Tecnologia
O que diz o manifesto da Palantir, que promove ‘armas de IA’
Nos EUA, empresa cujo software é usado em sistemas de vigilância e análise acumula contratos com o Pentágono e o ICE. Documento prevê nova era de dissuasão baseada em IA, que críticos apontam ser ‘tecnofascista’
“O Vale do Silício se perdeu.” Assim começa o primeiro capítulo de The Technological Republic (A República Tecnológica), livro em que Alex Karp expõe sua visão de mundo. O autor não é um personagem qualquer: ele é CEO da Palantir Technologies, empresa de software especializada em análise de dados que acumula contratos, por exemplo, com o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) e com o Pentágono.
No último fim de semana, a Palantir publicou em sua no X um resumo do livro de Karp em 22 teses. O texto, com tom de manifesto político, provocou ampla repercussão entre entusiastas de tecnologia e analistas de política.
Isso porque os contratos e o escopo da Palantir não são irrelevantes, nem suas aspirações. A empresa promove um software capaz de reunir e analisar grandes quantidades de dados, como de vigilância. Ela pode reunir, por exemplo, imagens de câmeras, dados públicos, redes sociais, fichas policiais, drones, reunindo informações dispersas sobre cidadãos e fazendo previsões. Seus investidores possuem diversas ligações com o governo de americano.
O manifesto da empresa propõe, agora, que uma nova era de dissuasão militar com base em inteligência artificial está começando. Para Karp, é neste tipo de ação que o Vale do Silício deveria se debruçar.
No texto, a Palantir se apresenta como um ator determinado na interseção entre tecnologia e política de segurança. Em linhas gerais, o documento se organiza em alguns eixos centrais.
Geopolítica e política de segurança
“A era nuclear está chegando ao fim”, afirma o texto. A dissuasão, segundo o manifesto, deixaria de se apoiar em armas nucleares e passaria a depender de sistemas de inteligência artificial. Em tom ainda mais direto, sustenta: “A questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com qual propósito”. Os adversários, diz a empresa, não se deteriam em debates retóricos, mas avançariam de forma pragmática.
Em outro trecho, a Palantir defende instrumentos de poder “duros”, sustentados por software. “Os limites do soft power e da retórica grandiloquente foram expostos”, afirma. O manifesto também atribui ao poder americano a responsabilidade por um período prolongado de paz.
Em passagens mais específicas, o texto sustenta que “a neutralização do pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser revertida”. A Europa, ainda mal armada, pagaria hoje o preço do desarmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial, defende. E, se persistir a “devoção altamente teatral ao pacifismo japonês”, uma mudança no equilíbrio de poder na Ásia seria inevitável.
Relação entre sociedade e política
A Palantir afirma que o debate público atual trata como tabu a discussão sobre trajetórias distintas de sucesso entre diferentes “culturas”. O texto também sustenta que os Estados Unidos devem resistir à tentação de um “pluralismo vazio e oco”. Ambos os pontos dialogam com a ideologia Maga (Make America Great Again), associada ao presidente americano, Donald Trump.
A empresa, porém, evita o tom mobilizador adotado por setores do Vale do Silício. “A psicologização da política moderna nos desvia do caminho”, afirma. Buscar realização em líderes políticos, segundo o manifesto, leva à frustração. Em outro ponto, a Palantir defende reflexão sobre a vitória sobre os inimigos, em vez de celebrações imediatas.
O papel da indústria de tecnologia
A relação entre empresas de tecnologia e o governo dos EUA aparece como tema recorrente. “O Vale do Silício tem uma dívida moral com o país que possibilitou sua ascensão”, diz uma das teses centrais. A Palantir defende ir além da lógica de aplicativos para celular e apostar em uma economia tecnológica capaz de sustentar crescimento e segurança. “O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate ao crime violento”, afirma a empresa, que fornece seus produtos a forças de segurança em diversos países.
O que dizem os críticos?
O economista e ex-ministro das Finanças da Grécia Yanis Varoufakis compartilhou a publicação original com o comentário: “Se o mal pudesse tuitar, este seria o conteúdo”.
O cientista político holandês Cas Mudde, pesquisador do populismo, interpretou o manifesto como um chamado a um mundo dominado por um Estados Unidos autoritário, sustentado por empresas de vigilância tecnológica — “puro tecnofascismo”. Para ele, o texto desqualifica a Palantir “como parceira comercial de qualquer outro país”. Em postagem no LinkedIn, defendeu que a Europa não apenas interrompa novas cooperações, mas encerre todos os investimentos “nesta empresa tecnofascista”.
Já o britânico Eliot Higgins, fundador da plataforma investigativa Bellingcat, comentou com ironia o debate sobre cultura e pluralismo, afirmando ser “extremamente normal e aceitável” que empresas publiquem declarações desse tipo.
O que é a Palantir?
O nome Palantir vem da obra O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Na saga, as palantíri são “pedras videntes”, poderosos instrumentos de comunicação usados por forças que buscam subjugar os povos livres da Terra-média.
O cofundador e principal investidor da empresa é Peter Thiel, cujo apoio é considerado decisivo para a ascensão política de Trump. Thiel nasceu em Frankfurt, na Alemanha, onde Alex Karp também viveu por vários anos.
Em seu site, a Palantir apresenta softwares voltados a apoiar decisões em tempo real em governos e empresas — “das fábricas à linha de frente”.
Grande parte de sua atuação nos EUA está ligada ao monitoramento e vigilância. Críticos questionam contratos da empresa com outros países, uma vez que seus fundadores já defenderam o uso da IA também para atingir “supremacia militar” americana.
Quem usa o software de vigilância?
Diversas agências governamentais dos EUA utilizam produtos da Palantir. O programa Vantage, por exemplo, foi desenvolvido como sistema operacional do Exército americano. Na guerra contra o Irã, o software de aquisição de alvos com IA Maven forneceu dados usados em ataques aéreos.
Já a plataforma de análise de dados Foundry é empregada por autoridades nos EUA e na Europa para diferentes finalidades. Holanda e Grécia, por exemplo, recorreram ao sistema para rastrear a disseminação do coronavírus.
A aplicação mais conhecida da empresa talvez seja o Gotham, usado por agências de segurança para reunir rapidamente informações sobre indivíduos a partir de fontes públicas e privadas. Entre os clientes estão a CIA, o ICE e órgãos de segurança europeus. O sistema americano utiliza o software para encontrar imigrantes que estariam irregulares no país.
Polícias estaduais alemãs também utilizam versões adaptadas dos softwares da Palantir, como nos estados de Hesse e Baviera. Na Renânia do Norte-Vestfália, um contrato de vários anos expira em outubro, e o governo estadual abriu nova licitação para softwares investigativos, da qual a Palantir e concorrentes podem participar.
No âmbito federal, o governo alemão planeja uma legislação que permitiria a análise automatizada de grandes volumes de conteúdos públicos, como vozes e rostos em redes sociais, para a criação de perfis biométricos. A medida facilitaria investigações conduzidas por agências de segurança com softwares da Palantir ou similares. Críticos, porém, veem na proposta um passo em direção a um Estado de vigilância.
No Brasil, a Palantir possui CNPJ ativo desde 2014. O Portal da Transparência do governo federal não indica contratos públicos com a empresa. Contudo, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação apresentou em 2024 um “case de sucesso que modernizou a transferência de recursos públicos da autarquia para os entes federados”.
Na ocasião, o então diretor-executivo da Palantir, Thiago Fetter, o FNDE disse que a Palantir estava “feliz em modernizar a administração pública federal”. O gerente de Soluções do Serpro, Eduardo Cardim, disse que o órgão foi “um grande viabilizador” para o FNDE acessar as ferramentas da Palantir.
Em setembro do ano passado, parlamentares da Comissão Especial sobre Inteligência Artificial da Câmara dos Deputados chegaram a se reunir com representantes da Palantir nos EUA, segundo a agência Aos Fatos.
Neste mês, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) emitiu dois requerimentos oficiais de informação aos ministérios da Educação e Gestão para esclarecer quais órgãos públicos de fato utilizam a ferramenta. Os pedidos não foram respondidos até o momento.
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