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Do Vaticano à América Latina: por que o mundo está olhando para o céu
O céu noturno deixou de ser coxia para se tornar palco. Em diferentes cidades do mundo, pontos de luz coreografados desenham figuras, narrativas e símbolos em movimento, quase como uma interface viva sincronizada com trilhas sonoras que expandem a experiência. O território antes dominado pelos […]
O céu noturno deixou de ser coxia para se tornar palco. Em diferentes cidades do mundo, pontos de luz coreografados desenham figuras, narrativas e símbolos em movimento, quase como uma interface viva sincronizada com trilhas sonoras que expandem a experiência. O território antes dominado pelos fogos de artifício abre espaço para uma nova linguagem visual, mais precisa, programável e silenciosa. Não se trata apenas de uma mudança estética, mas de uma reconfiguração de como o entretenimento é pensado, produzido e consumido, com impactos diretos na forma como o público se relaciona com esses eventos.
Esse movimento se conecta a uma transformação maior nas experiências ao vivo. Depois de anos marcados pelo consumo digital individual, cresce o desejo por eventos presenciais que ofereçam algo que a tela doméstica não entrega. Os shows de drones surgem exatamente nesse ponto de interseção, combinando tecnologia avançada e presença coletiva de forma quase indissociável. O céu passa a funcionar como um display expandido, compartilhado em tempo real por milhares de pessoas. Como resume Thiago Kodic, líder de Fever Originals no Brasil, “são experiências compartilhadas, com amigos, com a família”.
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Não por acaso, esse formato acompanha a ascensão de experiências imersivas que ocupam cidades e paisagens naturais de formas inéditas. O público deixa de apenas assistir e passa a habitar o espetáculo, seja em festivais, instalações ou apresentações ao ar livre. O entretenimento não é mais um produto fechado, passando a operar como sistema, dinâmico e responsivo, moldado pela interação entre tecnologia, ambiente e audiência. Nesse contexto, a experiência deixa de ser apenas visual e passa a ser também relacional.
O fenômeno global
Nos últimos anos, os shows de drones deixaram de ser exceção para se tornar presença recorrente em eventos de grande escala, como celebrações nacionais, cerimônias oficiais e festivais culturais. Em diferentes países da Europa e do Oriente Médio, esse tipo de espetáculo já substitui parcialmente os fogos tradicionais, combinando decisões estéticas e estratégicas. Os drones oferecem controle narrativo, precisão visual e menor impacto sonoro, um fator cada vez mais relevante em centros urbanos densos. Isso contribui para sua adoção crescente em contextos variados.
Esse avanço acompanha a evolução técnica da própria indústria. Segundo o relatório “Drone Light Shows Market Report 2025”, da MarketsandMarkets, o segmento apresenta uma das taxas de crescimento mais aceleradas dentro do entretenimento tecnológico. A combinação entre softwares mais sofisticados e hardware mais acessível tem ampliado o alcance desse tipo de espetáculo. Ele já não se limita a grandes eventos e começa a ocupar ativações de marca e iniciativas turísticas. Na prática, isso indica um mercado em rápida expansão e ainda em consolidação.
Essa expansão também é impulsionada por diferentes frentes de demanda. “Vem de tudo quanto é lugar: marcas, eventos de lançamento, turismo, experiências criativas”, afirma Kodic. Segundo ele, há um fator de curiosidade que impulsiona o interesse inicial do público, que muitas vezes ainda não sabe exatamente o que esperar. Por isso, a preocupação com a qualidade é central, já que a primeira experiência tende a moldar a percepção sobre o formato.
Há, aqui, uma mudança importante no próprio conceito de espetáculo. Se antes a grandiosidade estava ligada à intensidade ou ao volume, agora ela passa pela capacidade de construir imagens complexas e narrativas visuais em larga escala. Os drones ampliam o repertório criativo de forma significativa, permitindo desenhar no céu com precisão milimétrica. A lógica do impacto visual se torna mais sofisticada e menos dependente de recursos tradicionais.
Por que agora?
O avanço tecnológico é um dos motores desse crescimento, mas não é o único fator determinante. “A gente tem tanto o desenvolvimento da tecnologia quanto uma mudança cultural de como as pessoas enxergam o entretenimento ao vivo”, afirma Kodic. Segundo ele, a capacidade de coordenar até mil drones simultaneamente só se tornou viável recentemente, o que amplia significativamente as possibilidades criativas. Sem esse avanço, os shows seriam muito mais simples do ponto de vista visual.
Ao mesmo tempo, há uma demanda crescente por experiências coletivas. No pós-pandemia, a presença física ganhou novo valor e passou a ser mais buscada pelo público, que quer sair de casa e compartilhar momentos com amigos e família. Como aponta Kodic, não se trata apenas de assistir, mas de viver algo junto, interagir e dividir a experiência com quem está ao redor. Esse comportamento se encaixa diretamente no formato dos shows de drones.
Outro vetor importante é a busca por impacto visual em um ambiente saturado de imagens. Experiências que geram registros únicos ganham vantagem competitiva nas redes sociais. Os drones entregam formas tridimensionais em movimento e criam cenas difíceis de replicar, o que evita a repetição de formatos já saturados. A novidade se mantém como um ativo relevante dentro desse tipo de espetáculo.
Mais do que ferramenta, a tecnologia passa a operar como linguagem. O valor do espetáculo não está apenas na execução técnica, mas na forma como ela é usada para contar histórias. Como resume Kodic, o drone funciona como meio para criar narrativas envolventes, e não apenas como recurso visual. É essa camada narrativa que sustenta o interesse do público ao longo da apresentação.

Créditos: @konfotografia
Legenda: Thiago Kodic, líder de Fever Originals no Brasil
Bastidores da magia
Apesar da aparência fluida, a execução de um show de drones é altamente complexa e envolve múltiplas camadas técnicas. Existe uma percepção comum de que basta programar e iniciar a apresentação, mas isso não corresponde à realidade operacional. “Eu mesmo achava que era só apertar um botão”, diz Kodic, ao lembrar seu primeiro contato com o formato. Na prática, fatores como vento, chuva e variações de temperatura afetam diretamente o comportamento dos drones.
Essas condições exigem monitoramento constante e capacidade de resposta em tempo real. “Temos pilotos que fazem ajustes finos durante o voo para garantir que, independentemente das condições, o show seja o melhor possível”, afirma. Pequenas variações, como diferenças de vento em alturas distintas, já são suficientes para exigir correções. A margem de erro precisa ser mínima para manter a precisão das formações.
A tecnologia embarcada também é determinante. Os drones utilizam GPS de alta precisão e sistemas avançados de navegação, o que permite manter posições exatas dentro de uma coreografia coletiva. Cada unidade funciona como um pixel em uma tela tridimensional, criando imagens complexas a partir de múltiplos pontos de luz. Esse nível de coordenação é o que viabiliza o detalhamento visual. E, quando há integração com música, a complexidade aumenta ainda mais. Em apresentações baseadas em obras como As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi, existe sincronização entre músicos no solo e movimentos no céu. Como explica Kodic, há casos em que um quarteto de cordas toca ao vivo enquanto os drones acompanham cada trecho. O resultado depende de uma precisão temporal rigorosa.
Arte, música e algoritmo
A transformação dos drones em linguagem artística passa pela construção de narrativas visuais estruturadas. “O drone, nesse formato, nada mais é do que um pixel”, afirma Kodic. Cada ponto de luz funciona como parte de uma imagem maior, assim como em uma tela ou em uma pintura. A diferença é que essa “tela” está em constante movimento, o que amplia o potencial expressivo do formato. O storytelling ganha protagonismo nesse contexto e redefine a lógica das apresentações. Segundo Kodic, o público valoriza cada vez mais histórias com começo, meio e fim, em vez de sequências desconexas. Os drones permitem construir essas narrativas de forma visual, sincronizando movimento, luz e música. A experiência se torna mais envolvente e menos fragmentada.
A relação com a música também é central. No caso de espetáculos baseados em As Quatro Estações, de Antonio Vivaldi, a trilha funciona como ponto de partida criativo. “É difícil separar o que vem primeiro, som ou imagem, porque tudo se constrói junto”, explica Kodic. Ainda assim, a escolha de uma obra já consagrada ajuda a criar conexão imediata com o público. Além disso, há uma liberdade criativa ampliada. Diferentemente dos fogos de artifício, os drones não dependem de reações químicas e permitem movimentos complexos e precisos. “Podemos criar praticamente qualquer coisa. O céu é o limite”, afirma Kodic. Isso abre espaço para experimentações visuais mais abstratas e para novas formas de expressão artística.

Créditos: Divulgação
Legenda: Cena do espetáculo DroneArt Show
Sustentabilidade e controvérsias
Um dos principais argumentos a favor dos drones é o impacto ambiental reduzido em relação aos fogos de artifício. Há menos ruído e menor emissão de resíduos químicos, o que se torna especialmente relevante em áreas urbanas densas. Esse fator tem levado cidades a reconsiderar o uso de fogos em celebrações públicas. A substituição parcial surge como uma alternativa cada vez mais presente. Ainda assim, não se trata de uma substituição completa. “É possível replicar fogos com drones, mas também ir muito além”, afirma Kodic. Segundo ele, os dois formatos operam como linguagens diferentes, com possibilidades próprias. Enquanto os fogos são limitados por reações químicas, os drones permitem maior liberdade criativa. O repertório, portanto, se amplia.
Por outro lado, existem limitações importantes. Condições climáticas adversas podem inviabilizar apresentações, e os custos de produção ainda são elevados. Além disso, o processo envolve autorizações e certificações complexas, especialmente em grandes centros urbanos. Esses fatores indicam que o mercado ainda está em fase de consolidação. A tendência, no entanto, é de evolução contínua. Avanços tecnológicos devem reduzir custos e ampliar a acessibilidade ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, novas combinações começam a surgir. Como aponta Kodic, o futuro passa por integrar drones com elementos no solo, como iluminação, lasers e música ao vivo, criando experiências ainda mais completas.
São Paulo entra no circuito
No Brasil, a realização de shows de drones em São Paulo marca a entrada da cidade em um circuito global de entretenimento tecnológico. A escolha do local envolve desafios específicos relacionados ao espaço aéreo. A proximidade com Aeroporto de Congonhas e Aeroporto Internacional de Guarulhos exige planejamento rigoroso para evitar interferências. “O grande desafio foi encontrar um espaço que fosse acessível e seguro”, explica Kodic. O processo envolve autorizações de órgãos como ANAC e Anatel, além de validações técnicas detalhadas. A prioridade, segundo ele, é garantir que não haja riscos nem interferência em operações aéreas.
A realização desses eventos também altera a forma como a cidade é ocupada. “O céu funciona como a maior tela possível”, afirma Kodic, ao destacar o impacto da experiência coletiva. Parques e áreas abertas ganham novos usos, especialmente à noite, e o público passa a buscar vivências que rompam com a rotina. A experiência deixa de ser individual e se torna compartilhada. Essa mudança aponta para um novo comportamento urbano. As pessoas passam a ocupar a cidade de forma diferente, motivadas por experiências imersivas e coletivas. O entretenimento deixa de estar restrito a espaços fechados e ganha escala aberta. Nesse cenário, os shows de drones não são apenas um espetáculo, mas um indicativo de como a tecnologia está redesenhando o uso do espaço público.
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