225 dólares por uma vaga de estacionamento em um shopping que fica a 20 minutos de caminhada. Então, a Fifa está forçando todos os torcedores a usar o transporte público e ainda dizendo: ‘Vocês têm de pagar 150 dólares para ajudar a NJ Transit a transportá-los’. Exijo que a Fifa assuma a responsabilidade e cubra os custos de transporte para as cidades e estados-sede”, afirma Chuck Schumer, líder democrata no Senado.
Os estados democratas que receberão partidas se recusam a arcar com os custos
A disputa sobre quem paga o trem é apenas a ponta visível de uma transformação mais ampla no modo como a Copa de 2026 foi concebida para ser vivida, ou melhor, consumida. Em muitos estádios, os vastos estacionamentos que nos dias de jogos de futebol americano abrigam a tradição do tailgate (churrasqueiras no asfalto, coolers de cerveja, horas de confraternização antes do apito inicial) foram convertidos em área operacional, pontos de embarque e estandes de patrocinadores. O resultado é um Mundial em que até o direito de ocupar o entorno do estádio, beber, fazer churrasco e ver o jogo em um telão virou produto premium. Nem mesmo a Fan Fest, experiência que nas últimas quatro Copas atraiu dezenas de milhões de torcedores sem cobrar um centavo, sobreviveu intacta ao modelo norte-americano. O festival foi substituído por uma rede de eventos menores e com orçamento minguado de 5 milhões de dólares. Não só: as chamadas Fan Zones cobrarão entrada de 10 dólares por dia.
Na outra ponta estão os preços dos próprios ingressos, turbinados por um modelo de venda sob medida para o mercado dos EUA. A final no MetLife Stadium tem bilhetes na categoria mais acessível a partir de 2.030 dólares e na categoria premium a até 6.370 dólares na tabela-base, valores que a Fifa reajustou para cima ao longo das fases de venda, chegando a 10.990 dólares no pico. Os jogos da fase de grupos em Nova York partem de 60 dólares no chamado “lote do torcedor fiel”, categoria criada após críticas generalizadas aos preços, distribuída exclusivamente pelas federações nacionais a fãs com histórico comprovado de presença em jogos anteriores, e que representa menos de 2% dos ingressos de cada partida. Para o público geral, o piso é de 120 dólares, antes da taxa de serviço de 15% cobrada pela Fifa, chegando a 620 dólares nas áreas centrais, com valores que sobem ainda mais quando entram em campo as seleções favoritas.
Torcedores latinos e de nações visadas pelo governo Trump vão enfrentar, além dos custos, um empecilho adicional. Em 10 de fevereiro, durante audiência na Comissão de Segurança Interna da Câmara dos Deputados, o diretor interino do Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, Todd Lyons, afirmou que manteria a presença ostensiva dos agentes durante o campeonato. “O ICE é uma parte-chave de todo o aparato de segurança da Copa do Mundo. Estamos dedicados a proteger essa operação e garantir a segurança de todos os participantes e visitantes”. O site The Athletic revelou que a preocupação da cúpula da Fifa é tamanha que há uma pressão para Infantino solicitar pessoalmente a Trump a redução das operações do ICE durante o Mundial. Ainda assim, nem tudo está perdido. Ao menos, fora dos Estados Unidos. O Canadá e o México prometem uma experiência bem diferente. Infelizmente, os dois países receberão um número menor de jogos. •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Jogo de rico’
2026 já começou
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.



