ToqueTec

A IA desvenda a violência contra as mulheres

A Inteligência Artificial começa a ser utilizada como arma contra a violência contra a mulher. E desvenda os casos de agressões observando os prontuários médicos no SUS

A IA desvenda a violência contra as mulheres
A IA desvenda a violência contra as mulheres
Apoie Siga-nos no

Uma nova geração de ferramentas de inteligência artificial começou a entrar na rotina do SUS com um objetivo claro: proteger mulheres em situação de violência antes que o pior aconteça. No Recife, um sistema batizado de ClarIA passou a analisar os prontuários eletrônicos de pacientes para identificar sinais de violência doméstica que não aparecem de forma explícita nas consultas. Não se trata de “denunciar por máquina”, mas de criar uma rede de proteção mais atenta, que não dependa apenas da coragem e do risco de uma mulher vítima de agressão falar tudo em um atendimento.

Como a IA enxerga o que o prontuário revela (e o que ele esconde)

O funcionamento é simples para quem está na ponta e sofisticado por trás da tela. Médicos, enfermeiros e outros profissionais seguem atendendo normalmente e registrando, no prontuário eletrônico, queixas, histórico, exames físicos, diagnósticos e orientações. A diferença é que, enquanto o texto é digitado, a IA faz uma leitura em tempo real, usando técnicas de processamento de linguagem natural para procurar padrões associados a violência doméstica.

Leia também:

O sistema foi treinado a partir de milhares de casos em que havia confirmação de violência (por exemplo, via notificações oficiais). A partir desses dados, o modelo aprendeu a reconhecer assinaturas típicas: combinação de lesões (hematomas, fraturas, cortes em áreas sensíveis), explicações repetidas e pouco plausíveis para acidentes, histórico de atendimentos frequentes por dores crônicas, crises de ansiedade, depressão, tentativas de auto agressão, entre outros. Também cruza esse quadro com o histórico da paciente na rede, identificando repetições que, isoladamente, poderiam parecer apenas mais uma consulta.

Quando identifica um padrão preocupante, a IA não toma nenhuma decisão por conta própria. Ela gera um alerta visual no prontuário. Surge um “sinal amarelo” ou “vermelho” indicando possível situação de violência. A partir daí, o protagonismo volta totalmente para a equipe de saúde. O alerta serve para que o profissional aprofunde a escuta, faça perguntas abertas sobre o contexto familiar, explique de forma cuidadosa quais são os serviços de apoio disponíveis e avalie encaminhamentos para a rede de proteção (centros de referência, assistência social, delegacias especializadas, defensorias).

Direitos das mulheres e dever do Estado

Do ponto de vista dos direitos das mulheres, essa tecnologia materializa algo que a legislação brasileira já afirma há anos: violência doméstica é também um problema de saúde pública, e não apenas assunto de polícia. A Lei Maria da Penha e políticas nacionais de enfrentamento à violência contra a mulher estabelecem que o atendimento deve ser integral, envolvendo saúde, assistência social, segurança e justiça. A IA entra como ferramenta para que o SUS cumpra melhor essa parte do pacto.

Muitas vítimas nunca chegam a uma delegacia, mas passam mais de uma vez pelo posto de saúde, pelo pronto atendimento, pelo consultório odontológico. Sem uma política ativa, esses atendimentos seguem como se a violência não existisse, tratando só a fratura, a dor, a insônia. Ao acoplar um sistema que alerte quando enxerga sinais de agressão, o poder público assume que tem responsabilidade de reconhecer a violência onde ela se manifesta, ainda que de forma indireta.

Os primeiros resultados em Recife apontam nessa direção: aumentou o número de casos suspeitos identificados e de notificações formais. Profissionais relatam que, com o alerta, se sentem mais legitimados a tocar no tema e a oferecer ajuda. Mulheres que nunca tinham denunciado as agressões passaram a falar sobre o que enfrentam em casa. Isso fortalece o direito à informação, ao acolhimento e ao acesso à rede de serviços – pilares básicos para que qualquer mulher possa romper ciclos de violência.

Limites, riscos e a construção de política pública responsável

Ao mesmo tempo, o uso de IA nesse campo exige cautela. O sistema trabalha com probabilidades e pode errar: há risco de falsos positivos (suspeitar de violência onde não existe) e falsos negativos (não sinalizar um caso grave). Por isso, é crucial que o alerta seja sempre ponto de partida para uma abordagem humana, sensível e não acusatória, jamais motivo para confrontar a paciente ou “forçar” um relato.

Há ainda desafios de privacidade e proteção de dados: prontuários de saúde são extremamente sensíveis, e qualquer projeto desse tipo precisa respeitar a LGPD, limitar acesso às informações, garantir transparência sobre como os dados são usados e impedir que a IA seja reaproveitada de forma indevida em contextos punitivos ou discriminatórios.

Como política pública, a experiência de Recife também mostra que tecnologia sozinha não basta. Ela veio acompanhada de capacitação de equipes, revisão de fluxos de encaminhamento e articulação com a rede de enfrentamento à violência contra a mulher. Sem esse ecossistema, o alerta correria o risco de virar só mais um ícone na tela.

Ainda assim, o movimento é significativo: ao levar IA para dentro da rotina do SUS com foco explícito em violência de gênero, o Estado brasileiro dá um passo concreto para transformar princípios de direitos humanos em prática diária. Não é a máquina que protege as mulheres – são as políticas, as equipes e os serviços que se reorganizam a partir do que a máquina ajuda a enxergar.

Este conteúdo foi criado com auxílio de inteligência artificial e supervisionado por um jornalista do ToqueTec

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo