Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Quando a experiência psicodélica saiu do laboratório e ganhou as ruas

O LSD atravessou a contracultura e se fixou como linguagem duradoura da experiência contemporânea

Quando a experiência psicodélica saiu do laboratório e ganhou as ruas
Quando a experiência psicodélica saiu do laboratório e ganhou as ruas
Congresso de psicodélicos em Denver, nos Estados Unidos. Foto: Reprodução
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Os anos 60 funcionavam como fábrica e caldeirão de cultura, arte, novos ideais, rebeldia — e, claro, psicodelia. Nas areias dos calçadões da Califórnia, circulava uma geração de jovens vislumbrados pela experiência psicodélica. No auge desse encantamento com o que percebiam como uma dimensão interior e cósmica recém-descoberta, alguns passaram a se ver como verdadeiros missionários do LSD.

Distribuíam não apenas panfletos, mas pequenas doses de substâncias que prometiam expandir a consciência e alterar, de forma duradoura, a percepção de si e do mundo. E havia, naquele momento histórico, razões para acreditar que isso seria possível. Antes disso, porém, essas experiências permaneciam restritas a laboratórios ou a contextos rituais específicos, em tradições ancestrais.

Foi no interior desses dois mundos — o científico e o ritual — que as substâncias psicodélicas começaram a ganhar forma no século XX. Na década de 1940, o químico suíço Albert Hofmann, nos laboratórios da Sandoz, sintetiza o LSD a partir de compostos derivados do ergot, um fungo que cresce sobre o centeio. Anos mais tarde, isolaria também a psilocibina, princípio ativo dos chamados cogumelos mágicos.

Em 1955, o banqueiro e micólogo amador R. Gordon Wasson participa de uma cerimônia com cogumelos ao lado da curandeira mazateca María Sabina, em Huautla de Jiménez, no México. Ele leva amostras para análise e, dois anos depois, publica na revista Life o artigo “Seeking the Magic Mushroom”, projetando aquele universo para além de seu contexto original. Entre os impactados estava Timothy Leary, que, em 1960, viaja ao México e experimenta os cogumelos. A partir daí, ajudaria a deslocar os psicodélicos do campo científico para um território mais amplo, onde ciência, cultura e experiência subjetiva passam a se misturar.

Paralelamente, essas substâncias eram produzidas em escala controlada. Em 1958, Hofmann sintetiza a psilocibina, e a Sandoz passa a distribuir LSD (Delysid) e psilocibina (Indocybin) para pesquisas em hospitais e universidades. Psiquiatras viam ali ferramentas promissoras. Ao mesmo tempo, militares e a CIA conduziam experimentos com essas substâncias, explorando seu potencial como agentes incapacitantes — uso que não se consolidou, mas revela o alcance das expectativas.

O que começa como pesquisa controlada, no entanto, não permanece assim. Ao longo dos anos 60, o LSD atravessa fronteiras institucionais e passa a circular em ambientes culturais e artísticos. Figuras como Owsley Stanley, conhecido como “Urso”, assumem a produção em larga escala, enquanto os Merry Pranksters, liderados por Ken Kesey, transformam o consumo em experiência coletiva nos “Acid Tests”.

Com a proibição a partir de 1966, essa circulação não desaparece, mas se reorganiza. Surgem nomes como os químicos Tim Scully e Nick Sand, ligados à Irmandade do Amor Eterno — apelidada pela imprensa de “máfia hippie” —, que operam redes internacionais de distribuição. Mais do que comércio, havia a ideia de difundir uma experiência e, com ela, uma forma distinta de perceber o mundo. A repressão cresce no mesmo ritmo. Relatos de experiências difíceis, acidentes e desorganização psíquica passam a conviver com o entusiasmo inicial, em um contexto de tensão social e oposição à guerra do Vietnã. Prisões e desarticulação de redes fragmentam esse movimento.

Ainda assim, ele não desaparece. Permanece em circuitos menos visíveis, atravessando décadas e reaparecendo em diferentes formas culturais. Mais tarde, a ciência retorna a esse campo, retomando, sob novos critérios, perguntas que haviam sido interrompidas. Mas algo essencial já havia ocorrido.

Em um momento específico, essas substâncias deixaram de ser apenas objetos de estudo ou elementos rituais e passaram a circular como parte de um projeto mais amplo, carregando valores e um espírito de época. A partir daí, escaparam ao controle de qualquer instituição ou grupo, inserindo-se de forma duradoura na cultura contemporânea — na linguagem, na estética e nas formas de investigar a mente.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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