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Lulistas vs. bolsonaristas

Observatório das Eleições aponta tendência de nacionalização das disputas nos estados mais populosos da região

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Lances. No Ceará, André Fernandes e Flávio Bolsonaro articulam insólita aliança com Ciro Gomes. Em Pernambuco, Lula é disputado por João Campos e Raquel Lyra – Imagem: Mauro Pimentel/AFP, Ricardo Stuckert/PR e Beto Barata/Partido Liberal
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Eleições 2026

Nos últimos 20 anos, o Nordeste tem sido decisivo no resultado das eleições presidenciais, e a tendência é que o fenômeno se repita no pleito deste ano. Segundo maior colégio eleitoral do País, com quase 43 milhões de eleitores, a região segue predominantemente alinhada ao campo progressista, o que tende a favorecer Lula na formação dos palanques estaduais. No entanto, o avanço de candidaturas de direita ou extrema-direita turva esse cenário. Seja como for, há uma clara tendência de nacionalização das disputas nos estados nordestinos mais populosos, segundo nota técnica do Observatório das Eleições, divulgada em primeira mão por CartaCapital.

De acordo com a publicação, o fenômeno manifesta-se de forma mais intensa em Pernambuco, Ceará, Bahia e Piauí, que concentram dois terços dos eleitores nordestinos; de maneira moderada na Paraíba, Sergipe, Alagoas e Maranhão; e de forma mais leve no Rio Grande do Norte, ainda que a governadora petista Fátima Bezerra se esforce para nacionalizar o debate, na tentativa de reduzir a avaliação negativa de sua gestão e viabilizar a candidatura de Cadu Xavier (PT), que até agora não decolou.

“É inegável a força que o PT adquiriu no Nordeste nas últimas décadas, mas o nacional só define o estadual quando o estadual ajuda, o que não é o caso da gestão Fátima Bezerra”, observa Alan Lacerda, cientista político e professor do Instituto de Políticas Públicas da UFRN, ao traçar um prognóstico que desafia o senso comum entre eleitores do Sudeste. “Lula deve vencer no Rio Grande do Norte por larga margem, mas o candidato do PT ao governo estadual tende a perder.”

O fenômeno é mais agudo em Pernambuco, Bahia, Ceará e Piauí, que concentram acima de dois terços do eleitorado nordestino

“Nacionalizar o debate para quem está no campo lulista é um ativo poderoso. Há duas décadas, o eleitorado nordestino apresenta uma inclinação à centro-esquerda e é provável que isso volte a ocorrer agora. Se vai atingir o mesmo porcentual de outros momentos é uma questão a se discutir”, comenta o cientista político Marcos Paulo Campos, coordenador da pesquisa e professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Em 2022, Lula obteve 69,34% dos votos válidos na região e, agora, segundo a última rodada do Datafolha, divulgada no início de abril, o presidente conta com 60% das intenções de voto no Nordeste, oscilando para baixo, mas dentro da margem de erro em relação ao levantamento anterior, no qual aparecia com 63%.

A tendência é que a polarização nacional seja replicada principalmente na Bahia e no Ceará, onde a disputa acirrada entre lulistas e bolsonaristas deve levar a resultados apertados, independentemente do bloco vitorioso. Com uma chapa “puro-sangue” e tendo o governador Jerônimo Rodrigues disputando a reeleição ao lado de Jaques Wagner e Rui Costa como candidatos ao Senado, o palanque petista baiano enfrentará ACM Neto (União Brasil), que tem o bolsonarista João Roma como forte candidato ao Senado. No Ceará, o imbróglio gira em torno do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB)­, que ainda não bateu o martelo sobre se será candidato ao governo estadual ou se aceitará o convite do presidente de seu partido, Aécio Neves, para disputar a Presidência da República. De toda forma, Ciro já vem, há algum tempo, em esforço concentrado para derrotar o PT.

Embora tente descolar-se do bolsonarismo, há mais de um ano o tucano costura uma aliança com o principal representante da família Bolsonaro no estado, o deputado federal André Fernandes (PL). Comprometeu-se, inclusive, a ceder uma das vagas ao Senado ao deputado estadual Alcides Fernandes (PL), pai de André. “Ciro busca construir uma unidade na oposição. Em ciclos anteriores, os adversários do PT estavam fragmentados, sem liderança competitiva. Os petistas conservam força eleitoral, mas o embate será mais aguerrido caso seja confirmada a candidatura do ex-governador”, avalia a socióloga Monalisa Torres, professora da Uece. O governador Elmano de Freitas enfrenta dificuldades na tentativa de reeleição e aparece atrás nas pesquisas. Como alternativa, o PT cogita lançar Camilo Santana, ex-ministro da Educação e principal liderança política cearense.

Em Pernambuco e no Piauí, a nacionalização do debate deve predominar, mas com nuances bem específicas: os principais candidatos ao governo estadual disputam­ a presença de Lula no palanque. Enquanto no Piauí o governador petista Rafael Fonteles é franco favorito à reeleição ainda no primeiro turno, em Pernambuco o presidente transita entre os dois principais candidatos. Oficialmente, o PT declarou apoio a João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife e franco favorito nas pesquisas, mas a governadora Raquel Lyra (PSD), que disputa a reeleição, mantém boas relações com o governo federal e tenta associar sua imagem à de Lula, embora seu palanque reúna forças bolsonaristas. No Maranhão, Lula também conta com dois palanques: o de Orleans Brandão (MDB) e o de Eduardo Braide (PSD), o que deixa pouca margem para a extrema-direita.

“O Nordeste concentra a maioria dos governadores do PT e do PSB, os dois partidos que compõem a chapa de Lula e Alckmin. É também a região onde o Centrão sofre mais influência do petismo, como o PSD em Sergipe e em Pernambuco. Isso faz com que seja muito mais interessante para os bolsonaristas uma estratégia legislativa. A extrema-direita tem um teto baixo e, por isso mesmo, prefere assegurar manutenção e ampliação de cadeiras no Congresso Nacional”, explica Campos. “É como se a nacionalização se expressasse em campos diferentes: a nacionalização petista se dá na disputa pelo Executivo e a bolsonarista, na disputa pelo Senado.”

Em Sergipe, o governador e candidato à reeleição Fábio Mitidieri (PSD) declarou apoio a Lula e confirmou o senador Rogério Carvalho (PT) na sua chapa, que busca renovar o mandato. Em Alagoas­, a polarização tende a ocorrer de forma mais moderada, embora com vantagem para Lula e um cenário local ainda indefinido. Se, por um lado, haverá um palanque forte de Renan Filho (MDB), que disputará o governo, por outro, o bolsonarismo ficou em aberto depois que o ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, conhecido com JHC, trocou o PL pelo PSDB para disputar o Executivo estadual e tentar descolar-se da pecha de bolsonarista.

“Lula é favorito em Alagoas, principalmente fora de Maceió. Se houver qualquer tipo de polarização, ela se dará na disputa entre o eleitorado do interior e o da capital, com o detalhe de que o interior costuma definir a eleição no estado”, avalia a cientista política Luciana Santana, professora da Universidade Federal de Alagoas­ e integrante do Observatório das Eleições. Diante do favoritismo petista, sobrou para o deputado federal Alfredo Gaspar, recém-filiado ao PL e candidato ao Senado, defender Flávio Bolsonaro, enquanto o atual presidente da Câmara, Arthur Lira (PP), hesita em se assumir como um candidato de direita mais alinhado ao bolsonarismo – uma clara tentativa de atrair eleitores lulistas na disputa pelo Senado.

Na Paraíba, para garantir um palanque forte a Lula no estado, o PT apoia a reeleição de Lucas Ribeiro (PP) e fez acordo com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, em torno da candidatura ao Senado do pai do parlamentar e ex-prefeito de Patos, Nabor Wanderley (Republicanos). “O PT tem uma estratégia clara para o Nordeste, que é a de manter sua força em prol da candidatura presidencial, mesmo que, para isso, abra mão da cabeça de chapa em disputas estaduais ou faça acordos com partidos que não são necessariamente aliados no plano nacional”, diz Vitor Sandes, cientista político da Universidade Federal do Piauí. “O partido também tem atuado para ampliar seu capital político em estados importantes, como São Paulo, com palanques bastante competitivos, com Fernando Haddad para o governo e Simone Tebet e Marina Silva para o Senado, na tentativa de diminuir a diferença nesses locais e equilibrar a disputa com a extrema-direita.” •

Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Lulistas vs. bolsonaristas’

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