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A utopia possível
Um hospital de Cingapura, parecido com um parque, retoma a concepção de Epicuro, segundo a qual o contato com a natureza age como remédio
E se um hospital fosse agente ativo da sua cura apenas por colocá-lo imerso na natureza? O contato com a natureza ajudando na recuperação dos enfermos é estudado há milênios. Há indícios dessa prática em pinturas rupestres de milhares de anos.
A cura pela água em templos construídos e integrados nesse universo natural era comum na Grécia antiga. O templo de Esculápio, no Peloponeso, construído por volta de 380 a.C., declarado patrimônio da Unesco, é um exemplo dessa prática. Ainda na Grécia Antiga, Epicuro (341–270 a.C.) propunha a cura da alma e do corpo, cujo objetivo era alcançar a ataraxia (tranquilidade, ausência de medos) e a aponia (ausência de dor física).
Na concepção de Epicuro, o contato com a natureza e o entendimento de seu funcionamento agem como um remédio (Phármakon) que nos ajuda a entender que somos parte de um todo muito maior que os nossos medos e crenças. Recentemente, esses conhecimentos milenares têm sido revisitados e colocados em prática.
Em Cingapura, no Hospital Khoo Teck Puat, a CPG Consultants, empresa local de arquitetura e planejamento urbano, em parceria com a RMJM, uma reconhecida firma britânica, estão reinventando o conceito de “hospital”, tendo como foco a saúde como um ecossistema vivo, integrando pacientes, profissionais de saúde e a comunidade local.
O ex-CEO Liak Teng Lit, um farmacêutico de formação, iniciou o projeto de transformação do hospital no ano 2000. O mote dessa transformação: o hospital deveria ser projetado de forma que “a pressão arterial de alguém diminua ao entrar no recinto hospitalar”.
O objetivo é ajudar os pacientes a esquecer a dor, mergulhando-os em um ambiente natural de cura e, paralelamente, criar um local revigorante, parecido com um parque, para os cuidadores e o público em geral. Concluído em 2010, o projeto inclui o plantio de árvores nativas e a distribuição de corredores em V para canalizar brisas refrescantes através da água e do verde.
Seu pátio, semelhante a uma floresta – cheio de jardins verticais em diversos níveis, e fontes de água por todos os lados – reduz o calor, fomenta a biodiversidade, atraindo borboletas e pássaros e criando um microclima agradável e autossustentável.
Sua arquitetura é regida pelos princípios da biofilia. O termo vem de estudos do psicanalista e filósofo alemão Erich Fromm (1900–1980) e foi, posteriormente, adotado como conceito pelo biólogo e ecologista Edward Osborne Wilson em seu livro Biofiliae. Para Wilson, todos os humanos, em virtude da herança filogenética, compartilham uma afinidade e uma codependência com o mundo natural.
Essa noção serviu para inspirar arquitetos a criar o “design biofílico”. Essa corrente de pensamento ganhou mais força na área da saúde com um estudo da década de 1980.
Nessa época, Roger Ulrich, professor de Arquitetura no Centro de Pesquisa em Edifícios para a Saúde da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, publicou um estudo comparando pacientes que haviam passado por cirurgia para a retirada da vesícula, metade dos quais ficou em um quarto com vista para árvores, enquanto a outra metade ficou em um quarto com vista para uma parede de tijolos.
Ele constatou que aqueles expostos à vista de árvores precisavam de menos analgesia e tinham um tempo de internação menor. Essa descoberta despertou inúmeros estudos subsequentes. Em um deles, pacientes internados relatavam que a visão da natureza cria pensamentos e emoções positivas que apoiam um “senso de força e bem-estar pessoal” durante a doença, criando um sentimento de libertação em situações clínicas em que a liberdade é restrita.
O paisagismo do hospital de Cingapura busca garantir que pacientes e funcionários convivam em um ambiente calmo e revigorante. É importante lembrar que profissionais de saúde vivem boa parte de suas vidas dentro de hospitais. Poder transformar esses momentos de trabalho cheio de responsabilidade e estresse em momentos de paz é maravilhoso.
E o projeto não para por aí. Os paisagistas criaram uma fazenda em um dos terraços, com árvores frutíferas, vegetais e ervas. Administrada por voluntários do bairro próximo, a fazenda também se tornou uma fonte de produtos orgânicos para a cozinha do hospital.
Além disso, desde 2010, a vegetação exuberante e o ambiente bucólico do hospital o tornaram um local popular para os jovens em busca de espaços públicos tranquilos em meio ao caos da cidade. •
Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A utopia possível’
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