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Considerações sobre o endividamento familiar
O avanço da inadimplência no Brasil serve de gancho para uma reflexão mais ampla sobre crédito, financeirização e o papel do Estado na contenção das crises
No Brasil, o forte crescimento do endividamento das famílias associou-se ao aumento da
inadimplência. Nada surpreendente. O governo do presidente Lula não poupa esforços para encontrar medidas que mitiguem essa situação.
Ben Bernanke, Hank Paulson e Tim Geithner escreveram o livro Apagando o Incêndio: A crise financeira e suas lições. Bernanke foi presidente do Federal Reserve. Paulson foi secretário do Tesouro. Geithner ocupava a presidência do Fed de New York.
Vou apresentar um excerto:
“Em 2009, a economia precisava desesperadamente de mais ajuda e, no início de março, o Fed lançou um experimento agressivo de estímulo monetário, conhecido como flexibilização quantitativa (quantitative easing),comprando títulos hipotecários e, depois, títulos do Tesouro, para reduzir as taxas de juros de longo prazo e combater a Grande Recessão. A rodada inicial, “QE1”, se expandiria para 1,75 trilhões de dólares em compras do Fed e enviaria uma mensagem indutora de confiança de que o Fed não ficaria parado, deixando a economia estagnar.”
Ben e seus colegas anunciariam QE2 e QE3 em 2010 e 2012, expandindo o balanço do Fed para mais de 4,5 trilhões de dólares, quase cinco vezes o seu pico pré-crise. Uma ampla gama de estudos acadêmicos constatou que a flexibilização quantitativa reduziu as taxas de longo prazo do Tesouro e das hipotecas e ajudou a apoiar a recuperação econômica; ela também incentivou outros bancos centrais a adotarem programas semelhantes para apoiar o crescimento global.
Na crise de 2008, o Federal Reserve e seus pares no mundo desenvolvido não vacilaram. Trataram de prover liquidez para conter, a qualquer custo, a contração do mercado nterbancário e a evaporação do dinheiro das famílias e das empresas aplicado nos mercados monetários de curto prazo. Os balanços dos bancos centrais abriram as comportas para a inundação de ativos sem preço ou reputação. O “independente” Fed utilizou trilhões de dólares para a compra de títulos podres privados.
A crise impõe aos governos manobras desesperadas de transformação de passivos privados em débitos públicos. Os bancos centrais – uns mais, outros menos – cuidaram de absorver ativos privados em seus balanços, enquanto os Tesouros se incumbiam da emissão generosa de títulos públicos para sustentar a liquidez das carteiras de ativos dos bancos privados.
A experiência do quantitative easing demonstra a articulação estrutural e contraditória entre o sistema de crédito, a acumulação produtiva das empresas, o consumo privado financiado a crédito e a gestão das finanças do Estado, particularmente da dívida pública.
No naufrágio financeiro, a estatização dos riscos e das perdas foi a tábua de salvação para os desatinos dos mercados privados. A crise demonstrou para os ecalcitrantres do mercadismo que o dinheiro é uma instituição social, cuja natureza não pode ser deduzida das “funções-utilidade” dos agentes privados “racionais”. Estamos falando do dinheiro como forma geral da riqueza, origem e finalidade incontornável de toda e qualquer operação mercantil entre agentes privados. O dinheiro é fim e não meio.
As relações entre as finanças públicas, a gestão monetária e o setor financeiro privado não são “externas”, de mero intervencionismo. São orgânicas e constitutivas. Nos tempos de “normalidade”, as formas socializadas do poder privado permitem diversificar a riqueza de cada grupo, distribuí-la por vários mercados e assegurar o máximo de ganhos patrimoniais, se possível a curto prazo. Os agentes dessas operações são as instituições da finança privada. São elas que procuram antecipar movimentos de preços e definir os instrumentos de hedge e os riscos de contraparte nos mercados financeiros contemporâneos.
Rendimentos nanicos dos bônus do Tesouro fumegam os vapores que sopram às alturas os preços dos ativos. Nas horas vagas, e nas outras também, as empresas se entregam à bulha da recompra das próprias ações e mandam bala na distribuição de dividendos com a grana do Federal Reserve.
A associação de interesses entre gestores e acionistas estimulou a compra das ações das próprias empresas com o propósito de valorizá-las e favorecer a distribuição de dividendos. A isso se juntam a febre das fusões e aquisições, o planejamento tributário nos paraísos fiscais, o afogadilho das demonstrações trimestrais de resultados e as aflições das tesourarias de empresas e bancos açoitadas com o guante da marcação a mercado.
Não são desprezíveis os riscos embutidos no comportamento dos mercados financeiros pós-crise, empurrados para outra bolha nas bolsas e nos preços elevados (e rendimentos baixos) dos bônus privados e públicos.
A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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