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O ostracismo lhe cai bem

Após ter sido “cancelado”, acusado de racismo e xenofobia, Morrissey surge poético e melancólico em um novo disco

O ostracismo lhe cai bem
O ostracismo lhe cai bem
Voz . As redes sociais aumentaram o ruído em torno do ex-líder da banda The Smiths – Imagem: Katarina Dzolic/RockOn Festival
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Horas depois de o cantor e compositor inglês ­Morrissey ter conquistado a terceira posição nas paradas britânicas com seu novo álbum, Make-up Is a Lie, lançado no início deste mês, o artista nomeou, durante passagem de sua turnê por Valência, na Espanha, os executivos que, segundo ele, trabalharam para “sua retirada de circulação”.

O novo álbum saiu seis anos após as portas de gravadoras, imprensa e rádios ficarem fechadas para sua música. O ostracismo seguiu-se a várias celeumas envolvendo o cantor, com acusações de racismo contra imigrantes e de proximidade com partidos e ideias de extrema-direita.

“Agradeço, emocionado, a todos que trabalharam para tornar o dia de hoje possível. Foi uma longa e árdua batalha, lutando constantemente contra aqueles que se esforçaram tanto para me tirar de circulação (…) sendo que nenhum deles tem qualificação moral para julgar outra pessoa”, afirmou.

Na sequência, ele alfinetou a indústria fonográfica e os artistas que estão em primeiro ou segundo lugar nas paradas de sucesso. Os cantores que atingiram essas posições são, a seu ver, “fabricados”, e não criadores entendidos, por alguns, como de difícil leitura – o seu caso. “E é confuso porque é o som de emoções reais, canções verdadeiras, pessoas reais”, concluiu.

Falas como essa contribuíram para que as gravadoras o abandonassem. Em 2020, em uma entrevista, Morrissey disse que as empresas apostavam apenas em “mais do mesmo” buscando lucro rápido, investindo mais em uma pretensa diversidade do que em talentos. Acusou-as, ainda, de agir como ditadores.

As afirmações o levaram a perder o contrato com a BMG e a ter um álbum já gravado engavetado pela Capitol Records­: Bonfire of Teenagers. O título, que significa, em português, ­Fogueira de Adolescentes, teria sido inspirado na explosão ocorrida em uma arena, em Manchester, durante um show da cantora pop Ariana Grande, em 2017. ­Morrissey, à época, sugeriu que o ataque, no qual 22 pessoas morreram, teria sido praticado por imigrantes.

Mas a verdade é que as polêmicas o acompanham desde muito antes da era do cancelamento. Ainda na banda The Smiths, que liderou entre 1982 e 1987, incomodou muita gente com músicas como Girlfriend in a Coma, sobre overdoses entre adolescentes, e The Queen Is Dead, sobre a família real britânica. Ambas foram consideradas de mau gosto.

Morrissey acreditava ser preciso falar sobre esses temas, assim como de tantos outros que se tornaram constantes em sua obra, como a alienação e a artificialidade das relações – tratada, por exemplo, em Everyday is Like Sunday.

Vegetariano convicto, o artista, certa vez, disse que os chineses eram uma subespécie por, em certos festivais, assarem cães vivos. Outra vez, pediu para os paquistaneses enterrarem seus sonhos ocidentais. Esse tipo de observação, amplificada pelas redes sociais, fez com que, a partir dos anos 2020, a imprensa e as rádios britânicas o deixassem de lado. Para seus críticos, ele compôs I Am Not Sorry – Não me Arrependo.

O álbum Make-up Is a Lie não abandona a crítica social, mas carrega um evidente cuidado para evitar controvérsias

Parte dos fãs, no entanto, manteve-se fiel a ele, o que explica a alta colocação do novo disco nas paradas e o sucesso da recente turnê. Os ingressos estão esgotados na maioria dos estádios europeus.

Make-up Is a Lie é um bom retorno, com algumas canções memoráveis, no estilo poético e melancólico de Morrissey­, sempre com citações literárias e cinematográficas, sem abandonar a crítica social. Há, no entanto, um evidente cuidado para evitar controvérsias.

Na canção Notre-Dame, em que nutre uma teoria da conspiração sobre o incêndio na catedral parisiense, ele retirou, no trabalho de estúdio, um verso alusivo a imigrantes – antes da gravação em estúdio, ele cantava a música ao vivo com um verso adicional. A produção ficou a cargo de Joe Chicarelli, seu parceiro há mais de uma década, capaz de criar uma cama de sons eletrônicos para os músicos, sem afetar a origem roqueira das canções.

Na canção-título, algo como Maquiagem É Uma Mentira, Morrissey volta a temas como a artificialidade das relações. Em Lester Bangs, presta uma homenagem ao crítico musical de mesmo nome.

Com certa predisposição para criticar tanto a música quanto os músicos, ­Bangs ficou conhecido – assim como ­Morrissey – por suas posições ferinas. Demitido da revista Rolling Stone, fundou a Creem, que viria a ser uma bíblia da música alternativa nos anos 1970.

O âmago do álbum é, contudo, The Monsters of Pig Alley, algo como Os Monstros de Pig Alley. Com narrativa tensa, a canção fala de pais amorosos e preocupados que pedem para o filho, que tem pretensões artísticas, voltar para a segurança do lar, longe dos excessos da vida nos palcos.

O filho (Morrissey?) consegue fama e fortuna, mas logo é esquecido e morre abandonado. Morrissey tem dito que os monstros são os pais que tentam impedir a ascensão do filho. Mas as imagens exibidas na turnê durante a execução da canção ajudam a contar uma história diferente.

Enquanto Morrissey canta, o telão exibe trechos do filme Drácula (1931), com Bela Lugosi como o vampiro e Dwight Fyre como seu empregado leal Renfield. Confiando em Drácula, Renfield entrega seu pescoço ao vampiro na busca pela imortalidade, mas é morto. Em um jogo de som e imagem, Morrissey reforça a ideia, presente na letra, de que a busca de fama nem sempre acaba bem, principalmente na indústria musical: Quanto mais alto você sobe/menos você encontra. •

Publicado na edição n° 1407 de CartaCapital, em 08 de abril de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O ostracismo lhe cai bem’

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