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As coisas como elas são

Em Autocracia Made in USA, Gisele Agnelli cataloga o trumpismo

As coisas como elas são
As coisas como elas são
Retrato. Manifestante detida pela polícia de Los Angeles. Abaixo, a autora, cuja obra cumpre a rara função de incomodar, informar e convocar os leitores à reflexão – Imagem: Etienne Laurent/AFP e Redes Sociais
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Muitos livros excepcionais nascem do desconforto e da inquietação de quem está observando, de perto, o desenrolar da história. Esse é o caso de Autocracia Made in USA, de Gisele Agnelli. Reunindo colunas, análises e entrevistas escritas (sobretudo) ao longo de 2025, a obra documenta, a quente, as tensões institucionais, partidárias e eleitorais que seguem assombrando os Estados Unidos, bem como a metamorfose do sistema político norte-americano sob o segundo governo Trump.

Quem me apresentou ao trabalho da autora foi meu colega Fernando Abrucio, que prefacia o livro. Passei a acompanhar os textos de Gisele em diversos veículos, sempre cativado pela maneira didática e contundente com que trata dos temas da política norte-americana – e as inevitáveis comparações com nossas próprias crises, turbulências e reviravoltas.

Não surpreende que a coragem seja o primeiro – e mais notável – traço do livro. Cientista política, mulher latino-americana e imigrante, Gisele Agnelli escreve a partir de uma sociedade onde a condição de estrangeira já é em si um alvo. Num país que voltou a usar a deportação como instrumento de intimidação política, e num estado governado por republicanos afinados com as alas radicais da Casa Branca, a autora não apenas recusa o silêncio como o converte em combustível analítico.

Autocracia Made in USA. Gisele Agnelli. Kotter Editorial ­­(264 págs., 74,91 reais)

Os textos de Gisele nomeiam o trumpismo pelo que é: um empreendimento autocrático em tempo real, transmitido ao vivo pela imprensa e redes sociais, tal qual um reality show. Ao fazê-lo, a autora desafia a normalização da barbárie e denuncia, ponto a ponto, o desmonte das instituições democráticas: o esvaziamento do Congresso, a captura do Judiciário, a instrumentalização do federalismo, os ataques às universidades, à imprensa e aos imigrantes. Fazer isso de dentro, com nome e rosto, é um ato político em si mesmo.

O segundo grande mérito do livro é oferecer um olhar comparado que poucos analistas norte-americanos conseguem formular com a mesma acuidade. Gisele pensa os Estados Unidos com o repertório de quem viveu o bolsonarismo, conhece os meandros do autoritarismo emergente e sabe distinguir as conjunturas dos processos estruturais. A tese que percorre toda a obra é a de que a crise norte-americana e a experiência brasileira não são capítulos separados, mas faces de um mesmo processo transnacional, a ascensão de nacionalismos tóxicos que minam, por dentro e dentro da legalidade, os pilares da democracia liberal.

Parece um paradoxo, mas não é. Os ultranacionalismos contemporâneos são movimentos profundamente interconectados. Esse fenômeno da transnacionalização da extrema-direita, embora bastante analisado academicamente, ainda não recebeu a devida atenção na conversa jornalística ou nas leituras conjunturais. Como seu livro atesta, Gisele é uma das primeiras analistas não só a reconhecer essa dimensão transnacional, mas de colocá-la no centro do quebra-cabeça que conecta Brasil e Estados Unidos, dois países que, cada vez mais, se refletem como num espelho distópico.

Por fim, há a linguagem. Autocracia Made in USA é um livro de cientista política que quer ir além dos muros da academia. Gisele sabe que seu interlocutor é o cidadão curioso e bem informado. Por isso mesmo, é capaz de combinar dados econômicos, análise institucional e depoimentos de especialistas sem jamais perder a clareza ou a força narrativa. O resultado é um livro que informa, analisa e tensiona – cumprindo a função mais honesta que um ensaio político pode cumprir: provocar o incômodo do qual, nas palavras da própria autora, nasce a transformação.

Embora sejam inegáveis os méritos dessa coletânea de reflexões e análises sobre as transformações na política norte-americana, o livro deixa uma lacuna importante. Gostaria de ter visto uma seção dedicada aos movimentos tectônicos da sociedade estadunidense, para além dos dilemas institucionais. Como descrever e compreender esse mosaico demográfico que compõe o movimento MAGA? O que as fraturas sociais dos EUA nos dizem sobre a própria realidade brasileira? Acima de tudo, como podemos pensar coletivamente o futuro, de maneira realista e altiva, a partir dos desafios que hoje se colocam?

Num momento em que as democracias pelo mundo se veem diante de amea­ças que não são episódicas, mas estruturais, Autocracia Made in USA cumpre uma função rara: incomoda, informa e convoca à reflexão. •

*Cientista político e professor universitário.


VITRINE

Por Ana Paula Sousa

Chegou às livrarias a segunda parte da trilogia sobre Lula assinada por Fernando Morais. Lula – Volume 2 (Companhia das Letras, 352 págs., 89,90 reais) relata a trajetória do presidente desde o fim da ditadura até sua primeira vitória nas eleições presidenciais, em 2002.

Em Pi: Uma Biografia Infinita (Tinta da China, 79,90 reais, 144 págs.), os matemáticos Mahsa Allahbakhshi e Verena ­Rodríguez e o ilustrador Andrés Navas transformam o número representado pela letra grega π – e normalmente arredondado para 3,14 – em narrador da própria história.

A botânica e professora indígena Robin Wall Kimmerer, best seller com A Maravilhosa Trama das Coisas, procura com O Fruto da Generosidade (Intrínseca, 112 págs., 64,90 reais) desconstruir as ideias de consumo em defesa de uma vida ­baseada no valor dos relacionamentos.

Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘As coisas como elas são’

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