Política

‘Eu sou um ex-bolsonarista’: a história do jovem que rompeu com Bolsonaro e hoje se entende como de esquerda

Apoiador de pautas progressistas como o fim da escala 6×1, Bruno Fonseca já encampou ataques contra universidades públicas como membro do MBL

‘Eu sou um ex-bolsonarista’: a história do jovem que rompeu com Bolsonaro e hoje se entende como de esquerda
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Créditos: Arquivo pessoal
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“Eu sou um ex-bolsonarista.” É com essa frase direta que Bruno Fonseca abre um vídeo publicado em 15 de abril, que já ultrapassou 1,5 milhão de visualizações nas redes sociais. Aos 20 anos, ele relata ter sido atraído ainda na pré-adolescência por conteúdos da extrema-direita, e descreve uma ruptura recente, motivada por experiências pessoais e pela educação universitária.

No vídeo, Bruno afirma que passou a ser rotulado como “esquerdista” ao defender pautas que considera básicas, como o combate ao feminicídio e melhores condições de trabalho. “Se defender o mínimo de dignidade é ser de esquerda, então eu sou de esquerda”, conclui.

A mudança do jovem – que se reconhecia como ‘bolsonarista raiz’ em um passado recente – não foi abrupta, mas resultado de um processo que se intensificou nos últimos meses.

‘Cooptado pela extrema-direita’

Bruno diz ter iniciado sua trajetória política aos 12 anos, em 2018, consumindo e reproduzindo conteúdos no YouTube sem questionamento crítico.

Entre as influências, cita figuras como Arthur do Val e Kim Kataguiri, ligados ao Movimento Brasil Livre.

Ele próprio se integrou ao movimento e permaneceu até 2022, quando o grupo rompeu com Jair Bolsonaro. Ainda assim, continuou orbitando o campo bolsonarista e chegou a se filiar ao Partido Liberal, onde atuou como coordenador da ala jovem.

Nesse período, afirma ter se identificado com lideranças como Nikolas Ferreira, cuja comunicação nas redes sociais alcança eleitores mais jovens.

Cristão, Bruno avalia que o discurso moral e religioso teve papel central em sua aproximação com a extrema-direita. Segundo ele, há uma construção narrativa que associa pertencimento político a valores morais absolutos.

“O bolsonarismo se vende como guardião da moral. Se você não está com eles, você está contra o país, contra Deus”, afirma.

Ele critica o que considera uma contradição entre esse discurso e a atuação política concreta, que, em sua visão, se apoia mais em disputas simbólicas do que em propostas estruturais.

A universidade como ponto de virada

A inflexão, segundo Bruno, começou em 2025, ao ingressar no curso de Direito. O contato com colegas de origens diversas — estudantes beneficiários de programas sociais, jovens em situação de vulnerabilidade — teria ampliado sua percepção sobre desigualdade.

“Eu comecei a ver realidades que antes eu julgava sem conhecer”, diz. “E percebi que muitas críticas vinham justamente de pessoas que se diziam cristãs.”

Para ele, a experiência revelou o que chama de “simplificação” típica do discurso da extrema-direita: soluções rápidas para problemas complexos, como a situação de pessoas em situação de rua.

A decisão de romper com o bolsonarismo foi formalizada em outubro de 2025, quando se desfiliou do PL. Um dos episódios que catalisaram a ruptura foi a atuação da vereadora Zoe Martinez em uma comissão parlamentar na Câmara de São Paulo, que ele classificou como “sensacionalista”.

Outro momento decisivo ocorreu ao comentar casos de feminicídio nas redes sociais. A reação de parte de seus seguidores — incluindo mensagens que justificavam a violência — foi, segundo ele, determinante.

“Ali eu pensei: que tipo de gente é essa que me segue?”, relata. A mudança de posicionamento lhe custou seguidores e relações pessoais, mas Bruno afirma estar “em paz” com a decisão.

Ano eleitoral e disputa polarizada

Sobre o cenário político, Bruno avalia que o país seguirá marcado por uma disputa entre projetos antagônicos. Ele critica duramente o bolsonarismo, que associa a uma agenda de radicalização, e menciona o senador Flávio Bolsonaro como um possível herdeiro político desse campo.

Embora também declare ressalvas ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, considera que divergências econômicas são menos graves do que, em suas palavras, uma política baseada no ódio.

“Na dúvida, pergunte-se: quem representa o ódio às mulheres, às pessoas pretas, quem pauta anistia aos que cometeram crimes nesse País”, questionou. “O ódio ao Lula, imposto pela extrema-direita, cega as pessoas para questões basilares, e esse é novamente um risco posto nessas eleições”.

Pela atuação, Bruno se diz preparado para combater a extrema-direita, e estar disposto a repassar seus ensinamentos à frente – ainda que negue, por ora, interesses eleitorais.

“A minha missão hoje é fazer com que mais pessoas questionem e possam sair disso”, diz.

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