

Colunas
A indústria do fracasso
Em vez de vender o sonho individual de vencer na vida por meio do próprio negócio, é preciso discutir as condições coletivas que permitam que empreender seja escolha, não empurrão
Vivemos uma era em que “empreender” virou mandamento moral, desejo de ascensão e, muitas vezes, única saída aparente para quem foi expulso ou nunca chegou a entrar no mercado de trabalho formal. O empreendedorismo se transformou em narrativa hegemônica: seja dono do próprio negócio, seja protagonista da sua história, crie seu futuro.
Por trás desse discurso sedutor, porém, está se consolidando algo que poderíamos chamar de indústria do fracasso.
Os números mostram outro lado dessa história. De acordo com a pesquisa Demografia das Empresas e Estatísticas de Empreendedorismo 2022, do IBGE, cerca de seis em cada dez empresas que nascem no Brasil não conseguem sobreviver após cinco anos. O estudo acompanhou as empresas criadas em 2017 e constatou que apenas 37,9% ainda estavam ativas em 2022, ou seja, mais de 60% fecharam nesse intervalo. A taxa de sobrevivência cai ano a ano: cerca de 76,2% após um ano, 59,6% após dois, 49,4% após três e 42,3% após quatro anos, até chegar aos 37,9% no quinto ano. Em termos práticos, é como se, para cada grupo de empresas que entra no jogo, a maioria já estivesse saindo pela porta dos fundos em menos de cinco anos.
Essa mortalidade vem acompanhada de um quadro pesado de endividamento. Em 2024, o Brasil encerrou o ano com 6,9 milhões de empresas inadimplentes, das quais 6,5 milhões eram micro e pequenas, acumulando mais de 130 bilhões de reais em dívidas vencidas. Ou seja, boa parte dos negócios que sobrevivem o suficiente para ficar de pé o fazem com um peso de passivo que corrói margens e empurra o dono para um ciclo permanente de renegociação. Mesmo com alguma melhora pontual, pesquisas mostram que cerca de um quarto dos pequenos negócios permanece inadimplente, incluindo MEIs. Não é um universo de empreendedores “livres”; é um exército de CNPJs respirando por aparelhos.
Há um ponto que raramente é dito com todas as letras: para empreender, não basta força de vontade. É preciso estrutura. Isso envolve, no mínimo, quatro camadas.
Primeiro, infraestrutura de Estado: segurança jurídica, serviços básicos, transporte, energia, internet, cidade minimamente funcional.
Segundo, legislação simples e inteligível: abrir, operar e fechar uma empresa deveria ser um processo claro e rápido, não uma via crucis burocrática.
Terceiro, acesso real a crédito: não crédito caríssimo que empurra para o calote, mas linhas minimamente razoáveis, com prazos compatíveis com a realidade do negócio.
Quarto, educação para empreender: noção de fluxo de caixa, precificação, tributos, marketing, gestão de pessoas e leitura de mercado.
Empreender não é caminho para todos. Exige um ambiente favorável que não muda com a força de vontade. Crer que vai dar certo é conversa de coach. Quando o ambiente não oferece essas condições, o empreendedorismo vira uma engrenagem que produz culpa em massa. A pessoa é incentivada a abrir negócio sem capital, sem apoio, sem proteção social, num mercado saturado. Acorda às 5h da manhã, dorme à meia-noite, se desdobra em dez funções, acredita que basta “querer mais” que os outros. Quando não dá certo – e, estatisticamente, em muitos casos não vai dar, a mensagem que volta é: faltou esforço, faltou foco, faltou “mindset”. Não olharmos para juros altos, crédito seletivo, burocracia e concorrência desigual. Responsabilizamos o indivíduo.
Isso produz um efeito colateral grave: uma massa deslocada do trabalho formal. Muitos deixam empregos com carteira assinada ou profissões que exigem atualização constante para tentar empreender. No período em que lutam para manter o negócio vivo e pagar dívidas, deixam a reciclagem em sua área original. Quando a empresa quebra, não conseguem voltar para o mesmo patamar nem para o mesmo tipo de vaga. Ficam num limbo: sem empresa, sem profissão atualizada, com o nome – e o CNPJ – sujos. A promessa de liberdade se converte em vulnerabilidade numérica e concreta.
Empreender virou esperança, quase um mito de redenção. “Se eu trabalhar mais, se eu acreditar, se eu sacrificar lazer, família, sono, vai dar certo.” O discurso é reforçado por influenciadores, cursos, bancos e plataformas que mostram apenas histórias de sucesso. Não estamos falando desse empreendedor “premium”. Estamos falando de quem entra no sonho de empreender sem capital, acreditando que acordar às 5h e dormir à meia-noite será determinante. Infelizmente, não será.
Se quisermos levar o empreendedorismo a sério, precisamos mudar o eixo da conversa. Em vez de vender o sonho individual de vencer na vida por meio do próprio negócio, é preciso discutir as condições coletivas que permitam que empreender seja uma escolha, não um empurrão para o abismo. Isso inclui responsabilizar também quem incentiva indiscriminadamente, sem falar dos riscos, sem contextualizar, sem apoiar de fato. Bancos, plataformas, governos, escolas, influenciadores: todos participam do ecossistema que hoje alimenta a indústria do fracasso. Falar contra o empreendedorismo sem estrutura se tornou um terreno áspero. A questão é, se não falarmos sobre isso, alimentamos uma espiral de desastres pessoais em que os únicos beneficiários são os vendedores de ilusão.
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