Mundo
O que se sabe do resgate ‘histórico’ de aviador dos EUA no Irã
Operação complexa teve campanha de desinformação para enganar Teerã e participação da unidade da Marinha que matou Osama Bin Laden, segundo mídia americana
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou no domingo 5 o resgate dramático de um aviador abatido em um caça que caiu sobre o Irã, em uma operação que ele descreveu como uma das “mais audaciosas da história” de seu país. Teerã, entretanto, alegou que a missão foi “frustrada”.
Os fatos permanecem envoltos na névoa da guerra, enquanto as redes sociais foram imediatamente inundadas com imagens enganosas ou falsas.
Eis o que se sabe, com base em declarações públicas e reportagens da mídia:
Quem é o aviador?
Pouco se sabe sobre sua identidade, mas ele era o operador de sistemas de armas sentado atrás do piloto a bordo do avançado caça F-15E abatido na última sexta-feira.
O piloto teria sido resgatado por forças especiais em uma missão diurna na sexta-feira, logo após a queda da aeronave na acidentada província de Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad, no sudoeste do Irã.
Após ejetar, o especialista em armas desaparecido gritou “Deus é bom” pelo rádio, aparentemente refletindo suas firmes crenças religiosas, informou o site de notícias Axios, citando Trump e autoridades americanas.
Os aviadores americanos passam pelo chamado treinamento Sere – sigla em inglês para “Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga” – para o caso de terem que pousar em território hostil.
Seus coletes de combate contêm um transmissor codificado por rádio/GPS para transmitir sua posição, um dispositivo de comunicação, além de água, comida, material de primeiros socorros e uma pistola.
O aviador foi ferido após a ejeção, mas ainda conseguia andar, tendo escalado, segundo relatos, uma montanha por 2.100 metros antes de se esconder em uma fenda, de acordo com o jornal The New York Times e o portal Axios.
Trump escreveu no domingo que ele havia sido “gravemente ferido”. A emissora CBS News disse que ele havia sido transportado para o Kuwait.
Como se desenrolou a missão de resgate?
As autoridades iranianas imediatamente instaram a população local e membros de tribos a se juntarem às forças de segurança na busca pelo aviador, percebendo o potencial valor político e militar de capturá-lo vivo.
Isso desencadeou uma corrida durante o fim de semana, com imagens postadas nas redes sociais de aeronaves e helicópteros americanos voando baixo sobre o Irã.
A agência de inteligência americana CIA desempenhou um papel fundamental em sua localização e lançou uma “campanha de desinformação” com o objetivo de convencer as autoridades iranianas de que ele já havia sido descoberto, informaram o The New York Times e o Financial Times.
A operação de resgate, iniciada na madrugada de sábado para domingo, envolveu “dezenas de aeronaves”, segundo Trump, e centenas de soldados de operações especiais, incluindo comandos do SEAL Team 6 da Marinha, de acordo com reportagens da mídia americana.
A unidade de resgate de reféns e contraterrorismo da Marinha dos Estados Unido, mais conhecida por participar da operação de 2011 que matou o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, foi encarregada de resgatar o aviador, enquanto aeronaves de ataque americanas forneciam cobertura, acrescentou o The New York Times, citando fontes não identificadas.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse na segunda-feira que Trump “expressou seu apreço pela ajuda de Israel” na missão de resgate, sem fornecer detalhes sobre o papel do país.
O aviador foi resgatado quando as forças iranianas convergiam para o local e as forças americanas dispararam suas armas para mantê-las afastadas, segundo relatos.
Trump afirmou que nenhuma vida americana foi perdida.
O que diz o Irã?
Embora os militares iranianos afirmem que a operação americana foi “completamente frustrada”, não deram um relato completo dos acontecimentos.
Na noite de domingo, a agência de notícias Isna publicou uma foto divulgada pela Guarda Revolucionária que supostamente mostrava o “crânio de um soldado americano em meio aos destroços de um avião destruído”.
A Guarda não forneceu mais informações, exceto para acrescentar “mais uma prova da humilhante derrota do mentiroso Trump”.
O porta-voz militar iraniano, Ebrahim Zolfaghari, disse à mídia estatal que as forças americanas usaram um aeroporto abandonado na província de Isfahan, que fica a noroeste da área onde o aviador ejetou.
Ele disse que a aeronave estava participando de “uma missão de engano e fuga… sob o pretexto de resgatar o piloto de uma aeronave abatida”. A mídia estatal iraniana transmitiu imagens dos destroços carbonizados do que parece ser um avião em uma área desértica, enquanto autoridades afirmaram que dois aviões de transporte militar C-130 e dois helicópteros Black Hawk foram destruídos.
Nas imagens, duas hélices e motores carbonizados podem ser vistos claramente, com especialistas em geolocalização de código aberto afirmando que as imagens foram feitas a cerca de 50 quilômetros (30 milhas) ao sul da cidade de Isfahan.
O Wall Street Journal e outros veículos de mídia dos EUA, citando autoridades não identificadas, relataram que as forças americanas explodiram dois C-130 depois que eles ficaram presos, a fim de evitar que caíssem em mãos iranianas, com outras aeronaves sendo enviadas para levar as equipes de resgate para um local seguro.
O governador da província de Kohgiluyeh e Boyer-Ahmad disse à agência de notícias Mehr que cinco pessoas morreram e sete ficaram feridas na área montanhosa de Kuh-e Siah.
Mas o governador, Iraj Kazemijou, negou as notícias de que forças americanas haviam pousado na região, dizendo que eram “completamente falsas”.
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