Política
Efeito Orloff
O desastroso impacto da reforma de Javier Milei na Argentina deve servir de alerta aos brasileiros
A recente sinalização do entorno político de Flávio Bolsonaro em favor de uma nova reforma trabalhista não deve ser tratada como um movimento isolado. Em recente entrevista à Folha de S.Paulo, o senador Rogério Marinho, coordenador de sua pré-campanha, afirmou que um eventual novo governo bolsonarista pretende “revisitar” as reformas trabalhista e da Previdência. A declaração explicita o horizonte que parte da direita brasileira projeta para o mundo do trabalho. Nesse contexto, é impossível não olhar para o que se passa na nossa vizinhança, especialmente ao sul do Rio da Prata.
Lembram-se de um famoso comercial de vodca dos anos 1990, com o slogan “eu sou você amanhã”? Pois corremos o risco de uma “argentinização” trabalhista em caso de vitória de Flávio nas eleições de outubro. A reforma promovida pelo governo Milei, aliado do bolsonarismo, ancora-se em uma flexibilização ampla das relações de trabalho. Entre suas diretrizes estão a facilitação de demissões, a limitação de indenizações, o aumento da jornada de trabalho, a restrição do direito de greve, o enfraquecimento da negociação coletiva e a normalização de contratos de trabalho mais instáveis.
Na versão inicial do projeto, havia até a proposta de pagamento de salários em troca de alimentos e habitação, o que criaria uma espécie de escravidão 3.0. Por pressão popular, esse trecho foi retirado do texto final. No fim de março, a Justiça argentina suspendeu temporariamente 82 artigos da nova lei, após pleito dos companheiros da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a principal central sindical dos nossos vizinhos.
Esse tipo de proposta parte de um diagnóstico conhecido: o de que direitos trabalhistas seriam obstáculos ao crescimento econômico. A solução, nessa lógica, seria reduzir custos e ampliar a flexibilidade, criando um suposto e duvidoso ambiente mais favorável à geração de empregos. O problema é que essa promessa já foi testada – inclusive no Brasil – sem produzir os efeitos anunciados.
A reforma trabalhista de 2017, no governo Temer, foi apresentada como uma alavanca para o crescimento e a formalização do emprego. O que se viu nos anos seguintes foi um mercado de trabalho mais fragmentado, com aumento da informalidade, precarização dos vínculos e deterioração das condições de emprego. A flexibilização não resultou em dinamismo econômico consistente, mas em aumento da desigualdade e maior insegurança para milhões de trabalhadores.
Levantamento da Fundação Getulio Vargas aponta que a concentração de renda no Brasil bateu recorde entre 2017, quando a reforma trabalhista do governo Temer entrou em vigor, e 2022. A elite do País, o grupo do 1% mais rico, teve sua renda aumentada em 96%. Na outra ponta, o rendimento de 95% dos brasileiros cresceu apenas 33%. A desigualdade atingiu um recorde histórico após uma década de relativa estabilidade.
O pacote de maldades do governo Temer, levado a cabo pelo seu sucessor Jair Bolsonaro, ampliou as disparidades sociais, aumentou o desemprego e fez a economia patinar, com crescimento médio de 1,5% do PIB entre 2018 e 2022. Depois de anos de inanição, hoje o País retoma a trilha do crescimento e mostra que está no caminho certo. Por isso, não podemos retroceder e entregar o Brasil de novo àqueles que só deixaram os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.
Ao defender a revisão dessa reforma e se aproximar de agendas como a implementada na Argentina, o campo político liderado por Flávio Bolsonaro sinaliza não apenas a continuidade, mas o aprofundamento dessa lógica. Trata-se de um modelo que transfere para o trabalhador os custos da instabilidade econômica, reduzindo sua capacidade de negociação e fragilizando os instrumentos coletivos de proteção.
Enquanto Lula propõe redução de jornada, Flávio Bolsonaro insiste na precarização dos direitos trabalhistas
Essa orientação contrasta com a direção que vem sendo colocada em debate no Brasil. Ainda que em meio a disputas e limitações, o governo Lula tem sinalizado a intenção de preservar os direitos existentes e propor a sua ampliação. A proposta do fim da escala 6×1, com três projetos atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados e uma no Senado, é um exemplo claro dessa visão.
Colocar em debate a redução da jornada sem redução de salário não é apenas uma pauta histórica do movimento sindical. É uma resposta contemporânea às transformações do mundo do trabalho, marcadas por aumento de produtividade, digitalização e intensificação das atividades. Trata-se de repensar a relação entre tempo de trabalho, qualidade de vida e distribuição de riqueza.
Ao contrário do que sugerem as abordagens baseadas na retirada de direitos, experiências internacionais indicam que a melhora das condições de trabalho pode caminhar juntamente com ganhos de produtividade e dinamismo econômico. A valorização do trabalho não é obstáculo ao crescimento, e sim parte de sua sustentação.
Nesse cenário, modelos de reforma como a implantada por Milei vão na contramão das novas tendências do mundo do trabalho. Não se trata apenas de ajustes técnicos na legislação, mas de uma visão ultrapassada que aposta na redução de direitos como caminho para a competitividade. A contraposição é clara. De um lado, um modelo que trata o trabalho como variável de ajuste. De outro, um olhar que reconhece o trabalho como eixo central do desenvolvimento e busca ampliar direitos como forma de fortalecer a economia e reduzir desigualdades.
O exemplo dos hermanos sintetiza essa disputa. Se a Argentina de hoje passa a ser apresentada como modelo, cabe perguntar que tipo de futuro está sendo projetado para o trabalho no Brasil por setores conservadores da política e do empresariado. Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas o conteúdo de uma reforma, mas as condições concretas de piora da vida de milhões de trabalhadores, o que já se vê por lá. Seria irônico, não fosse trágico, ver um povo apaixonado por churrasco sendo obrigado a comer carne de burro, pois a bovina não cabe mais no bolso do povo argentino.
Naturalizar propostas que aprofundam a precarização significa abrir caminho para que esse mesmo processo se reproduza por aqui. E, nesse caso, a frase que dá título a este artigo deixa de ser apenas uma imagem provocativa para se tornar um alerta e advertência.
E, para que essa ameaça não se concretize, só há um caminho: a reeleição de Lula. Essa é a única garantia para que os trabalhadores do Brasil tenham seus direitos garantidos, com emprego, melhores salários e mais tempo livre com suas famílias. •
*Presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pré-candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Efeito Orloff’
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