Paulo Gala

Professor de Economia da FGV-SP, foi economista, gestor de fundos e CEO em instituições do mercado financeiro. É autor, entre outros, de Brasil, uma Economia que Não Aprende

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Os desequilíbrios da China

A economia do país volta a surpreender no primeiro trimestre, mas persistem dúvidas de médio prazo

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A economia chinesa voltou a surpreender no início de 2026, exibindo um vigor que, para muitos, parecia coisa do passado. O Produto Interno Bruto cresceu 5% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, com avanço de 1,3% na margem, o melhor resultado desde o fim de 2024. O desempenho foi impulsionado, sobretudo, pela indústria e pelas exportações, que continuam a funcionar como pilares de sustentação de um modelo de crescimento construído ao longo de décadas. Ainda assim, por trás dos números robustos, persistem fragilidades estruturais que colocam em dúvida a sustentabilidade desse dinamismo no médio prazo.

O modelo chinês de desenvolvimento econômico seguiu, com impressionante disciplina, a trajetória percorrida por Japão, Coreia do Sul e Taiwan no pós-Guerra. Baseou-se em câmbio competitivo, forte orientação para exportações de manufaturados e uma ativa intervenção estatal na alocação de recursos. A migração em massa de trabalhadores do campo para a indústria, combinada com políticas industriais agressivas e crédito direcionado, permitiu a rápida construção de capacidades produtivas e tecnológicas. O resultado foi um processo de transformação estrutural sem precedentes que elevou a China ao grupo das economias mais sofisticadas do mundo e a consolidou como a segunda maior.

O modelo começou, no entanto, a mostrar sinais de esgotamento após a crise financeira internacional de 2008. Desde então, Pequim passou a recorrer de forma mais intensa a estímulos monetários e creditícios para sustentar a atividade econômica. O investimento agregado tornou-se o principal motor da demanda, atingindo níveis próximos a 50% do PIB, patamar excepcional em comparação ao internacional. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias permaneceu relativamente baixo, menos de 40% do produto, refletindo uma combinação de alta poupança e limitada expansão da renda disponível.

Os dados mais recentes reforçam essa assimetria. A produção industrial avançou 5,7% em março deste ano, com destaque para setores de alta tecnologia, como robótica e semicondutores, que cresceram a taxas superiores a 20%. As exportações também tiveram desempenho expressivo, com alta de 15% no trimestre, em parte antecipando possíveis restrições comerciais externas. Em contraste, o consumo doméstico segue enfraquecido: as vendas no varejo cresceram apenas 1,7% em março, enquanto o consumo per capita avançou modestos 2,6% em termos reais.

O investimento, embora ainda elevado, apresenta sinais de perda de fôlego. A inversão em ativos fixos cresceu 1,7% no primeiro trimestre, enquanto o setor imobiliário, tradicional motor da economia chinesa, registrou contração de 11,2%. Mais preocupante é a retração do investimento privado, que caiu pela primeira vez fora do contexto da pandemia, indicando cautela crescente por parte das empresas diante de um ambiente de incerteza e retornos decrescentes.

No mercado de trabalho, os sinais também são menos favoráveis. A taxa de ­desemprego urbano atingiu 5,4% em março, o maior nível em um ano. Ao mesmo tempo, a economia continua convivendo com pressões deflacionárias persistentes. O deflator do PIB recuou novamente, evidenciando um desequilíbrio entre oferta robusta e demanda interna insuficiente.

Esse conjunto de fatores sugere que o atual padrão de crescimento chinês enfrenta limites. Nenhuma economia sustenta indefinidamente taxas elevadas de investimento sem enfrentar problemas de sobrecapacidade e queda de produtividade marginal. A experiência internacional é ilustrativa: o milagre japonês perdeu força após o colapso dos ativos nos anos 1990, enquanto os países do Sudeste Asiático enfrentaram crises profundas no fim da década de 1990. A China, ao prolongar o ciclo de expansão via crédito e investimento, parece adiar um ajuste.

A transição para um modelo mais equilibrado, com maior peso do consumo e menor dependência de investimento, é, portanto, o principal desafio da economia chinesa. Uma “economia normal”, nos termos convencionais, é aquela em que o consumo representa entre 60% e 70% do PIB, enquanto o investimento se mantém abaixo de 30%. A China ainda está distante desse padrão. O elevado nível de poupança das famílias limita a expansão do consumo e reforça a dependência de estímulos estatais.

No curto prazo, o desempenho recente pode reduzir a pressão por novas rodadas de estímulo em larga escala, especialmente diante de uma meta de crescimento mais modesta, entre 4,5% e 5%. A aparente estabilidade não elimina, porém, os desafios estruturais. A combinação de consumo fraco, investimento em desaceleração e pressões deflacionárias aponta para um crescimento mais desequilibrado.

A questão central não é mais se haverá ajuste, mas em que ritmo ele ocorrerá. E quais serão os custos para a economia global. •

Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Os desequilíbrios da China’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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