ToqueTec

Equilíbrio virou produto (que você pode beber)

Em meio à hiperestimulação e à produtividade contínua, bebidas funcionais prometem modular foco, calma e presença, transformando estados mentais em novas categorias de consumo

Equilíbrio virou produto (que você pode beber)
Equilíbrio virou produto (que você pode beber)
Apoie Siga-nos no

Às 10h da manhã, antes da terceira reunião seguida por vídeo, a cabeça já oscila entre a necessidade de foco e o cansaço acumulado. No meio da tarde, a energia cai sem muito espaço real para pausa, enquanto notificações e demandas continuam se empilhando. À noite, o desafio muda de forma: relaxar sem comprometer o rendimento do dia seguinte vira mais uma tarefa na lista. Em cada um desses momentos, o cotidiano contemporâneo parece pedir ajustes finos do estado mental, quase como configurações operacionais.

Esse cenário ajuda a entender por que estados como concentração, calma e presença deixaram de ser só dimensões subjetivas ou clínicas e passaram a estruturar novas categorias de mercado. Em vez de perguntar apenas “como você está?”, cresce a lógica do “o que você está tomando?”, deslocando o autocuidado para o campo do consumo. A ascensão das bebidas funcionais, especialmente com adaptógenos e ingredientes associados ao bem-estar cognitivo, acompanha esse movimento. Mais do que hidratar ou dar energia, esses produtos se posicionam como ferramentas de modulação emocional.

Leia também:

Essa mudança não acontece isoladamente: ela faz parte de um contexto mais amplo de hiperestimulação e trabalho cognitivo contínuo. Em um ambiente em que pausas mais longas viram exceção, surgem soluções que prometem intervenções rápidas e integradas à rotina. Nesse cenário, o autocuidado deixa de ser necessariamente uma prática deliberada e demorada e passa a entrar no dia a dia quase sem ser percebido. A bebida, aqui, assume um papel simbólico e funcional, operando como uma espécie de interface entre corpo, mente e as exigências externas.

A economia do sistema nervoso

A transformação de estados mentais em categorias de consumo aponta para uma mudança mais profunda na forma como cansaço, ansiedade e sobrecarga são percebidos. Essas experiências deixam de ser apenas questões individuais ou clínicas e passam a ser vistas também como oportunidades de mercado. A busca por clareza mental, regulação emocional e presença se aproxima de uma lógica de performance subjetiva, em que o bem-estar se torna mensurável e, principalmente, otimizado. Nesse contexto, produtos que prometem ajustes finos do humor ganham espaço sem necessariamente recorrer à medicalização tradicional.

Essa dinâmica conversa diretamente com a cultura tecnológica e a ideia de produtividade contínua. Em ambientes de trabalho cada vez mais digitais e interconectados, a linha entre tempo produtivo e descanso fica mais difusa. A necessidade de manter níveis consistentes de desempenho cognitivo ao longo do dia impulsiona a demanda por soluções que operem em segundo plano. Em vez de interromper o fluxo com pausas longas, o consumo de microintervenções aparece como alternativa viável dentro dessa lógica.

A fundadora da Mushin, Marina Camargo, observa que esse movimento se intensificou especialmente após a pandemia. “Com certeza. Acho que isso veio muito no pós-pandemia. Todo mundo teve que olhar para a saúde mental”, afirma. Segundo ela, o período evidenciou a complexidade de lidar ao mesmo tempo com isolamento, medo e incerteza, ampliando o interesse por áreas como psiquiatria e neurociência. “Estamos passando por um crescimento exponencial dessas áreas porque ficou claro o quanto é importante estudar e cuidar da mente tanto quanto do corpo”, explica.

Ao mesmo tempo, essa economia do sistema nervoso revela uma tensão estrutural. Se, por um lado, há mais consciência sobre saúde mental, por outro, a resposta frequentemente se materializa em soluções consumíveis. A substituição da pausa real por intervenções rápidas mostra uma adaptação pragmática a um mundo que não desacelera. Nesse contexto, o equilíbrio deixa de ser apenas um processo interno e passa a ser algo que pode ser adquirido, testado e incorporado à rotina.

Créditos: Divulgação

Legenda: Marina Camargo, fundadora e CEO da Mushin

Uma resposta brasileira ao fenômeno

A trajetória da Mushin mostra como esse movimento global é reinterpretado no contexto brasileiro. A marca nasceu a partir do interesse de Marina Camargo pela saúde mental, antes mesmo de qualquer ambição empresarial. “Eu sou formada em Psicologia. Para mim, a saúde mental sempre foi o centro do bem-estar”, afirma. Segundo ela, o ponto de partida estava mais ligado à disseminação de conhecimento e à criação de conexões do que à construção de um negócio.

A empresa começou, inclusive, como uma plataforma educacional. Durante cerca de um ano, a Mushin produziu conteúdo sobre neurociência, psicologia e psicodélicos, formando uma comunidade digital. A virada para o produto físico aconteceu em 2023, quando a Anvisa liberou o uso do extrato de Agaricus blazei em formulações. “Foi aí que eu vi a oportunidade de transformar tudo aquilo em que eu acreditava em um produto físico”, explica Camargo. A escolha pelo café com cogumelos seguiu uma lógica de validação prévia, já que o formato já existia em mercados como o dos Estados Unidos.

A decisão de trabalhar com cogumelos também tem relação com a experiência internacional da fundadora. Durante sua formação na Califórnia, ela acompanhou o crescimento do interesse por esses organismos, especialmente a partir de 2016 e 2017, em paralelo ao chamado renascimento psicodélico. “Quando eu cheguei no Brasil, vi que era um mercado ainda virgem, inexplorado”, afirma. A percepção dessa lacuna foi um dos fatores que impulsionaram a criação da marca.

Além disso, Camargo aponta uma diferença entre marketing e qualidade como um dos desafios do mercado brasileiro. “Existe uma lacuna aqui no Brasil entre o marketing e, de fato, ter um produto de qualidade”, diz. Segundo ela, a Mushin optou por priorizar matérias-primas importadas e processos de extração mais rigorosos, mesmo com impacto no custo. A escolha reflete uma tentativa de alinhar discurso e produto em um segmento em que a diferenciação nem sempre é tão evidente.

O drink como microtecnologia cotidiana

Dentro da lógica da hiper produtividade, a bebida funcional se consolida como uma espécie de microtecnologia cotidiana. Não é só um produto alimentar, mas um dispositivo simbólico que marca transições ao longo do dia. O gesto de abrir uma lata ou preparar um café deixa de ser automático e passa a carregar a promessa de um ajuste mental específico. Essa ritualização transforma o consumo em um momento de reorganização interna, ainda que breve.

Marina Camargo reforça que, no caso da Mushin, a proposta nunca foi substituir diretamente bebidas tradicionais, mas criar um novo espaço na rotina. “Foi a criação de um novo ritual de consumo. A gente gosta de bater bastante nessa tecla do ritual, de ritualizar o seu dia a dia”, afirma. Segundo ela, inserir um novo elemento no cotidiano pode ter mais impacto do que simplesmente ocupar o lugar de hábitos já estabelecidos. “Se a gente entra como um café da manhã, que é uma coisa banal, acaba não tendo o impacto de trazer algo novo”, completa.

Créditos: Divulgação

Legenda: Além de café, a Mushin conta com outros produtos como Chai, Overnight Oats e barrinhas de proteína

Essa ideia de ritual conecta o produto a uma dimensão mais ampla de autocuidado. Em vez de depender só de práticas estruturadas, como terapia ou meditação, o consumidor passa a incorporar pequenos gestos ao longo do dia. A bebida, nesse sentido, opera entre categorias: não é exatamente um suplemento, um remédio ou um alimento convencional. É uma tecnologia ingerível, que atua tanto no plano fisiológico quanto no simbólico.

Ao mesmo tempo, há um esforço crescente das marcas para evitar promessas vagas ou excessivamente medicalizadas. “A gente foge de tudo que é promessa puramente ilusória de marketing. A gente traz ciência e comprovação”, explica Camargo. Ela destaca que a estratégia envolve separar os benefícios fisiológicos dos ingredientes dos aspectos emocionais ligados à marca. Essa divisão busca equilibrar expectativa e experiência em um mercado cada vez mais competitivo e saturado de narrativas semelhantes.

O autocuidado que roda em segundo plano

A consolidação dessas bebidas levanta uma questão central sobre o papel do consumo na regulação emocional. Ao integrar o autocuidado à rotina de forma quase invisível, esses produtos sugerem uma terceirização parcial da gestão dos estados mentais. Em vez de construir equilíbrio por meio de práticas estruturadas, o consumidor passa a recorrer a soluções rápidas e acessíveis. A mudança não é necessariamente negativa, mas indica uma reconfiguração das estratégias de bem-estar.

Camargo reconhece que o fenômeno é multifacetado. “Acho que é um pouco de tudo, somado à falta de autoconhecimento”, afirma. Segundo ela, muitas pessoas ainda não conseguem identificar seus próprios ritmos e necessidades, o que dificulta a autorregulação. Nesse cenário, o consumo de produtos pode funcionar como apoio, mas não substitui um entendimento mais profundo do próprio corpo e mente. “Existem práticas que ajudam a entender o próprio ritmo”, acrescenta.

A fundadora também faz uma crítica à associação entre produtividade e privação, especialmente quando o assunto é sono. “Existe esse inconsciente coletivo de que quanto menos você dorme, mais produtivo você é, e isso é mentira”, afirma. Para ela, parte do desafio está em reconfigurar essa percepção e oferecer informações mais alinhadas com evidências científicas. Nesse sentido, produtos como esse não se colocam como solução isolada, mas como parte de um ecossistema mais amplo de cuidado.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo