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Não é (só) a economia
Ela importa na decisão de voto, mas não explica tudo
Passada a desincompatibilização dos ocupantes de cargos no Executivo que pretendem concorrer nas eleições, fica claro o quadro da disputa presidencial e nos estados. Salvo surpresas, as candidaturas ao Planalto estão postas: Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Cabo Daciolo (Mobiliza), Aldo Rebelo (DC) e Samara Martins (UP). Além da possível postulação de Romeu Zema (Novo), há o balão de ensaio da candidatura de Ciro Gomes (PSDB). É, porém, improvável que o cearense desista de uma candidatura forte na disputa pelo governo de seu estado para entrar num jogo embolado e com pouco espaço para crescimento de candidaturas alternativas a Lula e Flávio.
Se tendências importam quando há muita coisa pela frente e a campanha oficialmente não começou, os gráficos mostram um cenário desalentador para Lula. Desde dezembro, quando Jair Bolsonaro ungiu Flávio como substituto, são consistentemente declinantes e ascendentes, respectivamente, as curvas de intenção de voto do atual presidente e do filho 01. Entretanto, a experiência de eleições passadas mostra que a cerca de seis meses da disputa o quadro ainda é muito sujeito a mudanças e a propaganda eleitoral tem o condão de ajudar governos a recuperar popularidade. Portanto, é necessária cautela na análise, evitando vaticínios apressados e olhando com atenção para os dados, pois eles ajudam a explicar a atual conjuntura e sugerem o que devem ser as preocupações norteadoras das estratégias das campanhas.
Vejamos o que traz a última pesquisa Quaest.
Um primeiro dado notável é que apenas 9% dizem ser a economia o principal problema do País. Como então supor acriticamente que o mal-estar com o governo seja causado apenas por percepções econômicas negativas? Vejamos entre quais segmentos do eleitorado mais piorou a avaliação do governo e, consequentemente, a intenção de voto em Lula.
Hoje, a desaprovação é maior e crescente entre os mais jovens e os de meia-idade, ou seja, os economicamente ativos. Também aumentou significativamente entre aqueles de renda intermédia (de 2 a 5 salários mínimos), refletindo-se nas intenções eleitorais. Lula tem mais votos do que a soma dos candidatos de direita apenas entre os maiores de 60 anos e os mais pobres.
Ainda que Lula seja favorito entre os mais pobres, entre eles (além de entre os de renda intermédia) piorou, no entanto, a percepção sobre a economia de modo geral. Uma das possíveis causas dessa degradação é o aumento dos preços de alimentos, notado por todos os segmentos de renda. Além disso, os mais pobres se queixam de maior dificuldade para conseguir emprego.
Muitos analistas apontam o endividamento como causa da queda na avaliação do governo e nas intenções de voto em Lula. De fato, aumentaram aqueles que se dizem endividados. Tal incremento se deu, porém, entre os que dizem ter poucas dívidas, o que sugere ser o problema de magnitude moderada, podendo ser enfrentado com políticas focalizadas, como a liberação de recursos do FGTS, que, ressalve-se, aliviaria a vida apenas dos que estão na economia formal, mas não a dos demais. Nesse sentido, 70% apoiam programas de auxílio a famílias endividadas e o “Desenrola” é aprovado por 46% dos entrevistados, embora outros 45% nem sequer o conheçam.
O que parecia um trunfo eleitoral para Lula, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais, não sensibilizou o eleitorado. Dois terços não se veem como beneficiados, frustrando expectativas, pois em outubro de 2025 dois quintos acreditavam que seriam. Metade dos eleitores não percebeu ganho de renda advindo dessa política e só um terço a notou, mas de forma pouco significativa.
Outro sinal de alerta para Lula é a piora entre eleitores “independentes” (centristas), dentre os quais as candidaturas direitistas somadas o sobrepujam largamente no primeiro turno. Flávio Bolsonaro inverteu de posição com o presidente nesse eleitorado, subindo 10 pontos porcentuais (de 23% para 33%), com Lula perdendo 11 (de 37% para 26%). Nesse estrato, a rejeição a Lula é 7 pontos maior que a do senador (61% a 54%). Certamente para isso conta o aumento da percepção entre esses eleitores de que as notícias negativas para o governo aumentaram – claro que há o caso de Lulinha, mas o mais provável é que pesem as notícias negativas sobre atores associados pelo eleitor ao governo, como o STF. Não à toa, Lula começou ativamente a tentar desvincular-se das lambanças dos magistrados no caso Banco Master.
Claro que a economia importa na decisão do voto, mas os dados não são categóricos a respeito. É preciso levar outros aspectos em consideração para entender o cenário e, claro, traçar estratégias. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Não é (só) a economia’
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