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Israel e Líbano devem dialogar na semana que vem em Washington

O Líbano, porém, solicita um cessar-fogo antes de iniciar as negociações

Israel e Líbano devem dialogar na semana que vem em Washington
Israel e Líbano devem dialogar na semana que vem em Washington
Registro de bombardeio israelense em Beirute, no Líbano, em 8 de abril de 2026. Foto: Fadel Itani/AFP
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Israel e o Líbano manterão conversas na próxima semana em Washington, D.C., afirmou nesta quinta-feira 9 um funcionário norte-americano, enquanto cresce a preocupação de que os combates envolvendo o Hezbollah possam romper a frágil trégua entre Estados Unidos e Irã.

O bombardeio mais intenso de Israel contra o Líbano desde que o grupo libanês pró-iraniano Hezbollah entrou na guerra no Oriente Médio em 2 de março deixou, nesta quarta-feira 7, centenas de mortos, colocando em risco o cessar-fogo entre Washington e Teerã menos de 48 horas após sua entrada em vigor.

“Podemos confirmar que o Departamento de Estado sediará uma reunião na próxima semana para discutir as negociações sobre um cessar-fogo entre Israel e o Líbano”, declarou um funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos à AFP, sob condição de anonimato.

Após um apelo à contenção feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou nesta quinta-feira que ordenou ao seu gabinete iniciar “negociações diretas” com o Líbano, algo inédito em décadas.

Segundo Netanyahu, essas negociações “abordarão o desarmamento do Hezbollah”, que o governo libanês se comprometeu a realizar, “e o estabelecimento de relações de paz” entre os dois países, que ainda estão tecnicamente em estado de guerra.

O Líbano, que havia proposto essas conversas em 9 de março, quer, no entanto, “um cessar-fogo antes de qualquer início de negociações”, declarou à AFP um responsável libanês que pediu para não ser identificado.

O Hezbollah rejeitou qualquer negociação direta entre Líbano e Israel e pediu a “retirada israelense” do sul do país.

Novos bombardeios

De qualquer forma, Netanyahu já havia advertido anteriormente que os bombardeios contra o grupo xiita Hezbollah continuariam para restabelecer a “segurança dos habitantes do norte” de Israel, região fronteiriça com o Líbano.

À noite, o Exército israelense anunciou que havia começado a atacar “posições de disparo” do Hezbollah no Líbano.

Em Beirute, continuavam as buscas por vítimas após os bombardeios realizados simultaneamente por Israel na quarta-feira em várias regiões, que deixaram mais de 300 mortos e cerca de mil feridos.

Em Ain el Mreisseh, um bairro residencial à beira-mar, ainda havia corpos sob pedras e pedaços de metal, entre objetos da vida cotidiana como um boletim escolar ou um urso de pelúcia.

“Não sabemos onde está minha sobrinha”, disse à AFP Taha Qarqamaz, que também perdeu outra sobrinha e tem mais duas em estado grave.

“Inaceitável”

Trump confirmou nesta quinta-feira à NBC News que pediu contenção a Netanyahu, após o site Axios informar sobre conversas telefônicas na quarta-feira entre ambos e o enviado americano Steve Witkoff.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou como “inaceitável” a continuidade dos ataques de Israel contra o Líbano, durante uma viagem para se reunir com líderes do Golfo, com os quais pretende se comprometer a fazer respeitar o frágil cessar-fogo no Oriente Médio.

O Paquistão, mediador no conflito no Oriente Médio, denunciou nesta quinta-feira a “agressão” israelense contra o Líbano.

Ao anunciar o cessar-fogo, havia afirmado que ele se aplicaria “em todas as partes, incluindo o Líbano”, algo negado por Israel e Washington.

O Paquistão deve sediar a partir de sexta-feira negociações entre iranianos e americanos, estes liderados pelo vice-presidente JD Vance.

Em declarações à NBC News, Trump disse estar “muito otimista” quanto à possibilidade de concluir um acordo de paz, apesar da distância entre as posições dos dois países.

O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã descartou restringir o programa de enriquecimento de urânio, uma das principais exigências de Estados Unidos e Israel, que acusam o Irã de querer desenvolver uma bomba atômica — o que Teerã nega.

Concentração em Teerã

No Irã, milhares de pessoas se reuniram ao completar 40 dias da morte do líder supremo Ali Khamenei, quando um ataque conjunto de Estados Unidos e Israel desencadeou a guerra em 28 de fevereiro.

Entre a multidão, Nastaran Safai, uma estudante de 24 anos, considerou que o cessar-fogo representa uma “vitória” para o Irã.

“Tenho medo de que a guerra recomece e, ao mesmo tempo, tenho medo de que o regime permaneça” no poder, afirmou Sheida, uma designer gráfica de 38 anos.

Em uma mensagem lida na televisão estatal, o novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou que o Irã não quer a guerra, mas protegerá os direitos do país.

Um petroleiro não iraniano, o primeiro desde o cessar-fogo, atravessou nesta quinta-feira o Estreito de Ormuz.

Mas, após relatos de que o Irã estaria cobrando taxas dos petroleiros que passam por essa rota estratégica, Trump advertiu os iranianos que “é melhor não fazer isso”.

O preço do barril de petróleo americano, que nesta quinta-feira havia voltado a ultrapassar os 100 dólares, caiu no final do dia.

A Bolsa de Nova York fechou em alta, enquanto as bolsas europeias — já encerradas quando foram anunciadas as negociações diretas entre Israel e Líbano — não se beneficiaram dessa recuperação.

O Fundo Monetário Internacional estimou que a guerra no Irã pode levar 45 milhões de pessoas à insegurança alimentar.

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