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Galípolo apanha do lulismo

Aliados do governo cobram queda nos juros e criticam distância entre o presidente do Banco Central e o Planalto

Galípolo apanha do lulismo
Galípolo apanha do lulismo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Gabriel Galípolo era uma aposta de Lula e do PT para dar ao Banco Central uma condução menos alinhada aos interesses do mercado financeiro. Pouco mais de um ano depois, o diagnóstico no lulismo é outro. O presidente do BC virou alvo crescente de críticas. Sobretudo por causa dos juros elevados, mas não só.

A taxa de juros é uma das principais causas do endividamento recorde das famílias, critica o chefe da articulação política do Palácio do Planalto, José Guimarães. “O Banco Central perdeu a oportunidade de baixar a taxa de juros”, disse o ministro nesta quinta-feira 16, em um café da manhã com jornalistas.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), recebeu alguns jornalistas após o café e foi ainda mais duro. Relatou o que descreve como o humor atual de Luiz Inácio Lula da Silva: “Ele já manifesta indignação, em algumas conversas, com a atual política de juros”.

Quando Galípolo assumiu o comando do BC, em janeiro de 2025, a Selic estava em 12,5% ao ano. Seis meses depois, subiu a 15% — patamar mantido até março, quando foi reduzida para 14,75%. A próxima decisão está prevista para 29 de abril.

Segundo Uczai, o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, avaliava que o ciclo de queda poderia ter começado ainda em dezembro, diante de indicadores de inflação e câmbio considerados comportados. Mas Galípolo, argumenta, mantém pouca interlocução com a Fazenda, ao mesmo tempo em que se reúne com frequência com representantes da Faria Lima — símbolo do sistema financeiro. “O presidente Lula não pode demitir, dizer que se arrependeu e foi traído pelo Galípolo.”

Questionado por CartaCapital diretamente se Lula se arrependeu da indicação, o deputado respondeu: “Sim”.

Os maus sentimentos não são causados apenas pelo juro. “É lamentável que o Galípolo não tenha mostrado toda a bandalheira do Banco Central no caso Master (…) e que passe a mão na cabeça do Campos Neto”, completa Uczai.

Roberto Campos Neto foi o presidente anterior do BC. Ocupou o cargo de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024. Dias antes de sua chegada, a autoridade monetária negou permissão para o banco Master operar. Daniel Vorcaro havia comprado uma instituição à beira da liquidação, o Máxima, e queria entrar no ramo bancário.

Oito meses depois da proibição, o BC mudou de ideia e liberou o nascimento do Master. A gestão de Campos Neto tinha uma política de incentivar fintechs para haver concorrência com os grandes bancos. 

No ano anterior, Campos Neto havia renovado a permanência na Diretoria de Fiscalização do BC de um servidor do banco que ocupava o posto desde 2018. Era Paulo Sérgio Novaes de Souza, diretor até 2023. Souza estaria no bolso do Master, conforme a Polícia Federal. Seria informante e prestador de serviços de Vorcaro, fazia vista grossa às irregularidades dele. Em troca, ganharia propina.

O chefe do Departamento de Supervisão Bancária do BC, Belline Santana, seria outro subornado, de acordo com a PF. Após deixar a diretoria, Souza foi para a repartição de Santos, era seu adjunto. 

Por ordem do Supremo Tribunal Federal, Souza e Santana foram afastados do BC e estão com tornozeleira eletrônica.

O BC recusa-se a dar informações sobre o motivo de ter voltado atrás e permitido a abertura do Master em 2019. Há alguns dias, Galípolo foi à CPI do Crime Organizado e comentou que auditorias e sindicâncias do BC não identificaram nada contra Campos Neto no caso Master. 

Para Uczai, o chefe do BC “passa a mão na cabeça” do antecessor por ter se curvado ao mercado financeiro. Campos Neto é, desde o ano passado, um dos altos executivos do Nubank.

A bancada do PT na Câmara apresentou recentemente um projeto para ampliar de seis meses para dois anos a quarentena que um dirigente do BC deve cumprir antes de trabalhar no setor privado após deixar o governo. 

A mesma proposta altera a lei da autonomia do BC. O presidente do banco continuaria a ter mandato de quatro anos, mas seria indicado não mais depois do primeiro biênio de um governo e, sim, com três meses. 

Galípolo tem agido nos bastidores para ampliar a autonomia atual. Defende mudar a Constituição para que o BC tenha liberdade financeira e orçamentária. Com o voto do PT, garante Uczai, a proposta não passa.

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