

Colunas
Círculo vicioso
Muitos assediadores não nutrem real desejo pelas vítimas, apenas buscam vingar-se de rejeições anteriores. O resultado desse comportamento é mais repulsa e desprezo
O assediador de mulheres é, antes de tudo, um loser. Peço desculpas aos leitores de CartaCapital pelo anglicismo. Utilizo a palavra em inglês porque ela “enche a boca” de quem a pronuncia, permitindo alongar a vogal “o” e produzir um efeito muito mais expressivo do que o termo em português, “perdedor”. Mas ele também me parece um ressentido.
Acredito que o assédio, sempre inconveniente, muitas vezes não é movido por uma atração real pela vítima, mas por uma espécie de ressentimento ou desejo de vingança em relação aos “foras” que recebeu de outras mulheres. O ressentimento, escreveu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844–1900), é uma espécie de “vingança adiada”. Daí que a tentativa do assediador de seduzir alguma mulher venha sempre temperada – bem mal temperada, aliás – por certa agressividade.
Incapaz de arriscar um papo tranquilo que desperte (ou não) o interesse da mulher, o assediador parece já chegar com a predisposição de humilhá-la por meio de gestos intimidatórios, como passar a mão em seu corpo ou “encoxar” – perdoem-me pelo termo grosseiro – a moça no transporte coletivo ou na fila de ingressos para o cinema. Qual é o resultado concreto dessas aproximações mal-educadas? Repulsa e desprezo! Ainda que consiga obter alguma excitação sexual com esse ato, está fadado a levar um fora ou a ser acusado publicamente de abusador, tornando-se alvo de insultos não apenas da vítima, mas também de outras pessoas que eventualmente estejam presentes. Como dizem os jovens: “Perdeu, playboy”.
Já narrei, em alguma das minhas colunas, um episódio que vivi ainda na adolescência. De pé no corredor de um ônibus lotado, um rapaz começou a se esfregar em mim. Eu vestia, orgulhosamente, um par de sapatos de salto alto. Era uma adolescente tímida, mas a repulsa que a bolinação provocou me encheu de coragem. Nem olhei para o assediador: dei meio passo para trás e finquei o salto no pé dele de propósito. Sabia que ele não poderia me agredir impunemente na frente de tantos passageiros. Foi divertido ouvir seu grito de dor. O cafajeste gemeu, não pelas razões que fantasiava, e sumiu para o fundo do veículo. Devo admitir: foi uma deliciosa vingança.
Vale acrescentar, com ênfase, que os assediadores de crianças estão em outra categoria: não são apenas inconvenientes, mas perversos. A perversão, para a psicanálise, equivale ao gozo que alguns sentem ao provocar dor, mal-estar ou danos a outra pessoa. Quando esse comportamento se dirige a quem não tem condições de reagir, torna-se ainda mais sórdido.
Recordo-me agora, com profundo pesar, do episódio de assédio que a ex-ministra da Igualdade Racial Anielle Franco denunciou há alguns meses, envolvendo o então ministro Silvio Almeida, dos Direitos Humanos. Ele foi exonerado do governo após denúncias de assédio feitas por Anielle e outras mulheres à ONG Me Too Brasil, que resultaram em investigação da Polícia Federal, com posterior denúncia por importunação sexual apresentada pela Procuradoria-Geral da República à Justiça. Triste ver um homem negro, certamente vítima do racismo estrutural que assola a sociedade brasileira, envolvido em um caso como esse, contra uma colega que também é negra.
Convém acrescentar que nem todo homem que se aproxima de uma mulher com o objetivo de conquistá-la é um assediador. Percebo certa intransigência defensiva por parte de jovens feministas, que reagem a qualquer abordagem masculina, mesmo a um galanteio elegante ou simples pedido de informação, de forma ríspida: “Não te autorizei a falar comigo”. Seria estranho imaginar um desconhecido pedindo “autorização” para iniciar uma conversa. E se ele desejar apenas saber a localização de uma rua?
Voltando ao cerne da discussão que proponho nesta coluna: será que o assediador realmente não consegue controlar a atração irresistível de importunar uma mulher? Talvez não – ou, pelo menos, nem sempre. É possível que se aproxime da moça movido pelo ressentimento, não pelo desejo sexual. Em muitos casos, parece haver mera vontade de se vingar de todas as mulheres que um dia o rejeitaram ou não o desejaram. Inaugura-se, então, um círculo vicioso: quanto mais o sujeito assedia, mais sofre rejeições e humilhações das quais tenta se recuperar… assediando outras mulheres. •
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Círculo vicioso’
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