CartaCapital
Calor extremo deixa rastro de perdas no setor agropecuário do Brasil, mostra relatório da ONU
Documento de 108 páginas trata o País como estudo de caso global dos impactos do calor para as lavouras, criações e trabalhadores rurais
Em uma única safra, o Brasil perdeu quase 15 milhões de toneladas de soja por causa do calor extremo. Porcos entraram em colapso fisiológico em praticamente todas as regiões do país. Trabalhadores rurais passaram meses em condições que organismos internacionais classificam como perigosas para o corpo humano, e uma frente fria bloqueada por uma cúpula de calor no Norte desencadeou as enchentes que mataram 183 pessoas no Rio Grande do Sul.
Esses não são eventos isolados: são faces do mesmo fenômeno, documentado em um relatório de 108 páginas publicado conjuntamente pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgado nesta semana. O documento dedica um capítulo inteiro ao Brasil, tratando o país como estudo de caso global dos chamados impactos compostos do calor extremo na agricultura.
Segundo a FAO, o que aconteceu entre 2023 e 2024 não foi azar climático, mas a nova normalidade, acelerada pelas mudanças do clima e amplificada por décadas de escolhas políticas.
Quase 10% da safra varridos
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) havia projetado, no início da temporada, uma safra recorde de 162 milhões de toneladas. Em maio de 2024, a estimativa havia sido cortada para 147,7 milhões, uma redução de quase 10% em relação à projeção inicial, atribuída em grande parte ao estresse térmico persistente sobre as lavouras.
No estado de São Paulo o impacto foi ainda mais severo. A queda na produção de soja foi estimada em mais de 20% e o milho de primeira safra recuou mais de 10% no mesmo período. Culturas como amendoim, batata, cana-de-açúcar e feijão enfrentaram surtos de pragas e doenças diretamente associados ao calor, entre elas a mosca-branca e o fungo Macrophomina phaseolina.
Nas fases reprodutiva e de enchimento de grãos, temperaturas acima de 30 °C provocam abortamento floral, queda de vagens e formação precária de grãos. Entre outubro de 2023 e maio de 2024, esse limiar foi ultrapassado em mais de 60% dos dias na maior parte das regiões produtoras do país, algo que historicamente só ocorria no Nordeste.
As perdas foram causadas principalmente pelo calor direto sobre as culturas, não pela falta generalizada de água, apontou o relatório, que teve participação dos pesquisadores brasileiros Orivaldo Brunini e Flavio Justino.
A seca agrícola, medida por sensoriamento remoto via satélite, ficou restrita a áreas do Leste do Brasil. Isso contraria a narrativa corrente, que tende a responsabilizar a estiagem, e aponta para um vetor de dano muito mais difícil de combater com irrigação.
Rebanhos que não conseguem suar
A pecuária também pagou um preço alto. Suínos, os animais de criação mais sensíveis ao calor por não conseguirem suar, ficaram sob estresse severo por 20 dias ou mais a cada mês ao longo de 2023 e 2024 nas regiões mais afetadas do Centro-Oeste.
O relatório descreve uma mudança de categoria que percorreu o país inteiro, condições classificadas como estresse leve passaram a moderadas ou severas, as moderadas tornaram-se severas. O efeito vai além do imediato, períodos prolongados de exposição ao calor extremo causam danos fisiológicos que persistem por toda a vida do animal e comprometem a prole, uma perda econômica irreversível que não aparece nas estatísticas de safra, mas corrói silenciosamente a base produtiva.
No gado leiteiro, a queda na produção não se recupera após a normalização das temperaturas. Diferente de outras perdas agrícolas, essa é permanente.

Uma Itália em chamas
A onda de calor de 2024 também empurrou o Índice de Perigo de Fogo a níveis sem precedentes. No Centro-Oeste, o percentual de dias no ano com risco elevado de incêndio aumentou até 40 pontos percentuais em relação à média histórica, o equivalente a 150 dias a mais de perigo por ano.
Os incêndios que se seguiram devastaram uma área equivalente ao território da Itália e lançaram sobre as cidades uma névoa de micropartículas com diâmetro inferior a 2,5 micrômetros, as mais perigosas para o sistema respiratório. Os dados do INPE mostram que 2024 registrou o maior número de focos e a maior área queimada desde 2010.
O relatório cita ainda estudos de atribuição climática: os incêndios no Pantanal em junho de 2024 teriam sido 10.000% menos frequentes sem as mudanças climáticas provocadas pela ação humana.
O Sul foi a síntese do paradoxo
O argumento mais pesado do capítulo brasileiro é reservado para o Rio Grande do Sul. Em abril e maio de 2024, uma frente fria foi bloqueada pela cúpula de calor que se estendia pelo Centro-Norte do país. Sem conseguir avançar, o sistema descarregou sobre o Sul uma quantidade de chuva que ultrapassou 500 milímetros em muitas regiões, com municípios registrando mais de 700 milímetros em duas semanas.
O estado que responde por mais de 70% da produção nacional de arroz viu sua produtividade recuar 3,6% em relação à safra anterior. As enchentes destruíram até 2 milhões de toneladas de soja que aguardavam colheita nos campos. As perdas agrícolas totalizaram 1,2 bilhão de reais. Cento e oitenta e três pessoas morreram. Mais de 600 mil foram deslocadas de suas casas.
A cadeia do camarão-rosa também foi atingida: 30% da produção nacional vem da Lagoa dos Patos, cujas estruturas de pesca foram destruídas pelas inundações.
A ciência de atribuição é precisa. As mudanças climáticas aumentaram em mais de 100% a probabilidade de eventos de chuva intensa no Sul do Brasil. A probabilidade da seca meteorológica que varreu o país no segundo semestre de 2023 aumentou 1.000%.
Os invisíveis do calor extremo
Enquanto o debate público se concentra nas toneladas perdidas e nos preços das commodities, o relatório FAO-OMM chama atenção para uma dimensão que raramente aparece nas manchetes: os trabalhadores rurais.
O índice WBGT, sigla em inglês para Temperatura de Bulbo Úmido com Globo, combina temperatura, umidade, vento e radiação solar para medir o calor que o corpo humano efetivamente enfrenta, levando em conta não o termômetro, mas a capacidade real do organismo de se resfriar. Ultrapassado o limiar de 26°C nesse índice, o trabalho físico intenso ao ar livre representa risco concreto de exaustão térmica. Em grande parcela dos dias no Norte, Nordeste e Centro-Oeste em 2023 e 2024, esse limiar foi superado. Em 2024, Norte e Centro-Oeste quebraram o recorde histórico de dias nessas condições, no período de 45 anos coberto pela análise.
São os trabalhadores mais precarizados do país, os que menos têm proteção trabalhista contra o calor, os que sustentam fisicamente a produção do agronegócio, e os que pagam o preço com o próprio corpo.
O paradoxo político
O relatório não economizou nas conclusões. Uma análise de risco focada em uma única cultura respondendo a um único evento climático subestima sistematicamente os desafios reais, advertem os autores. O calor extremo é um risco que atravessa cadeias inteiras, e o Brasil de 2023 e 2024 demonstrou, em escala real, o que isso significa.
O paradoxo político está à vista, ainda que o documento não o nomeie diretamente. O setor que mais concentra poder para bloquear políticas climáticas no Congresso Nacional é o que mais está sendo destruído pelo clima que se recusa a regular. As perdas documentadas pela FAO e pela OMM não são projeções para o final do século. São o balanço de uma safra que já passou.
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