Psicodelicamente
Psicodelicamente
Maior estudo já feito identifica ‘impressão digital’ dos psicodélicos no cérebro
Pesquisa publicado na ‘Nature Medicine’ analisou mais de 500 exames cerebrais de 267 pessoas em cinco países, incluindo o Brasil
Um megaestudo internacional publicado nesta segunda-feira 6 na revista Nature Medicine identificou uma “impressão digital neural” comum a diferentes substâncias psicodélicas, como LSD, psilocibina, DMT, mescalina e ayahuasca.
A pesquisa reúne mais de 500 exames cerebrais de 267 participantes, a partir da integração de 11 estudos conduzidos em diferentes países. Segundo os autores, trata-se do maior esforço já feito para entender, de forma unificada, como essas substâncias afetam o funcionamento do cérebro.
Os psicodélicos, destaca o principal achado do estudo, promovem um aumento do “cross-talk” entre diferentes sistemas cerebrais, ou seja, uma intensificação da comunicação entre áreas que normalmente operam de forma mais independente.
De acordo com os pesquisadores, essas substâncias aumentam a conectividade entre redes ligadas à percepção sensorial e aquelas associadas ao pensamento abstrato, reduzindo a hierarquia entre diferentes níveis de processamento do cérebro.
“Todas essas drogas parecem dissolver a ordem comum dos sistemas cerebrais”, afirmou o neurocientista Danilo Bzdok, da Universidade McGill, ao jornal britânico The Guardian. “Elas achatam essa hierarquia, o que pode estar relacionado ao que algumas pessoas descrevem como um acesso mais direto à própria consciência.”
No artigo (leia aqui a íntegra), os autores descrevem esse efeito como uma reconfiguração da organização cerebral em larga escala, marcada por um aumento da conectividade entre redes distintas do cérebro. Em termos mais simples, é como se áreas que normalmente “não conversam” passassem a trocar informação de forma mais intensa.
Esse padrão ajuda a explicar fenômenos frequentemente relatados em experiências psicodélicas, como alterações profundas na percepção, sensação de unidade e a chamada dissolução do ego.
Outro ponto relevante é que as mudanças não se limitam ao córtex cerebral. O estudo também identificou alterações em regiões mais profundas, como estruturas ligadas a hábitos, aprendizado e movimento, indicando que os efeitos dessas substâncias envolvem múltiplos níveis do cérebro.
Ao contrário de interpretações anteriores, que sugerem uma espécie de desorganização da atividade cerebral, os resultados apontam para algo mais específico. Em vez de caos, os psicodélicos parecem promover uma reorganização temporária das conexões entre diferentes sistemas.
O estudo afirma ainda que essas substâncias “reconfiguram a organização cortical em larga escala”, ao mesmo tempo em que modulam circuitos subcorticais, oferecendo uma das descrições mais abrangentes até agora dos efeitos dos psicodélicos no cérebro.
Os autores destacam que esse tipo de evidência pode ajudar a dar mais consistência ao campo, que vem crescendo rapidamente, mas ainda apresenta resultados fragmentados e, por vezes, contraditórios.
A pesquisa inclui também dados brasileiros com ayahuasca, embora com uma amostra reduzida, o que limita conclusões mais amplas sobre essa substância em comparação com outras mais estudadas.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



